Trilogia Tormenta — O Inimigo do Mundo


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O P S  D 
O Inimigo do Mundo
acompanha a jornada de nove heris na caada ao misterioso
assassino conhecido apenas como o albino
, pelo mundo medieval de Arton. Mas
a perseguio mais do que aparenta, pois os aventureiros sentem as mos divinas
puxando as cordas ao seu redor para eles, a misso ser uma viagem ao inferno.
Primeiro trabalho do consagrado autor Leonel Caldela (
Trilogia da Tormenta
O Caador de Apstolos
Deus Mquina
O Cdigo l co
e o primeiro romance de
Tormenta
O Inimigo do Mundo
retorna nesta
edio especial, com notas do autor,
conto extra e galeria de arte.
O Inimigo do Mundo
foi composto na verso
pro ssional da tipologia Adobe Jenson, em corpo 10/14,
e impresso em papel Chamois Bulk Dunas 80 g/m

A M   C 
Crnio Negro liderou os brbaros pela passag
O C#  C
Que Ashlen Ironsmith era importante, disso no havia dvida. Era vital captur-lo
primeiro, e depois mat-lo.
Depois
. Apenas mat-lo teria sido fci
l, mesmo em Valkaria, onde
a caada comeara, mesmo nos outros lugares. Mas era difcil captur-lo.
Houvera muitos outros mais poderosos. Crnio Negro no recusava alvos por sua
habilidade. Mortes por dinheiro, mortes por
estratagemas, mortes para satisfazer seus
senhores ele era o maior caador de recompensas do mundo, e j caara heris. Heris
eram a
, homens eram a caa, gente era a caa.
Crnio Negro j morrera vezes sem conta em meio s caadas. s vezes, a morte era algo
inevitvel, por mais que ele planejasse. s ve
zes, era conveniente, e fazia mesmo parte de um
ardil. Morrer era trivial. Ashlen Ironsmith no o matara nenhuma vez, mas era escorregadio.
Ele no duvidava, nem por um instante, de
que fosse agarrar a presa. Ashlen poderia
fugir por todo o continente, por todo o mundo,
e encontraria armadilhas e tramas, aliados
e emboscadas de Crnio Negro. No eram bravatas, Crnio Negro no fazia bravatas. Era a
A M   C 
Mal se ouviam os furiosos pingos de chuva do outro lado das paredes.
Orion olhou em volta. Ingram, mesmo botando sa
ngue e fedor aos borbotes pelo estmago,
no era o mais ferido. Um dos soldados segurava um brao decepado na altura do cotovelo, com o
disparatado rosto calmo de quem ainda no perceb
eu. Alguns exibiam tantos cortes que Orion no
tinha certeza de como estavam vivos. Um peito afundado fazia com que um sargento se afogasse no
prprio sangue. No eram uma viso animadora, e eram poucos. Trebane despejava um pouco do
poder vital de Allihanna, curando alguns, ma
s outros j estavam alm de qualquer ajuda.
L fora, mais um trovo, e ainda urros b
rbaros. A pesada porta estremeceu e rangeu.
No duraria quase nada.
O C#  C
Sbito, Crnio Negro saltou, e a lama logo abaixo espirrou para todos os lados, com um
tiro de Ingram. Mal tinha aterrissado, e Trebane
surgiu-lhe por trs, os cascos erguidos para
atropelar. Crnio Negro evadiu-se do centauro, usando a capa para disfarar o corpo, mas
estava cercado. Orion estocou com a espa
A M   C 
infmia e o medo que acompanhavam o caador de recompensas, e o visco de maldade que
empesteava o ar ao seu redor, eram bons arautos.
O C#  C
Orion girou, derrubou mais dois, viu alguns brbaros desarmados, alguns soldados
sabendo se aproveitar disso. Ergueu o escudo para bloquear um machado, mas a cabea do
atacante estourou, com um tiro de Ingram.
Virou-se, mal vendo o enorme homem que iria
golpear e, sbito, o
o da espada riscou algo duro, num barulho que feria os ouvidos.
frente de Orion estava um brbaro com tatu
agens e cicatrizes, e mais alguma coisa. Seu
peito era coberto de uma espcie de armadura
no, no armadura
. Uma placa resistente,
que fazia parte dele prprio. Como a carapaa de um besouro. Os olhos do homem tinham
um brilho avermelhado, que no era s raiva. E a pele cintilava com um visco repugnante, de
cheiro cido. E Orion soube que a batalha estava perdida.
O brbaro usava dois machados, como se golpeasse de mos nuas. Sua velocidade no
A M   C 
tiro era uma morte, e ele berrava imprecaes quan
do acertava um peito, e no uma testa, olho
ou garganta.
Trebane ceifava. Segurava a enorme foice com as duas mos, e cortava os brbaros como
trigo. Um invasor mais franzino
chegou-lhe por trs e foi dividido em dois. O centauro erguia-
se nas patas traseiras, e usava os cascos para esmagar crnios, pisotear os meio mortos, afastar
os mais covardes.
Vocs so a caa, ovelhas! gritava. Vocs so a caa!
Queimem por Allihanna!
E, sbito, uma coluna de chamas incinerou
trs brbaros distantes. O centauro tinha
tanto prazer no combate corpo a corpo que quase esquecia dos dons msticos da Deusa da
Natureza. Urrou outra prece selvagem, e os relmpagos aumentaram, e logo um raio fulminou
um inimigo, e outro e outro. Os soldados
tremeram, mas aqueles eram os raios limpos da
natureza, a tempestade de Arton. Do cho de lama sanguinolenta, erguiam-se gavinhas,
enredando os invasores. A natureza voltava-se contra os brbaros, e Trebane exultava.
Mas, se havia colinas de cadveres por onde passavam os trs, os soldados no tinham
o mesmo sucesso. Orion havia formado-os em uma parede de escudos, mas o choque dos
primeiros brbaros conseguiu quebrar a linha
defensiva. Soldados e invasores estavam
espalhados, lutavam sem ordem, sem tcnica. Or
ion sabia que apenas um homem muito forte,
abenoado ou sortudo vencia uma luta sem tcnica. Os soldados do forte Arantar no eram
fortes nem sortudos, e muito menos abenoados.
Mantenham as posies! gritava o cavaleiro. Lutem como vocs foram treinados,
com todos os demnios! Mantenham a ordem!
Os homens perdiam qualquer semelhana de
ordem, estavam no arrabalde do pnico, e
Orion no duvidava que comeassem a fugir logo. Eles golpeavam quando viam uma chance,
protegiam-se quando no viam, e aceitavam cada engodo inimigo. Pensavam antes de golpear,
o que era absurdo. Nunca lhes ocorria defender
os companheiros, e assim todos caam. Sem
sair do ritmo de morte, Orion viu que era uma chacina.
Um bando de invasores pulou das ameias, caindo em um grupo mais ou menos
compacto.
Comigo! gritou Orion. Soldados, comigo! Carga!
Um punhado correu a ele, como se puxados
por cordas. Alguns morreram por distrao,
cumprindo a ordem sem ver um inimigo ao lado. Orion bateu com o escudo em trs brbaros
sua frente, e abriu caminho para aquela fo
rmao precria correr, numa cunha malfeita,
encabeada por ele prprio.
Carga! Khalmyr! Khalmyr!
O nome do Deus da Justia trovejou em dez ou doze goelas, e a investida pegou os
brbaros ainda levantando-se do salto. A espada
de Orion cortou duas cabeas e arrancou um
brao, e ele penetrou fundo no grupo inimigo,
enquanto os soldados usavam as espadas como
faces, mas matavam alguns.
O C#  C
Sbito, um estampido mais alto que os troves, um estouro seco que fez zumbir os
ouvidos mais prximos, uma nuvem de fumaa, e a cabea de um dos brbaros explodira.
Ingram como um grande pedregulho com um longo cano de ri
e, tapado de um manto oleado
que ele usava para manter seca a plvora.
Comam chumbo, desgraados! gritou o ano.
Orion aceitou aquilo como declarao de guerra.
Arqueiros, agora!
A M   C 
Suba nas ameias e d uma olhada neles, Trebane disse Orion. Quero saber se
h um mago.
No vou subir naquela porcaria nem que ha
ja um batalho de arquimagos e dois
deuses menores rugiu Trebane. Centauros odiavam alturas.
Preciso saber se h um mago.
Vamos fazer um acordo: eu mato todos e, se houver um mago, mato ele tambm.
Orion sabia que era impossvel discutir com o amigo, mas um o
cial tomou aquilo como
licena para question-lo.
Cavalario comeou, mas o rosto foi su
ciente para mudar seu tom e suas palavras:
Sir
cavaleiro...
Orion ordenou que falasse.
Por que no nos posicionamos dentro do castelo? A defesa seria muito mais fcil.
Contra um exrcito, sim disse Orion. Mas no contra Crnio Negro. Ele estaria
dentro, e matando, antes que vocs percebessem. Em posio, soldado!
O o
cial correu, quase com medo, quase grato. Aqueles eram soldados de mentira, sargentos
de outros anos, o
ciais de des
le mas comeavam a sentir um gosto da vida militar verdadeira,
e inebriavam-se. Era a opinio de Orion que home
ns s precisavam de um incentivo e um lder
para serem heris. Ele no esperava que a guarnio de Arantar
zesse herosmos, mas esperava
que lutassem; no esperava que lutassem bem, ma
s esperava valentia. Mesmo alguns serviais
haviam pego em armas eram agora tambm soldados. Soldados ruins, mas soldados.
A chuva apagava qualquer tocha ou lamparina, e por isso a nica luz vinha de dentro do castelo
e de um punhado de velhas pedras encantadas, j meio gastas ou esmaecidas. Por um lado, seria o
inferno lutar assim. Por outro, melhor que os
homens no vissem a superioridade do inimigo. O
ptio era grande demais, como grande demais era
o castelo, e o contingente estava longe de ocup-
lo todo. Orion sabia que, se tivessem um mnimo de ttica, os brbaros iriam
anque-los. Mesmo
sem isso, era difcil montar uma defesa em terren
o to aberto, com homens to desprovidos de
experincia e talento. Ele contava
consigo mesmo e com Ingram e Treb
ane para rechaar a primeira
leva, para matar quantos pudessem e espalhar o resto, tornar o combate possvel.
Quatro escadas altas bateram-se contra os muros do forte e logo surgiram as primeiras
O C#  C
No so apenas os animais que pressentem a morte, capito Ulam.
Logo voltaram os dois o
ciais, trazendo o enorme e pesado fardo que aquele cavalario
RNIO NEGRO ERA MAIS DO QUE O MAIOR CAA RECOMPENSAS
do mundo, embora isso no fosse pouco. Era
um criminoso temido em todo o continente, um
assassino procurado em todos os reinos. Crnio
Negro, o matador imortal, rosto nunca visto,
O Inimigo do Mundo
a primeira parte da
Trilogia da
Tormenta
. Acompanhe, a seguir, uma amostra de
por
A pica continuao desta saga!
Capa da segunda edio de
O Inimigo do Mundo
Aliengenas, incompreensveis e mortais os demnios da Tormenta.
"E as criaturas insetoides chegavam do cu e do nada, e agora tudo
j era cor de sangue, e a chuva vermelha era torrencial."
Ali a escurido era vermelha.
Duas mulheres haviam feito a meno de berrar quando ele se aproximara,
mas agora jaziam de pescoos quebrados, em silncio.
Nichaela, preparando-se para aparecer aos convidados, sorria.
Na massa de desdentados com barba por fazer, destacavam-se apenas o capito Sig e seu
imediato, que era assi
m chamado por falta de termo melhor, j que era uma mulher.
Que se registre isso, pois foi a coisa mais importante
que disseram em suas vidas.
Depois disso, ainda tivemos vrios meses de
mensagens, at o romance estar pronto. Mas
a trilogia comeou com essas ideias. Muita coisa mudou, muita coisa permaneceu igual. Um
N 
Samurai: O que ela sabe sobre a vida? s uma menina.
Paladino de
yatis: No. Ela uma clriga de Lena. J uma
mulher
uma raa diferente de humano, mas nada muito realmente diferente, como minotauro, nagah
ou goblin. Pelos relacionamentos sugeridos pelo Leonel,
ca difcil colocar raas dspares, mas
acho que seria uma boa ideia pensar no assunto. (...)
Sou favorvel motivao dos demnios no
car clara para o leitor. (...) Se bem que o
lance da vingana pelo soldado derrotado muito interessante. (...)
[Os demnios buscarem algo em Arton]
me parece o motivo mais sensato. Ou
simplesmente o contrrio, eles querem des
truir algo que eles tambm no sabem o que
vem a ser. (...) Como se coisas que no deveriam existir (ns!) devessem ser exterminadas. (...)
Gosto da ideia
[de retaliao]
, mas a mais irracional de todas. Ou talvez por isso que eu
goste dela. Pode dar uma ideia de como estranhos so os bichos e suas crenas.
Leonel (23/10/2003), falando sobre os personagens do romance, em verso mais avanada,
mas ainda no pronta:
Guerreiro Ken: humano.
Ranger: meio-elfa.
Mago: humano.
Samurai: humano.
Clriga de Lena: elfa.
Paladino de
yatis: humano.
Guerreiro ou brbaro: minotauro ou outra raa estranha.
Eu acho interessante mostrar
um membro de uma raa extica j encaixado no grupo.
Isto aumentaria o sentimento de inadequao do mago (...) e a estranheza do samurai (o
grupo no julgaria os membros pela raa, mas pelas atitudes). Ao mesmo tempo, aumentaria
o sentimento de famlia do grupo.
Clrigo ou guerreiro: ano. (...)
Na minha viso, os personagens centrais seriam o mago, o samurai e a clriga.
Trevisan, 24/10/2003:
Eu tive uma ideia mais legal. E se o mi
notauro fosse um clrigo de Tauron? Alm
de sair do clich minotauro
brbaro/guerreiro, ainda justi
caria sua simpatia pela
clriga de Lena: por ser clrigo do Deus da
Fora, ele iria encar-la como sua protegida.
A gente podia botar um quinto
Beatle
. O cara que saiu do grupo antes da merda acontecer
mas meio que descon
a do que houve. Esse cara podia ser o elo de ligao entre o grupo novo
e o velho. Um ladro, talvez...
Quanto ao fato da clriga de Lena j ter uma lha: eu acho isso genial!
N 
Leonel, no mesmo e-mail, falando sobre o  nal do livro:
En m, os aventureiros sobreviventes escapam de volta ao plano material. Alguns
demnios vm junto porque os heris no sabem fechar a passagem direito.
[Os demnios]
de termos encontrado algum capacitado e (esperamos)com tempo pra aplicar nessa rdua
tarefa: nosso amigo Leonel (...).
Nosso papel aqui ajudar o rapaz, fornecendo as guias da histria e editando o material
em conjunto. O Jamil tambm deve funcionar como caa buracos o
cial (...).
A gente podia comear discutindo a ideia bsica que eu conversei com o Leonel (...).
Ah sim. O tema do primeiro livro nada
mais nada menos do que a origem da Tormenta.
No mais, sejamos todos bem-vindos!
Pois , o Trevisan me ofereceu o conto na
Revista Tormenta
n 15 depois de ler um conto
que eu tinha deixado na mo dele... Ao invs de me chamar de doente pervertido pela natureza
do texto, o cara me contatou com essa oportunidade. (...)
No primeiro livro, apresentamos um grupo de aventureiros. Esses caras so os responsveis
pela porcaria toda. O mago do grupo comea a entrar em contato com estudos de outros
planos, descobre o lar dos demnios da Tormenta e acaba indo para l. (...) O resto do grupo
vai descobrir o que aconteceu com ele. (...)
Eu j tive algumas ideias para a trama e cenas bem espec
cas. Na verdade, acordei hoje
s trs da manh e no consegui parar de pensar nisso, ento botei algumas coisas no papel.
Leonel, no primeiro e-mail sobre a trama (21/10/2003):
Estava pensando em organizar o grupo assim:
O mago.
A ranger.
Um guerreiro ou outra classe qualquer.
Um samurai de Tamu-ra.
Uma clriga (ainda no sei de qual deus).
Outros membros que eu ainda no pensei. (...)
A ranger e o guerreiro (vamos dizer que seja um
guerreiro, por enquanto) esto envolvidos.
Os dois seriam (...) bonitos, habilidosos e apaixonados. A Barbie e o Ken, algo como Ciclope
e Jean Grey.
[O mago]
pode ser mais velho, com o recalque
de estar andando por a com gente
muito mais jovem e mais habilidosa (...). Ele gost
a da ranger, e isso cria um tringulo no qual
ele sempre sai perdendo. Eu pensei em talvez
botar a ranger sendo levemente cruel com ele,
quando ningum mais est olhando. (...)
J o samurai e a clriga so o casal briguento que no casal ainda do grupo. Ambos
discutem e discordam o tempo todo, aquela coisa clssica. O samurai seria bastante
questionado pelos outros membros por causa de
sua postura, enquanto a clriga seria a mais
jovem e a protegida do resto do pessoal. Apesar do potencial cmico desta situao, eu no
penso em transform-la em algo humorstico. (...)
N 
UANDO EU FUI CONVIDADO A ESCREVER
O INIMIGO DO MUNDO
(na poca, o romance de T), zemos
uma lista de discusso por e-mails, para
podermos trabalhar mais de perto. Participava
m dessa lista eu, J.M. Trevisan (criador
do cenrio e editor), Rogerio Saladino (criador do cenrio) e lvaro Jamil Freitas
(colaborador de T e revisor de muit
os produtos do cenrio). Curiosamente,
Marcelo Cassaro, o terceiro criador, no pa
rticipou (fazendo seus comentrios atravs dos
outros dois). Esta lista durou at o m
de 2008, quando o ltimo livro da trilogia,
terceiro deus
, foi publicado.
No incio, havia a ideia de revelar a origem da
Tormenta. Existia o conceito bsico (sugerido
por Marcelo Cassaro) de que um grupo de aventureiros provoca a Tormenta. E mais nada.
Ao longo das mensagens, a trama bsica deste li
vro e das duas sequncias foi tomando forma,
junto com seus personagens. Todos os partic
ipantes da lista foram fundamentais. Algumas
sugestes transformaram-se em conceito
s importantes dentro da histria.
Vamos ver, ento, algumas dessas primeiras mensagens, desde o incio, at a reao aos
primeiros captulos prontos. Os personagens so,
no incio, chamados por suas classes de jogo
(respeitando as origens de RPG da histria).
Valkaria e Kallyadranoch foram a julgamento. A Deusa da Ambio, culpada apenas
de ser o que era ou, talvez, por sua in u
ncia como patrona da eleita raa humana ,
foi apenas transformada em pedra, at que a devoo de seus prprios lhos a libertasse.
Kallyadranoch, por libertar um poder sem limite e tramar contra os outros deuses, foi
condenado ao esquecimento. Seu nome nunc
a mais seria pronunciado. Mesmo entre os
deuses que ainda lembravam, passaria a ser conhecido apenas como o Terceiro.
E a abominao dos Trs, os
lefeu
, o povo que nunca deveria haver, tambm foi
apagado da existncia. Sua simples lembran
a era ameaadora, pois mesmo a lembrana
de um deus pode resultar em algo real. Ent
o, assim como o prprio Terceiro havia sido
O C
as barreiras de seu universo. Uma raa que poderia, com a devida oportunidade, atacar e
destruir o prprio Panteo.
Talvez o Deus dos Drages soubesse, a na
l, sobre o segredo de Valkaria e Tilliann
desde o comeo. Talvez ele mesmo tenha manipu
lado ambos na direo certa, como acusou
Khal myr. Ou talvez ele, por sua natureza gananciosa, tenha sido convidado a participar
daquela obra to brilhante. O fato que Kall
yadranoch juntou-se trade, oferecendo ao
povo recm-nascido o dom nal.
O poder.
Poder sem limite, sem propsito, sem controle como Khalmyr diria mais tarde.
Este povo seria chamado
lefeu
A chama mais breve queima mais brilhante. Em pou qus simo tempo um piscar
de olhos em tempo divino aquele povo j dominava artes, magias e cincias que Arton
nunca conheceria. Compreendiam verdades to poderosas que eram sabidas apenas pelas
raas mais antigas. Dominavam os segredos da vida e morte, criao e destruio.
Os
lefeu
nunca conheceram seus criadores. Valk
aria, Tilliann e Kallyadranoch jamais
se revelaram como deuses, mas sim como trs facetas de uma
entidade
, um
conceito
que
movia esse povo. O Corao, de Valkaria, para desejar o infinito. A Mente, de Tilliann,
para desafiar as trevas. E a Chama, de Kallyadranoch, o poder para conquistar o infinito
e as trevas.
Alm da trindade Corao, Mente e Chama, os Trs criaram vinte deuses menores
(como uma pardia do Panteo verdadeiro) para reger os
lefeu
. Estes pequenos deuses
eram criadores falsos, e j estavam, desde seu incio, destinados derrota nas mos do
povo perfeito.
Por algum tempo, aqueles formidveis
lefeu
foram mais amados pelos Trs que seus
prprios lhos em Arton.
Por
algum
tempo.
Como Valkaria tanto almejava, seus novos lhos
cresceram mais que os pequenos deuses.
Descobriram que aqueles no eram seus criadores. E os mataram.
O C
O outro levantou a cabea em desa
o. Os olhos brilharam. Seu semblante parecia
ameaador. Mais fera do que homem.
Sempre seis de meus lhos iro se lembrar, e carregaro meu legado. E enquanto ao
menos um deles viver, eu viverei. Nem voc
, nem qualquer dos demais
pode mudar isso. a
lei. Jamais se esquea, Khalmyr.
Mais dois troves ecoaram, quase em unssono. Duas gazelas passaram correndo em
frente ao palcio e procuraram abrigo embaixo das formas perfeitas de duas rvores no
simtrico jardim frontal.
Eu j disse tudo. Acabe logo com isso. Cerimnias sempre me deixam entediado.
Rhumnam girou acima da cabea de Khalmyr, riscando um crculo de luz brilhante. A
lmina cortou a realidade com um silvo agudo e ensurdecedor.
Adeus, Deus dos Drages.
Kallyadranoch sorriu mais uma vez.
At logo, Deus da Justia.
A espada desceu repentina. A lmina enterrou-se no peito do deus condenado, o urro
de mil drages foi ouvido em toda Ordine. Kallyadranoch desapareceu como se jamais
houvesse existido.
E jamais havia existido.
Khalmyr embainhou calmamente a espada. Tudo estava certo novamente. Tudo estava
em ordem.
Aos poucos, pde ouvir o leve sussurro das alma
s voltando a preencher o salo, aguardando
seu julgamento justo. L fora, a chuva parou de modo to brusco quanto havia comeado.
Khalmyr caminhou na direo da sada. Parou po
r alguns instantes, seguiu at a mesa, e
O C
Fui um dos primeiros a ser criado e um dos
primeiros a criar. Jamais vou me esquecer.
A sensao de poder... a energia uindo enquanto moldava a vida na forma mais perfeita que a
existncia j conheceu. Voc nunca experimentou
isso. Por isso no entende. Os outros talvez
no se lembrem, ou tentem esquecer. Mas eu lembro. Lembro muito bem...
Khalmyr bem sabia, aquela simples lembrana era uma ameaa a ser eliminada.
Aos poucos aproximou-se da mesa novamente. Num movimento rpido, imperceptvel
para olhos mortais, devolveu o clice m
esa. Desta vez invertido, com a boca para baixo.
Sabe me dizer o que isto, Khalmyr?
Um clice.
Um deus condenado.
Khalmyr apoiou as mos sobre a mesa e levant
ou-se, por m. No por impacincia, mas
porque tinha que ser assim.
Sabe o que tenho que fazer, no?
O C
SILNCIO ECOAVA PELOS VASTOS CORREDORES DO TRIBUNAL
de Khalmyr.
Em Ordine, o Reino do Deus da Justia, nada se movia. Ningum caminhava pelos
largos caminhos de suas perfeitas plancies. Nenhum pssaro voava entre as uniformes
nuvens que cruzavam o lmpido azul do cu. O salo, normalmente ocupado pelas almas
de artonianos mortos esperando serem re
compensados ou punidos pelo que fizeram
em vida , no abrigava ningum. Tudo porque ele assim o desejava. Tudo porque
assim era preciso.
Na cmara principal, dezoito lugares en
contravam-se vazios na enorme mesa colocada
no meio da sala. Na mesa, um vasto mapa representava Arton, seus habitantes seguindo suas
vidas como diminutas formigas, sem saber que eram observados.
Apenas dois lugares ainda permaneciam ocup
ados. As nicas evidncias de que mais
algum havia estado presente eram os clices
vazios, smbolos do pacto e da concordncia com
o que havia sido decidido. E que aconteceria em breve.
Khalmyr observava fixamente seu companheiro. Podia ver coisas que os mortais
nem sabem existir, mas mesmo assim no perc
ebia qualquer sinal de medo ou hesitao.
Muito pelo contrrio.
Os olhos prpuras brilhavam e pareciam sorrir.
Sim disse ele. Mais do que tudo.
Eles se aproximaram do altar, enquanto o mundo desabava sua volta. Fizeram as
oferendas a Lin-Wu. Beberam trs vezes de trs clices de vinho abenoado. Ouviram a
prece do clrigo.
E, segundo Lin-Wu, eram marido e mulher.
O I  M
A primeira nuvem vermelha surgiu.
Este lugar vai ser destrudo!
Kodai ergueu a voz. Todos precisam sair daqui!
As nuvens rubras surgiam do nada, e se acumulavam em massas slidas, tingindo a grama
e fazendo os raios de Azgher brilharem com uma mcula doente.
Vo embora!
gritou Nichaela.
Vo todos embora daqui!
As pessoas no tinham certeza do que fazer. Alguns se moviam para tentar algum tipo de
fuga, mas outros pareciam presos demais ao protocolo.
Vocs vo morrer! gritou de novo Nichaela.
Kodai se ajoelhou frente ao Imperador.
Eu suplico, majestade disse o samurai, em voz embargada. Por favor, salve o
nosso povo. Tamu-ra vai morrer.
Mais um trovo sacudiu o palcio. O Imperador se ergueu e, a uma ordem sua, os
convidados se puseram a correr. O grande homem se preparava para conjurar os poderes
ancestrais que, talvez, salvassem alguns de seu
s sditos. Mas nem mesmo ele sabia da gravidade
do que iria ocorrer ali.
Como isto aconteceu? disse Nichaela, para ningum.
Eles conseguiram Kodai balanava a
cabea. Os dois eram os nicos que
O F   C  
de
os sutilmente brilhantes em branco e vermelho. Equilibrava na cabea, sobre o cabelo
cuidadosamente armado, um enfeite de ngulos retos. Entre os sapatos desconhecidos, o traje
hermtico e o cuidado com o ornamento da cabea, mal conseguia andar: dava passinhos
curtos e calculados, que, na verdade, eram muito elegantes para uma noiva tamuraniana.
O rosto de Nichaela fora maquiado com uma camada branca grossa, e seus lbios tinham
sido pintados de vermelho vivo. Fora sugerido que a maquiagem fosse usada para esconder
a cicatriz que atravessava o belo rosto da ex-clriga, mas ela se recusou. A falta do olho e a
cicatriz alta eram medalhas. Todo o sofrimento
que passara era uma medalha, e apag-lo seria
um desrespeito para com os companheiros.
Kodai viu sua noiva e, por um instante, duvidou que houvesse maldade no mundo.
O samurai ento apressou o caminhar ptreo, e chegou muito perto de Nichaela. As
pessoas se entreolharam, e imaginaram o que signi
caria aquele rompante. Mas no ouviram
O I  M
incompreensvel. Talvez uma mulher tamuraniana fosse entrar em colapso com tamanha
responsabilidade, mas Nichaela s desejava ir at aquele homem grande e benevolente, que
era pouco menos que um deus naquela ilha, e dar-lhe um abrao. Sorriu de novo, ao pensar
no escndalo que isto seria.
O F   C  
entre os convidados: gata, a lha de Nichaela, e uma das irms de Lena, para tomar conta da
menina. Quando as pessoas souberam da existn
cia de uma criana, os nimos se incendiaram
de novo, e no houve escassez de garotinhas ri
ndo em grupos pelos corredores. Mas, agora que
chegara o dia, todos se portavam com a solenidade
necessria. Todos os ancestrais, ao lado de
Lin-Wu, estavam observando.
O casal de noivos lamentava a ausncia dos companheiros que ainda viviam, mas nem
Artorius nem Gregor haviam acordado ainda:
os meses no haviam apagado seus ferimentos,
embora os tivessem cicatrizado. Talvez a pres
ena dos dois no fosse bem-vinda de qualquer
forma, mas, caso fosse possvel, Masato teria enfrentado at Lin-Wu para assegurar a presena
de seus amigos do continente.
Quatro belas jovens trajadas de vermelho e branco passaram entre os convidados (pouco
mais de uma dzia), espirrando gua perfumada e
abenoada, e carregando incensos de fumaa
doce e alegre. O vermelho e o branco, sendo co
res da felicidade, eram abundantes nas vestes e
O I  M
RA OUTONO EM TAMU RA, VRIOS MESES DEPOIS DE MASATO
Kodai e Nichaela vencerem, como deuses em desespero, a batalha por Arton. Tamu-ra, uma
extensa ilha que por pouco no tocava o nordeste do Reinado, se pintava de ouro e fogo, com
as folhas das rvores se preparando para cair e dar lugar renovao. O ar era gelado, o cu era
azul, e Azgher abenoava aquele dia com uma ca
ra redonda e sorridente, banhando de calor
suave as pessoas que estavam reunidas no elaborado jardim do palcio do Imperador.
Era outono em Tamu-ra e, portanto, uma tima poca para um casamento.
O clrigo de Lin-Wu, o Deus-Drago de Tamu-ra, j havia chegado. No lhe foram
poupadas honrarias, embora aquela fosse uma
ocasio reluzente de prestgio. O prprio
Imperador estava entre os presentes, e portava-se com uma altivez discreta que era adequada
H . T. E.
ALKARIA, A DEUSA DA HUMANIDADE, VIU O QUE ESTAVA ACON
tecendo. Mas, naquela poca, ela era sua prpr
ia priso, na forma de uma gigantesca esttua.
Nada pde fazer.
Sszzaas, o Deus da Traio e das Serpentes, no escuro, apenas sorria e sibilava...
Glrienn a nal percebeu o que
zera. Gritou em desespero.
Mas ento j era tarde.
O I  M
Izzy Tarante, que, junto com seus homens, j
preparava as armas, cambaleou pelo navio
balouante at os dois.
Vire o navio. V embora disse a meio-elfa.
Izzy protestou.
T  E A E  M 
Seguiram-se assim os dias. Artorius inconsci
ente e mutilado. Gregor ainda morto. Rufus
inchando lentamente. Uma noite, Masato veio ao quarto de Nichaela.
No ela disse. Quando tudo isso acabar, depois de nos casarmos.
E isso foi o su
ciente para quebrar o estoicismo do
guerreiro tamuraniano, que segurou-a
forte em seus braos, desejando congelar o tempo.
O mar ferveu, centenas de peixes morreram com os estmagos para cima, e, no limite da
vista, uma nuvem negra que zumbia. Na praia de areia amarela, um crculo de vultos fazia
uma espcie de dana estranha.
Haviam chegado ao seu destino.
O Cao Cego redobrou a velocidade em direo ao evento, cortando a mar de peixes
mortos, a gua fervente e maculada de vermelh
o espirrando nos homens de vez em quando.
agora rosnou Masato. Hora de lutar de novo.
O navio valente se aproximava com rapidez, e, dentro em pouco, todos foram capazes de
O I  M
recobrara uma fagulha de sanidade, o su
ciente para compreender o que acontecia. Os Hu
ard
haviam tomado isso como um sinal de recuperao, pois expulsaram o mago de sua casa.
Se Vallen os pegasse... murmurou Nichaela.
Rufus ento tentou viajar por Sambrdia, em
busca de um lugar que o acolhesse e pistas
sobre os amigos. Mas no obteve sucesso.
Ento eu
z uma magia... gemeu, com uma satisfao pattica.
Uma adivinhao simples: previu o destino do
grupo, e decidiu que deveria ajud-los. Ele,
durante esse tempo, estivera se sentindo melhor engordara de novo, podia passar vrias
horas acordado e conseguiu ganhar algum dinheiro.
Como? perguntou Nichaela. Masato disse que era melhor no saber.
Mas Rufus contou mesmo assim: usara de magia para matar um pequeno grupo de
viajantes, e roubara-lhes os Tibares. Nichae
la cobriu a boca, incrdula, mas Masato no
estava surpreso.
Logo Rufus voltou piorar. O suor vermelho
havia desaparecido, e ele no mais vertia
T  E A E  M 
movimentos muito bruscos. As juntas tambm estavam to inchadas que os braos e pernas
mal podiam se dobrar. Um lenol sujo era tudo que o cobria.
A clriga j vira muitos enfermos, e quase pde aceitar aquilo, mas o samurai deixou
escapar um rudo de asco.
Rufus no parecia ter conscincia alguma do ambiente ao seu redor.
Como ele...? disse Masato, mas no terminou a frase.
Mesmo com a preocupao pelo companheiro, com o horror daquela enfermidade
estranha, sobressaa-se uma curiosidade mrbida:
como Rufus fora capaz de conseguir ouro,
achar o Cao Cego e prever o local da chegada do grupo,
naquele estado
De repente, o mago soltou um guincho alto. Tentava abrir muito a boca, mas as
O I  M
Ele morreu, se isso que quer saber Izzy disparou.
Eu sinto muito disse Nichaela.
Izzy deu um meio sorriso, com uma boca semiaberta e incrdula.
Sente muito? balanou a cabea. Sig a humilhou de todas as formas que
pde imaginar.
Mas ele era importante para voc. E foi uma morte. E por isto eu sinto muito.
A fachada cortante da capit Izzy quase caiu por um momento. Mas ela se recomps, e
virou o rosto para o sol, impedindo que Nichaela o visse.
Seu amigo o matou.
A clriga no entendeu.
Como era o nome dele? Vallen. Vallen Allond. Quis ir forra. Achou o Cao, e matou
Sig. Faz uns meses.
Sinto muito.
Cale a boca no havia nada de amistoso naquele comentrio.
T  E A E  M 
De repente, uma voz feminina cortou o vento salgado entre Kodai e o pirata.
O que pensam que esto fazendo, seus ratos do mar?
Uma
gura baixa e elegante, de cabelos ruivos presos em uma trana frouxa. As roupas de
homem coladas ao corpo por umidade e falta de
modstia, e uma espada esguia pendendo da
cintura. Bater decidido do salto das botas que iam
at os joelhos. Izzy Tarante emergiu da cabine do
capito, cuspindo ordens e insultos que mandaram os homens a correr para todos os lados.
Ol, perdedor Izzy fez um aceno de cabea para o samurai, enviando seus cabelos
ruivos para todas as direes. Azgher, que esta
va especialmente entusiasmado naquele dia, fez
brilhar cada
o. Quer dizer que precisa de nossa ajuda?
O I  M
Onde estamos? o samurai sentia se esva
ir o uxo de emoo que lhe mantivera
ativo. A dor era cada vez pior, mas o toque refrescante de Nichaela aliviava.
Eu no sei a meio-elfa estava atordoada, atarantada, e concentrava-se em curar,
para ter controle sobre si mesma. Eu no sei.
Ns temos que impedir os ataques disse Kodai.
Ns no sabemos comeou a clriga.
Ns temos que impedir os ataques!
Kodai sacudiu-a. Nichaela mal conteve uma careta
ao ver que um dos braos do tamuraniano estava to corrodo que o osso branco aparecia em
um extenso pedao. Pela vida, Nichaela. Pela vida de todos ns.
Eu no sei como ela gemeu.
Voc a mais forte de todos, Nichaela fez uma pausa. A melhor de todos ns.
Voc precisa me ajudar.
Eu sou s uma curandeira, Masato ela mordia o lbio.
No!
ele gritou. a pessoa mais forte que eu j conheci.
Nichaela engoliu. Seu rosto tornou-se muito srio de repente, e sereno. Masato viu nele
uma sombra de Artorius, e uma memria da con
ana de Vallen.
Vamos descobrir onde estamos a luz de L
ena brilhou mais forte do que nunca, e as
dores de Masato cessaram.
Voc tambm precisa de cuidados disse o samurai.
Eu estou bem o rosto coberto de sangue seco, dilacerado de cima a baixo, cada
palavra dolorida.
Kodai abriu a boca para protestar, mas notou,
no mar prximo a eles, uma viso familiar
que no era bem-vinda. Um navio ancorado, no muito longe da areia. No casco, estava
gravado o nome
Cao Cego IV
Masato Kodai escalou a amurada, disposto
a tudo. A mo direita no cabo da espada
longa e curva, repousada e pronta. Os marujo
s imundos cercaram o tamuraniano encharcado,
mostrando os dentes amarelos e negros, se
gurando as armas, cerrando os punhos.
Vocs iro me dizer que lugar este Masato, muito devagar, pronunciando duro
cada slaba. E vo me ajudar. Nem que eu tenha que matar todos.
Um dos marujos, um sujeito de barba rala e rosto amassado, o crnio calvo recoberto por
um leno, tomou a frente. Estufou o peito
T  E A E  M 
ASATO E NICHAELA EMERGIRAM SOB UM CU ABENOA
damente azul, mas sobre um cho desconhecido. A viso do seu prprio mundo, aps a
paisagem enlouquecedora do mundo do albino, er
a como um sabor doce aps anos de gosto
amargo. Eles respiravam ar de novo, e de novo sentiam os cheiros e viam as cores. Nichaela
estremeceu e fechou o olho que lhe restava,
abrindo a boca em xtase mudo, quando sentiu a
presena de Lena lhe invadir em uma onda de prazer sagrado.
Mas no sabiam onde estavam.
Os sentidos eram soterrados por estmulo
s familiares dos quais eles sentiam uma falta
imensa. Assim como lembranas boas revisitadas, vieram o gosto de sal no vento, o cheiro de
maresia e peixe, o calor do sol na pele ferida, os gritos serenos dos pssaros, as minsculas
mordidas dos gros de areia se chocando contra os corpos. Estavam em uma praia.
Lena, preserve a vida de meu irmo
Nichaela se curvou sobre o corpo de Artorius,
que se derramava em vermelho incessante, tingindo a areia. Kodai observava ainda tonto, as
pernas bambas, enquanto as mos da meio-el
fa se iluminavam de brilho limpo, e o estmago
aberto do minotauro se fechava, encerrando de
ntro de si o pouco que ainda restava de vida.
No se preocupe comigo disse Artorius na menor das vozes. Por uma tenacidade
prodigiosa, o clrigo havia recobrado um ap
o de conscincia. Ajude os que esto mal
de verdade.
O nico olho de Nichaela derramou lgrimas. Atrs dela, Masato apoiou-se sobre
um joelho.
Tauron, permita-me lutar mais uma vez
orou o minotauro. Todo o seu corpo se
incendiou com uma luminosidade vermelha, e os cotocos de seus braos pararam de sangrar.
Tauron ento teve piedade, e ele caiu inconsciente.
Lena curava, atravs de sua serva, Masato Kodai, enquanto o corpo e a cabea de Gregor
Vahn jaziam ao lado.
O I  M
Como frequentemente ocorre entre criatura
O I 
Diga-me como sero os ataques proclamou Masato. E irei lhe conceder um
momento a mais de vida.
O albino, rebaixado a se ajoelhar frente q
uele homem inferior, mirou-lhe nos olhos.
Poderia muito bem ter negado, mas admitiu que fora vencido. Obedecia agora ao vencedor.
Em Petrynia o albino gorgolejou em sangue. Numa praia. Prxima a Adolan.
Era estranho, ele pensou, como o mundo de Arton o havia mudado. Falava e entendia
as lnguas, lembrava-se dos nomes, reconhecia os valores daquele lugar. Mas ele tambm
mudara Arton.
Masato ergueu a espada para a execuo. O albino, de sbito, sentiu rastejando pelas
entranhas outra coisa que aprendera em Arton medo. No queria morrer.
Apenas mais um instante
suplicou a criatura.
No.
Masato Kodai decapitou o inimigo com um golpe limpo e preciso, assim como havia
treinado durante toda a sua vida. O corpo destroado do inimigo amoleceu.
O albino morrera.
O samurai olhou ao redor e viu o lodaal de sangue e matria cinzenta. Nichaela, a face rasgada
horrivelmente, no estivera perdendo tempo: terminava de examinar os companheiros cados.
Artorius ainda est vivo disse ela.
O sangue no cho fervia, lentamente destrudo pelo contato com a matria vermelha. A
pele de Kodai e Nichaela se abria em feridas
borbulhantes. Ambos sangravam pela boca, pelos
olhos e ouvidos, alm dos lugares
onde o albino lhes havia acertado.
E, atrs deles, as criaturas daquele mundo tinham-lhes notado, e corriam, s centenas,
para o paredo vermelho.
Vamos embora disse Kodai.
Vamos levar Artorius e Gregor e, ante a descrena de Masato: Gregor nunca
morre.
Eles correram para o tnel da escadaria, assim que as primeiras criaturas terminavam
de escalar o penhasco. E os dois pediram perdo
por deixar os corpos de Ellisa e Vallen, mas
tinham que salvar os que ainda poderiam viver.
Fugiram.
Em algum lugar no meio de tudo isso, havia uma vitria.
E, em uma parte incompreensvel daquele mundo estranho, os lordes daquele universo
se reuniam. Cada um era capaz de matar de novo, caso fosse necessrio, todos os seus deuses.
Cada um decidia sobre a vida e a morte de um nmero incontvel de sditos. Cada um podia
destruir montanhas com um gesto.
O I  M
A coisa fez um chiado horrvel, e golpeou em arco com a garra. O sangue de Gregor Vahn
choveu por toda parte, e sua cabea girou no ar.
E a coisa que era o albino j estava pronta para
matar o prximo, quando o corpo
de Gregor golpeou mais uma vez.
No h morte!
as palavras do paladino ecoavam em algum lugar.
Foi o segundo milagre sangrento que aquela
criatura presenciou naquele dia, e foi
atravessada pela lmina do oponen
te que deveria estar morto.
O corpo de Gregor sucumbiu realidade e tombou. O monstro s teve o tempo de notar
Masato Kodai logo atrs do corpo decapitado do companheiro, a elegante espada curva segura
com as duas mos, pronta.
No serei intil na luta de minha morte no um urro, mas uma colocao. Um fato.
Masato Kodai golpeou, e o lquido pegajoso e
cinzento espirrou de dentro do inimigo.
O monstro atacou, mas percebeu que j estava muito ferido. Tivera tanta certeza da
vitria a nal, sua raa
nunca era derrotada
que nem chegara a considerar que pudesse
ser vencido. E recebera os visitantes ansioso, qu
erendo se provar como um soldado, como um
guerreiro. Fizera questo de esper-los, e de,
moda estranha do mundo deles, coroar a vitria
com palavras e crueldades. Mas, ele percebia agora, naquela batalha tudo era maior do que
antes. Assim como ele estava mais forte, longe das limitaes tacanhas do outro mundo, seus
inimigos tambm estavam mais fortes simplesm
ente porque precisavam. Sabiam que ali se
resolveria algo muito importante,
e isso lhes fez mais perigosos.
O povo quase onipotente daquele universo ve
rmelho estava atrs de um poder que s os
artonianos tinham a capacida
de de se tornar um deus. Mas a criatura que fora o albino
estava descobrindo o porqu deste poder existir:
a alma dos artonianos era mais feroz do que
qualquer monstro, e mais
dura que qualquer pedra.
Masato golpeou de novo. A coisa bloqueou com uma garra, mas as protuberncias que
faziam as vezes de dedos foram decepadas. O me
smo golpe cortou-lhe fundo o que deveria ser
o pescoo, e a cabea deformada se tornou frouxa sobre o tronco. Tentou golpear, mas Masato
se esquivou, e cortou-lhe o ventre. A lmina reluzente e perfeita desprendeu-se do inimigo
levando um grande pedao de carapaa e carne cinzenta.
A criatura percebeu que iria perder.
Tentava atacar e desviar os golpes, mas o samu
rai estava possudo de um esprito magn
co
e terrvel. Movia-se com a velocidade de um deus, e cada golpe era to preciso que chegava
a ser maligno. Masato sabia estar l sozinho
s ele e Nichaela mas invocava para si os
tantos antepassados mortos, e os mais recentes
amigos estrangeiros. E tirava foras de algum
lugar assustador de to poderoso, que
cava dentro de si.
O I 
O golpe do albino acertou Nichaela de raspo, no rosto. Rasgou a pele, comeando pela
testa, e estendendo-se numa linha irregular at
o queixo. E, em seu caminho, levara o
olho esquerdo.
Gregor tentava raciocinar. A coisa no lutava como antes. Era to rpida e forte
quanto fora em Arton, mas aqui tinha novas capacidades era muito mais mortal. As
garras eram muito mais afiadas, e a coisa parecia ter uma percepo aguda de
golpear. Cada ferimento era muito mais srio: no tirava apenas sangue, arrancava um
pedao da vtima. Gregor Vahn entendeu, en
to: lutando em Yuden, eles haviam estado
em vantagem
As garras do albino rasgaram o estmago de Artorius, que exibiu as entranhas, deixando-
as penduradas sobre a cintura do clrigo.
Sem morte ele murmurou, sorrindo para Nichaela. Sua conscincia foi vencida
pela falta de sangue.
Gregor e Masato se puseram lado a lado, as
espadas nas mos, tentando estar preparados.
Masato, em particular, sentia muito o ferimento no peito.
Sinto-me honrado em morrer junto a voc disse Masato, grave, em seu sotaque
quadrado.
No sussurrou Gregor. No h morte.
Olhou em volta. Olhos arregalados.
Eles no esto mortos.
incompreensveis.
No h morte!
urrou o paladino.
yatis!
Gregor Vahn deixou cair o Escudo de Az
gher e segurou sua espada com ambas as mos.
Gritando, investiu contra o inimigo. A coisa qu
e fora o albino estava mais do que pronta, e
preparou as garras para receber Gregor com um abrao de morte.
Mas, ento, tropeou.
O I  M
Ellisa gritou e deixou voar duas
echas. Sentia raiva do inimigo, e ainda mais raiva de si
mesma, por no ter sofrido mais com a morte
de Vallen. O albino investiu em sua direo,
tirando Inverno de dentro das tripas congeladas
O I 
Eu s queria aprender, entendem? Aprender os seus modos loucos.
Os aventureiros estavam paralisados. Encos
tavam-se no paredo, e sentiam a matria
vermelha corroer-lhes as carnes. Suas roupas e equipamentos tambm comeavam a se
O I  M
forma semelhante. Os deuses daquele mundo
zeram seus lhos ambiciosos e criativos, e
eles evoluram.
Evoluram mais do que os deuses previam. As criaturas daquele mundo se tornaram
poderosas alm da compreenso. Tinham uma capacidade monstruosa para o crescimento e
o aprendizado. Seus corpos e mentes (embora eles no
zessem diferenciao entre os dois)
se desenvolveram a pontos que ningum em Arton seria capaz de conceber. As criaturas se
tornaram to poderosas quanto os deuses que as haviam criado. E sabiam disso.
Todos os deuses foram assassinados, e seus Reinos foram tomados. E as criaturas
continuaram a evoluir. Formou-se uma civilizao de seres que eram mais do que os deuses
jamais haviam sido. Cada parte daquele universo os cus, a terra, os mares, os Reinos dos
Deuses e outros lugares alm do alcance foram colonizados. Aquele povo venceu tudo o que
se interps em seu caminho: os deuses, o tempo, a morte. Todos foram vencidos. E cada aspecto
da sua vida pensamento e fora, magia e cincia foi levado ao limite da perfeio.
Chegou um momento em que no havia mais como crescer.
Estes somos ns disse o albino.
Ainda assim levou uma surra disse Vallen, mas engasgou e comeou a tossir no
meio da bravata.
Mas, de alguma forma, os aventureiros sabiam que ele falava a verdade. Havia uma
calma, um sentimento de obviedade naquele
ser com a forma de um homem, que trazia um
peso de verossimilhana. Ele falava como um adulto explicando fatos bsicos do mundo a
uma criana muito jovem.
Ns sabamos que existiam outros mund
os continuou o albino. S no nos
interessvamos por conquist-los.
E assim era. Arton e in nitos outros eram
do conhecimento daquele povo. Mas eles,
que j controlavam cada gro de areia no seu universo, no precisavam de outros universos
para dominar.
Mas sentiam falta da evoluo.
No havia mais para onde crescer. No havia mais o que fazer. Descobriram que a perfeio
era absoluta e, da perfeio, s restava decair
. Aquela civilizao de conquistas monumentais
comeou a decair em guerras internas e disputas mesquinhas. Era o tdio.
Um conselho foi feito, e decidiu-se que algo novo deveria ser encontrado. Em algum lugar, em
algum dos in
nitos mundos que existiam, deveria haver algo que os motivasse de novo. Batedores
foram enviados a milhares de mundos, em busca de algum poder ainda desconhecido.
E este foi achado em Arton.
No seu mundo sorriu o albino
qualquer um pode virar um deus.
Era algo que nunca havia sido feito. Era um lugar aonde nunca tinham ido. Era, nalmente,
algo que nunca haviam sido. De todos os batedores, foi aquele aquele que
cou conhecido
como o albino que teve sucesso em sua misso.
O I 
yatis! bradou Gregor, sacando a espada.
Tauron! rugiu Artorius.
Era o albino.
Vocs condenaram o seu mundo, sabiam?
disse o albino, depois de jogar Gregor
contra a parede vermelha com um safano. Lembrem-se disso:
vocs mataram seu mundo
O paladino se ergueu, seu sangue se misturando com o orvalho vermelho. Agora, na
pele de todos, a ardncia era quase intolervel. As vises eram avassaladoras, os ouvidos
no conseguiam mais suportar os sons. Graas a todos os deuses, havia algo a olhar, muito
conhecido e compreensvel: o inimigo alto de cabelos brancos.
O albino estava em seu disfarce humano, e
era visvel o desconforto que isso lhe
causava. Aquela era uma forma frgil e pattica, se comparada forma original dele e de
seus compatriotas. Mas o albino havia aprendido muitas coisas em Arton, e uma delas era a
maldade. Desejava aquela forma, o humano alto e branco e nu, para poder espezinhar seus
oponentes, e humilh-los antes da morte.
Artorius atacou, e o albino bloqueou o machado com o antebrao. Arrancou a arma
das mos do minotauro, e usou-a para golpear Masato, que investia pela lateral. O peito do
samurai se abriu e despejou vermelho farto.
Ellisa tinha o arco tenso e apontado, mas ainda no havia disparado. Vallen estava frente
dela, todos os membros tremendo, segurando sem fora Inverno e Inferno.
Por qu? disse Ellisa, a voz oscilando. O que tudo isto?
Quem voc?
este lugar?
Nichaela observava, horrorizada. No podia invocar ali as bnos de Lena. Artorius,
Gregor e Masato pararam, os msculos re
tesados. O albino sorr
ia cheio de dentes.
Quem eu sou? riu a criatura.
O albino pronunciou seu nome. Era uma palavra to terrvel que no houve, entre os
aventureiros, quem no se dobrasse de dor. Ele gargalhou.
Aprendi isso com seu povo disse ele. Coisa estranha:
humor.
Qual a razo disso tudo?
berrou Ellisa.
Ainda no entenderam mesmo, no ? o albino balanou a cabea lentamente.
So criaturas to burras.
Mas o albino explicou mesmo assim.
Havia um mundo que, assim como Arton, tinha seus deuses e suas criaturas. Era um
lugar diferente, pois no havia l a diferena entre o que era vivo e o que no era. E no
havia, como se conhece em Arton, a magia ou a disciplina conhecida como cincia. Mas
havia outras disciplinas, que cumpriam os mesmos papis, e outras foras, que atuavam de
O I  M
Eles haviam tentado se preparar para aquilo, mas o pior que as suas mentes puderam
conjurar era o paraso perto do que era aquele mundo. Nenhuma cor era reconhecvel,
nenhuma forma fazia sentido, nada podia ser compre
endido por um artoni
ano. Eles sentiram
os corpos e espritos convulsionando ante aque
la avalanche de informaes que no deveriam
existir. E ainda assim resistiram. Talvez foss
e o poder do Clice dos Deuses. Talvez fosse o
fato de que eles eram aventureiros, tipos empedernidos e dures, que achavam que podiam
lidar com qualquer coisa. Talvez fosse simplesmen
te porque eles eram de Arton, porque eram
criaturas abenoadamente versteis, e quises
sem sobreviver mais do que tudo. Comearam a
ver e sentir aquele mundo de uma forma que pudessem suportar.
As cores desconhecidas foram adaptadas por suas mentes quase tudo
cou vermelho.
E as formas foram lentamente reconhecidas, associaes foram feitas e, em certo momento,
eles puderam aceitar o que presenciavam.
No mundo do albino no havia construes
, no havia paisagem nem criaturas. No
como em Arton. Tudo as habitaes, o cu e o cho, as montanhas, os animais era feito
da mesma coisa, algo que, por falta de uma pa
lavra melhor, parecia estar vivo. No a vida que
se conhecia em Arton (que respirava e tinha sangue e falava e sentia e dependia dos deuses),
mas uma vida diferente e horrenda, que permeava todas as coisas. Os habitantes daquele lugar
(e havia milhares vista) tinham formas to variadas quanto revoltantes, e suas mentes viram-
O I 
No incio, no havia barulho algum. Mas, mais
frente na jornada surgiram os primeiros
sons. Gregor caiu de joelhos, os ouvidos sangra
ndo, ao ser assaltado pelo primeiro rudo. No
era alto ou estridente era s algo que um
habitante de Arton no estava preparado para
ouvir. Levantou-se, mas os ouvidos de todos ta
mbm eram atacados pelos sons indecifrveis.
E eles h muito (ou pouco?) j tinham perdido a noo do tempo quando Gregor, Nichaela e
Artorius sentiram um vazio terrvel.
Haviam chegado a um ponto onde seus deuses no alcanavam. E foram capazes de sentir
a sua ausncia. Os olhos dos deuses sobre eles
eram como um rudo de fundo, que no se
percebe at que suma. Era como se, por um sentido diferente dos cinco aos quais estavam
habituados, eles pudessem sentir a proximidade de Lena,
yatis e Tauron. Mas s haviam
notado isso agora que eles estavam longe. Nichaela no se conteve e comeou a chorar. Masato
envolveu-a com um abrao constrangido, incerto do que fazer. Ele, assim como Ellisa e Vallen,
tambm sentira, embora com menos intensidade, a ausncia divina. S podia imaginar como
estava sendo terrvel para a meio-elfa.
Nichaela em particular, mas os outros tambm, esperou sentir
, a presena de
algum
tipo de deus, de qualquer coisa divina. Mas logo notou que no havia ali nada do gnero.
A escada seguia.
A loucura arranhava s portas dos espritos.
Era difcil distinguir os barulhos reais dos
imaginados, e as vises reais das alucinaes. Quase todos, uma vez ou outra, chegaram a
esquecer o que estavam fazendo, quem eram os
companheiros ou mesmo quem eles mesmos
eram. Artorius e Masato foram os nicos a manter a sanidade sempre intacta. Uma gargalhada
de Ellisa, que logo se transformou em choro conv
ulsivo, quebrou a sinfonia de sons impossveis.
Gregor rilhou os dentes e tentou
falar algo que os encorajasse.
Sabe do que precisamos agora? disse o paladino. De uma das bravatas de
Vallen.
Olharam para o antigo lder. Vallen, que se di
ssesse isso a seu favor, estava se portando
com um estoicismo exemplar. Fazia-o por medo
de voltar, por vergonha dos outros, porque
no tinha coragem de fazer mais nada. Era quase um guerreiro.
Ns vamos vencer... balbuciou o velho. E vamos... voltar para casa... deixou
a voz morrer. Desculpem.
Tudo bem, Vallen disse Ellisa, com uma mo hesitante no ombro do ex-amado.
Lgrimas amargas correram-lhe pelas faces cheias de rugas, e Vallen foi tomado por um
acesso de tosse.
E continuaram.
Talvez tivessem passado alguns minutos, ou talvez dcadas. Mas a verdade que no
havia se passado tempo algum. No havia tempo. O fato que a escadaria chegou ao m,
e eles se viram de p sobre a borda de um des ladeiro, de onde podiam observar uma vasta
paisagem de pesadelo.
O I  M
CRUEL PEDIR QUE SE DESCREVA O MUNDO DO ALBINO.
E impossvel.
No h palavras que construam na mente uma imagem adequada do que era aquele
lugar de horrores aliengenas. Mas o Esquadro do Inferno entrou l, e l viajou. Portanto, o
mnimo que podemos fazer tentar compartilhar de uma frao do seu terror.
Entraram por um tnel escuro, que logo adquiriu uma luz oblqua e amarelada. Seguiram
pelo espao cada vez mais estreito e serpen
teante, e notavam que, gradualmente, Arton
cava
mais longe. Logo viram-se pisando em uma escada, descendo para sempre, em direo a algum
lugar oculto. Suas mentes comearam a resistir ao que viam, incapazes de compreender boa
parte do ambiente, a conscincia de cada um se
retorcendo e guinchando como um animal
ferido. E era s o comeo.
A escada ocupava todos os lados do que fora o tnel, existindo no cho, teto e paredes. A
passagem dobrava e se contorcia em ngulos imposs
veis, e o caminho de degraus transformava,
P   H ! B 
Ellisa sentiu.
Ela chorava, chorava por ver seu amor o
homem que havia escolhido para dividir a
vida se esvair assim, em uma misso obstin
ada, por um pstula que nem deveria estar
vivo. Ela sentia o corao apertar, e chorava.
E, de repente, no chorava mais.
Olhou para o homem nos seus braos. Um velho que fora algo, um dia. Um companheiro
de grupo. Algum que demonstrara valor e coragem (no passado), mas que, em ltima
anlise, era s teimoso demais. Teimoso ao ponto da estupidez. Um valento.
Secou as lgrimas. Largou do brao de Vallen. Ele era seu colega de grupo, e ela o queria
bem mas nada mais.
Na parede, um novo escudo.
Sigam-me disse o demnio, mal cabendo em si de satisfao.
Uma porta se abriu atrs de uma forja. Para o mundo do albino.
E foi uma bela barganha, no foi?
O I  M
e moldaram, e mergulharam numa gua ftida, at ficarem satisfeitos com a forma
uma adaga.
Vallen agora tremia dentro das botas. No
queria mais estar ali. Mas tinha medo
demais do que poderia acontecer se desistisse. Olhou para os companheiros cada um
poderia o estar julgando, cada um
poderia falar o que pensava. E, frente, estava o inferno,
mas atrs estava o mundo real, que era muito pior. Comeou a suar.
Ellisa abraou-o e sentiu sua tremedeira.
Chega, meu amor, chega.
P   H ! B 
O diabrete comeu um verme que lhe saa pelo ouvido e fez um ar de enfado.
Tesouros esganiou. Artefatos. Magia.
Vallen jogou Inverno e Inferno aos ps da criatura.
Pois tome! Agora fale!
O demnio se contorceu de riso novamente, e se entusiasmou tanto que vomitou uma
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vez que sorviam o ar fervente. De alguma forma, a pele que recobria a cabea se confundia com
os ossos, desaparecendo em alguns pontos para
dar lugar ao crnio descarnado. E as criaturas
sorriam. Estavam deleitadas ao ver o grupo.
Eram demnios.
Gregor notou, embora no dissesse nada, que aqueles eram muito menos terrveis do que
fora a coisa que era o albino. Poderiam inspirar pavor, sim, mas no acabar com a vontade de
viver de um homem.
Visitantes!
chiou uma das criaturas.
Elas se puseram num frenesi, saltando
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Qual hora
melhor
? disse Artorius. Eles vo entrar no inferno. melhor que
aproveitem um ao outro, enquanto ainda podem.
Masato e Nichaela trocaram um olhar nervoso. No foram para outro aposento, mas
sentaram-se um ao lado do outro. E, em si
lncio, deleitaram-se com o toque de uma mo
sobre a outra.
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Havia no ar uma urgncia, e uma espcie de fe
licidade desesperada, como se as pessoas
soubessem que nada iria durar muito.
E talvez soubessem.
Cavalgaram mamutes, acompanhados de Dente-de-Urso, Esprito-de-Pedra, Goradar
e Korakk. Durante o resto da viagem, enfrenta
ram inimigos goblinoides, feras, tribos
brbaras rivais mas nada era preo para eles. Durante aqueles dias, o Esquadro do Inferno
viajou com heris.
Chegaram Catedral de Gelo. Empoleirada no topo de uma montanha, era uma
construo de Gelo Eterno. Ningum sabia qual povo poderia ter feito tal maravilha, mas
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ns, Nichaela. E foi capaz de entender que a minha morte no era mais importante do que o
juramento de Lena.
A meio-elfa chorava. Na verdade, quase todos choravam. Dente-de-Urso derramava rios
salgados por sua juba loura.
Falou a Kodai, mesmo que pouco o conhecesse.
Artorius
cou um tempo em silncio. Eu teria tido os seus lhos.
O cavalo deu alguns passos para trs, e ela olhou para todos.
No tenham medo da morte. No tenham! A morte maravilhosa! tinha um largo
sorriso no rosto. Vo ver quando nos encontrarmos de novo, nos Reinos dos Deuses.
O cavalo relinchou e empinou as patas, mostrando seus dentes a
ados.
E que presente maravilhoso! Sabem qual o poder das ferraduras? ela deu uma
risada. Com elas, eu poderei viajar entre os Reinos de todos os deuses, livremente!
Andilla continuou falando: disse que, morte, o esprito rumava para o Reino de um
dos deuses mas no havia como prever
. E, salvo a interveno divina, esta morada
era imutvel.
Mas eu posso ir e vir, vontade! Caarei monstros no Reino de Megalokk, e
desfrutarei das florestas de Allihanna. E fe
stejarei no Reino de Marah, e lutarei no
Reino de Keenn! Que presente maravilhoso!
Meus amigos, selaram minha vida com o
final perfeito.
O cavalo relinchou de novo, impaciente. Andilla Dente-de-Ferro riu de novo. Ergueu a
mo em aceno, e todos os coraes se aceleraram.
Adeus!
E galopou. O som de cada pata era um trovo contra a terra congelada. Fazia tremer os
tmpanos. Mas, depois de uns poucos passos
furiosos, o cavalo desapareceu no ar branco.
Um mamute gritou do outro lado da cidade. O chefe Dente-de-Urso limpou o
rosto.
Bem disse, com voz embargada. Vocs tm a minha ajuda para o que quiserem.
O que, a nal, os traz s Montanhas Uivantes?
Gregor deu um passo frente. Empertigou-se.
Procuramos um portal para o inferno.
Anaq!
praguejou o chefe. Riu a mesma risada feroz de Andilla. Partimos em
dois dias.
Naquela noite, Artorius acabou na palha com Esprito-de-Pedra.
Acho que ele gosta de brbaras do gelo riu Vallen.
No o deixe ouvi-lo falando assim disse Ellisa.
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Andilla, magnfica, forte e linda como nunca. Seu corpo de delcias e msculos
estava perfeitamente equilibrado sobre o cavalo feroz, e ela trajava a sumria armadura
de cota de malha e peles com que morrera. Seus cabelos louros brilhavam com a luz
de Azgher, e as tranas, grossas como cordas de navio, caam-lhe por sobre os ombros.
Levava nas costas seu machado, e tinha no
rosto um sorriso sincero e luminoso, de
tranquilidade e vitria.
Por um momento, o corao de todos se acen
deu com uma felicidade inesperada. Andilla
estava l, estava l Dente-de-Ferro. Mas ento
souberam, no pela viso mas pelo que sentiam,
nas tripas, no corao e no n na garganta.
Ela continuava morta.
Por mais que quisessem abra-la, nenhum
deles nem seu pai nem seus amigos
ousou pousar-lhe a mo. Sabiam, de alguma forma, que sentiriam algo muito real, que tornaria
verdadeira a presena da jovem morta.
Comearam os pedidos de perdo.
No! exclamou Andilla. Ningum precisa pedir perdo. Nunca estive to feliz
fora da batalha. Estou vendo, de novo, meus amigos, meu pai e minha terra.
Andilla! mesmo assim, Vallen quase gritou. Foi minha culpa. Eu era o lder. Eu
deixei acontecer.
Eu fui a responsvel disse Nichaela. Desculpe. No podia ter agido...
Mas o sorriso dela calou a todos.
Ela se aproximou, sobre o magn
co cavalo, de cada um. Aproximou a mo das cabeas,
como se fosse toc-los, mas evitando o contato.
No lamentem! No lamentem, pois estou feliz. A vida em Arton era tima. Tive a
melhor das famlias, e os melhores dos amigos,
e muitas batalhas de glria. E morri como
quis: lutando. Meu nico arrependimento foi n
o lhes ajudar mais. Mas se soubessem... Este
mundo s o comeo.
Nunca nenhum deles tinha visto Andilla (ou Dente-de-Ferro) daquela forma. Uma
doura in nita emanava dos gestos e das palavras. Continuava ali, podia-se ver, a alma de
guerreira. Mas era uma alma satisfeita.
Andilla demorou-se em falar com seu pai. Dirigi
u-se ao povo de Giluk. Depois se voltou
para os aventureiros. Para cada um disse algo.
Vallen, no lamente. Voc foi o melhor
lder que poderamos ter, e o lder que
escolhemos. E todas as suas decises foram bo
as ou necessrias, inclusive a deciso de
deixar de ser o lder. Eu no o culpo, Vallen. No se culpe tambm; apenas mate alguns
E falou com Gregor e com Ellisa.
Nichaela, eu entendo o que voc fez. E aprovo. O que me aconteceu no foi terrvel,
apenas
parece
assim para quem est deste lado. Voc a melhor, a mais sbia e mais capaz de
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inteiro desde que o Esquadro do Inferno chegara a Giluk e, naquela manh nova,
pesavam-se os acontecimentos e as opes. Os trs falavam na lngua das montanhas.
Os aventureiros notaram que, at ali, os nativos das Uivantes tinham feito o esforo
e a cortesia de falar na lngua comum at mesmo Esprito-de-Pedra, embora no
parecesse capaz de tal delicadeza.
A prpria Esprito-de-Pedra estava mais
atrs, tentando adivinhar o teor da
conversa sussurrada. Era, eles haviam descoberto, discpula de Raposa Cinzenta,
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No temos como compens-lo disse Vallen. Sua humildade era fruto de uma
genuna e exaustiva tristeza, que j doa h tempo demais. Se nos quiser fora de suas terras,
iremos partir imediatamente. Mas pedimos que aceite nossas desculpas...
minhas
desculpas.
A culpa foi minha.
Dente-de-Urso bebeu mais um gole de
gullikin
A culpa comeou ele, vagarosamente. A culpa foi do monstro que a fez sumir.
Vallen engoliu em seco. No sabia se sentia alvio ou se, pelo contrrio, desejava ser
punido.
E vocs o mataram. No h mais nada a ser feito. A no ser beber em memria de
Dente-de-Ferro.
O fio de tenso se rompeu na sala. Os ces se espreguiaram. O leopardo torceu as
orelhas. A jovem substituiu o leite de mamute por hidromel forte, que esquentava de
dentro para fora, e eles beberam em nome de Andilla Dente-de-Ferro durante a manh,
como se fosse noite.
Ela nasceu com dentes, sabiam? o chefe sorria triste. Fortes como a nevasca.
Com cinco anos, usou-os para matar uma raposa
e ele tinha a pele da pequena raposa, para
ilustrar a histria.
Vallen contou a histria de como Andilla tinha-lhe presenteado um pedao de Gelo
Eterno o gelo mgico que tinha sido o principal componente na fabricao da espada
Inverno. A bebida trouxe entusiasmo e depresso.
Ns no temos como compens-lo a voz de Vallen j estava entorpecida. Mas
podemos ofertar um presente. O que temos de mais valioso.
Tirou da mochila as ferraduras que haviam surgido com o livro, a capa, o clice e o
escudo.
No sabemos para que servem. Mas sabemos que o que temos de mais valioso.
Goradar, o ano, arregalou os olhos. At ali, no tinha falado nada, mas disse:
Este um timo presente.
E era.
No meio da tarde, Artorius chegou, nu e beira da morte, em Giluk. Os outros dormiam.
Em algum lugar, Tauron achava aquilo uma demonstrao excessiva.
Raposa Cinzenta, a druida, examinou as
ferraduras dispostas no cho por um
longo tempo, e se ps a confabular com Dente-de-Urso e Goradar. Passara-se um dia
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Inmeros ces peludos se enroscavam pelos ca
ntos, aproveitando o calor uns dos outros e
dos seres humanos. Alm deles, um elegante
leopardo branco repousava, com uma dignidade
preguiosa, perto dos ps do chefe. Dente-de-U
rso era um homem enorme, de cabelos louros
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Homem-iaque Esprito-de-Pedra apontou-lhe o dedo. Se chegar at Giluk sem
a minha ajuda, ento ter meu respeito e meu pedido de perdo.
Artorius mirou-a por um tempo. Enquanto is
so, Nichaela e os outros despejavam mil
argumentos, que justi cariam, sem uma mcu
la sua honra, acompanhar o grupo. Nada
surtiu efeito. Nichaela percebeu que, antes do Ritual da Troca, a simples perspectiva de
estar por perto para defend-la teria sido su
ciente para dobrar o minotauro. Mas agora
Artorius era O Estrangeiro.
Farei mais do que isso trovejou o clrigo de Tauron. E ento, com movimentos
controlados e sempre olhando nos olhos da druida, tirou todas as roupas. Nu, apenas com o
machado nas mos, proclamou: Que a sua
terra gelada faa o seu pior contra mim!
E nenhum pedido, splica, ordem ou ameaa foi su
ciente para demov-lo. Partiram sem
ele, com suas roupas.
Esse cheiro... arriscou Nichaela, para Esprito-de-Pedra, no meio da viagem.
Bosta de mamute disse a druida. Deixa meus cabelos duros, assim.
Dois dias depois, chegando a Giluk, Nichaela descobriu o que era um mamute.
Bonito, no ? disse Ellisa, sentada fora da cabana do chefe, no meio da cidade de
Giluk. O nascer do sol produzia uma festa explosiva de cores no cu.
Bonito como as tetas de Marah concordou Vallen.
Os aventureiros esperavam para serem recebidos pelo chefe de Giluk, Dente-de-Urso. O
povo da cidade compensava em calor todo o frio do ambiente ao redor. Giluk era um lugar
de casas esborrachadas de pedra, cobertas co
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No graas a ns mesmos Vallen segurava o queixo dolorido e se levantava
com dificuldade.
Ele no vai aguentar muito! disse Arto
rius. Prximo a ele, Masato empalidecia
a olhos vistos. Vestia agora o casaco do mino
tauro (que nunca admitiria que no iria durar
muito tambm, sem o agasalho), e tinha a prot
eo de Tauron, mas mesmo assim o sangue
fugia-lhe das faces.
Nichaela correu at ele, e invocou a proteo de Lena. Masato agarrou a vida com um
pouco mais de tenacidade.
Que animal era aquele? disse Gregor. Ser que vai voltar?
Um rinoceronte lanoso disse uma voz de dentro da brancura.
Um passo frente, e revelou-se a sua dona. Como se o vento branco se partisse para
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morosos e enferrujados, como se o frio os tive
sse congelado. O golpe saiu lento, previsvel
e fraco. Resvalou no grosso pelo recoberto de gordura do goblinoide, sem causar-lhe mal
algum. As echas de Ellisa erraram seus alvos
exceto duas devido mo inconstante de
tremedeira. E, ao contrrio do que todos pensavam, os goblinoides no seguiram avanando.
Pularam todos em cima de Kodai. No qu
eriam matar inimigos
: queriam comida.
Vo devor-lo! gritou Gregor. Carga!
Os trs guerreiros correram para o monte de criaturas que se formara em cima do
samurai. Pedaos dilacerados de suas roupas j voavam mas, at agora, nenhum sangue.
A carga demorou demais. As pernas estavam so
brecarregadas de protees contra o frio.
Os ps escorregavam no gelo ou afundava
m na neve. Os joelhos rangiam e reclamavam.
Quando o machado de Artorius encontrou as
costas de um dos hobgoblins (o primeiro
ferimento de verdade contra as criaturas), o amontoado se abriu para revelar o tamuraniano
estirado no cho branco, quase nu. A instantes de morrer.
Tauron, preserve-lhe a vida!
urrou Artorius, enquanto se jogava sobre o corpo de
Masato e derramava uma bno desesperada.
Gregor e Vallen tentavam manter os monstros afastados, mas descobriram-se
ineficientes. O p de Gregor, pesado da arma
dura de placas, afundou no branco fofo,
e ele ficou preso at a coxa em neve. Vallen viu que Inverno no tinha efeito contra os
inimigos se algo, o frio mgico parecia
revigor-los. Mas sorriu quando o fogo de
Inferno incendiou a gordura que recobria um deles.
Gostam disso, aberraes? Vou queimar todos vivos!
Boa bravata, mas vazia. Uma patada forte logo
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Eles no sabiam ao certo como evitar que a gua dos cantis se congelasse, portanto haviam
apelado para a ajuda divina para aplacar sua sede.
Vamos embora logo, seu bando de velhotas disse Vallen.
Gregor dirigiu-lhe um olhar de signi
cado indeciso.
Desculpe. Fora do hbito.
Partiram. J estavam h dois meses nas Uivantes, e era horrvel, para a maior parte
deles, demorar-se por tanto tempo em um s lugar. De incio, a travessia fora fcil. Passaram
pelas Terras dos Pequenos, o lar dos hal ings do gelo. Cercados por orestas de taiga, os
membros daquele diminuto povo que habitavam as montanhas eram cordiais e prestativos.
Haviam guiado o Esquadro do Inferno por um bom trecho. Deixaram um mapa e um
conselho: evitem lutar.
No fora difcil segui-lo, j que o mais trabalhoso era encontrar uma viva alma com
quem trocar golpes. Alguns animais selvagens,
adaptados vida no frio ursos brancos,
lees do gelo, lobos esquims haviam sido os nicos adversrios. Os aventureiros tinham
escutado histrias de trolls, ogros e hobgoblin
s ainda mais brutais e resistentes que viviam
nas montanhas, mas, felizmente, ainda no os haviam encontrado.
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Vallen apoiou a deciso de Gregor. Seu racioc
nio: ele era o lder. Ellisa limitou-se a
comprar mantas e equipamentos de escalada.
Equipamentos que tinham visto muito uso nas ltimas horas, quando os aventureiros
haviam subido um paredo reto e liso, de ge
lo branco e cegante. Artorius, o ltimo a
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S MONTANHAS UIVANTES ERAM UMA MANCHA BRANCA,
brilhante e gelada no meio do Reinado. Um espinho frio encravado entre as regies
de clima ameno. A maior parte do seu te
rritrio era mesmo uma grande cordilheira;
montanhas escarpadas cobertas de gelo afiado, que desafiavam o mais experiente
montanhs. Havia tambm vales, rios (congelados boa parte do ano) e plancies, mas
todos igualmente inclementes.
As paisagens mais confortveis que as Uivantes tinham a
oferecer eram florestas severas de altos pinheiros, e tundra rida.
No se sabia a razo daquele frio anmal
o bem no mago da civilizao artoniana.
Especulava-se sobre um demnio do gelo; sobre uma maldio dos deuses; sobre ventos
idiossincrticos que mantinham o calor do lado de fora. A verdade, contudo, era que
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h como impedi-la. Mas ns podemos pr um m a ela, com um s golpe, ao invs de deixar
O I  M
Wynna se curvou na direo do Trapaceiro, escutando com ateno suas palavras.
Poderamos aprender, sim (no eu, que sou um bobo burro), mas a esfuziante Wynna
poderia ensinar tanto! No deseja ensinar a es
te povo infeliz a magia to esplendorosa?
Nos olhos de Wynna havia duas pequenas estrelas.
Cale-me se falo bobagens, minha senhora!
Voc fala com sabedoria sorriu a bela
deusa. Iremos compartilhar nossas
ddivas, ou eu irei ao menos, mesmo se estiver sozinha!
Wynna empinou o nariz, altiva e desa
adora.
Oh, mas tenho mais sorte do que mereo! Hyninn se ergueu e deu pulinhos.
Um bobo to rasteiro recebendo o apoio de deuses to sbios. Eu lhes sou grato, minhas
senhoras, meu senhor! To grato...
Basta Khalmyr no ergueu a voz, mas a sala congelou. No somos tolos aqui,
Deus dos Ladres. Nenhum de ns esqueceu que voc ... o Trapaceiro.
Hyninn deu de ombros, como se pedisse desculpas.
verdade, meu rei. verdade, eu sou um Trapaceiro, um ladro, enquanto os
senhores so guerreiros, donos dos presentes mais valiosos da Criao, lordes invencveis
o Deus dos Ladres parecia beira das lgrimas. E, se pudesse escolher, no teria
O P 
muito bem que algo perigoso, mas so ainda
piores as alternativas. E a tempestade pode ser
maravilhosa! Vejam Tauron interrompeu de novo.
Eu digo que venha a tempestade proclamou. Os outros deuses miraram-no com
bocas pendentes. Tauron no se esquiva do perigo. Se no formos fortes, no somos deuses.
Que venha a tempestade, e que morra quem tem de morrer. o que eu digo.
Oh, mas que alegria! Hyninn bateu palmas. claro que um bobo covarde como
eu no poderia ter pensado como o poderoso Tauron, mas que bom que concorda comigo!
Agora tenho um aliado de valor. No escutem a mim, senhores, senhoras, que sou um bobo
fraco, escutem o forte Tauron!
Lena se apoiou na mesa, descansando o queixo sobre os antebraos cruzados.
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Diga Khalmyr ergueu a voz acima das outras e, batendo a espada no cho de
mrmore, cessou todo o barulho. Diga o que tem a dizer.
Hyninn encolheu-se todo, como uma criana ou um servo que faz a uma
gura de
autoridade um pedido to extravagante que o envergonha.
Eu venho pedir, no! Implorar, no! Suplicar como o reles bobo que sou, meus senhores
e senhoras, meu rei, para que a tempestade ocorra.
Ningum falou. Todos olharam para Khalmyr, esperando o que ele diria.
Era s isso? A resposta no. Assunto resolvido.
Um novo burburinho inundou o tribunal. A voz de rocha de Tauron duelava com a
estridente voz de Wynna, Lena tentava ser ouvida, Marah pedia calma, mas foi o som no e
cantado da voz de Hyninn que se ergueu acima de todos.
Meus senhores! Damas e cavalheiros, gran
des poderosos de toda a existncia, meu
rei, meu amado e magnnimo rei, ouam-me! Eu suplico! Ouam as tolices do bufo, apenas
desta vez e, se julgarem que o que eu digo absurdo, ento irei me calar. Nunca mais ouviro
uma palavra idiota deste bobo, meus lordes, se assim ordenarem, mas eu me ajoelho ante vs
e suplico os guizos balouando Para que me ouam, s desta vez!
Fez-se ateno. Hyninn limpou a garganta.
Eu venho aqui para clamar por piedade, meus lordes, meu rei. Sim! Porque o trabalho
do bufo espalhar a alegria, no? E hoje eu olho para nosso mundo amado e vejo tanta
tristeza! E o bufo, o bobo, o palhao ch
ora, meus senhores. Chora por Glrienn.
Glrienn est cega Wynna dispensou as palavras do Deus dos Ladres, distrada.
E quem dentre ns, eu pergunto, se que ouso contradizer a poderosa Deusa da
Magia, to mais sbia do que eu, no estaria
cego tambm, no lugar dela? Glrienn fez seus
ideais, sua essncia, em
lhos, e estes lhos
O P 
(depois, as mentes dos jovens no suportariam
a experincia da conversa, e eles iriam esquec-
O I  M
Nimb havia presenteado Lena com dois pequenos dados de seis faces, feitos de madeira
de coelho, para que ela brincasse. A deusa, uma menina que no aparentava mais do que seis
anos, sentava-se de pernas cruzadas no cho de mrmore, jogando o dado. O resultado era
O P 
Isto desrespeito! bradou Tauron. Inadmissvel!
Pedir que Hynnin no se atrasasse so
rriu a mulher vestida de luz branca, que
se sentava frente de Tauron. Seria o mesmo que exigir que voc se curvasse, meu
amado companheiro.
As chamas se ouriaram em volta da cabea de touro do Deus da Fora, e ele mirou a
Deusa da Paz com vontade de estrangul-la. Mas, como sempre ocorria, aquele desejo passou.
Marah riu de puro deleite.
Voc fraca e pattica grunhiu Tauron. Apenas fracos e patticos toleram o
desrespeito.
Voc tem razo disse a Deusa da Paz, com toda a sinceridade. Sou fraca. Sou
pattica. Por isso preciso de sua proteo, meu amigo.
Era o que sempre acontecia, e Tauron sempre se enfurecia com isto. Marah sempre iria
preferir qualquer humilhao violncia. Olhar para ela era quase cegante: suas vestes eram
feitas de luz pura e, embora fosse bela de
uma forma simples e humilde, seu rosto franco
impelia compaixo, piedade e outros sentimentos que Tauron preferia ignorar.
Khalmyr sentia a balana divina se equilibrar. Como se por um desgnio mais forte do
que eles mesmos, os deuses compensavam uns aos ou
tros, e havia, seno paz, ao menos trgua.
exvel Tauron desperdiava sua ira na humi
lde Marah; a misteriosa e fantstica Wynna
compensava a simplicidade inocente de Lena,
a Deusa da Vida, que, na forma de uma criana,
brincava em um canto do tribunal. Ele mesmo,
a mais poderosa fora da ordem na existncia,
encontrava seu necessrio oponente na loucur
a selvagem de Nimb; apenas Lin-Wu, o honrado
Deus-Drago dos guerreiros de Tamu-ra, en
contrava-se sem oponente, ainda aguardando
Hyninn, o Trapaceiro, o Deus dos Ladres. Que era a causa daquela reunio.
Lin-Wu, que naquele mundo escolhia adotar a forma de um guerreiro em elaboradas vestes
tamuranianas, ainda no tinha dito uma palavra,
afora as longas saudaes e demonstraes de
cortesia ao an
trio. Lin-Wu, de todos, era o mais semelhante a Khalmyr, e o Deus da Justia
teria sentido prazer em conversar com ele. Na verdade, Lin-Wu por pouco no era o que era
Khalmyr: um juiz in
exvel, um guerreiro bondoso e e
O I  M
Gente nova! Acontecimentos imprevisveis! Era o su
ciente para enlouquecer.
Khalmyr estremecia de leve dentro da magn
ca armadura de placas. Sentava-se num
trono da melhor pedra e do melhor ao que exist
ia em todas as realidades; tinha, de um lado,
seu escudo reluzente e largo, e do outro, sua comprida espada a
ada e cravejada com joias em
nmero par. O Deus da Justia, o lder do Panteo, o Rei dos Deuses, o Juiz Divino era to
O P 
ODOS J ESPERAVAM O VENTO QUE, NA MESMA HORA PRECISA
de todos os dias, dobrou todas as folhas de grama no mesmo exato ngulo. Todos sabiam
quanto tempo duraria aquele sopro e, depois de alguns instantes, todas as folhas voltaram ao
lugar onde estavam antes, ao mesmo tempo. Quatro moas de vinte e quatro anos lavavam cada
uma dez peas de roupa, pertencentes aos seus
dois irmos, como faziam todos os dias. Duas
de cada lado do rio. Elas sabiam que, depois de doze batidas compassadas de seus coraes,
passaria por ali um grupo de vinte gazelas em trote. As jovens cantaram a mesma cano
de todos os dias, as vozes em unssono perfei
to, e observaram os animais em sua jornada
conhecida. Dentro em breve terminariam os deveres ali no rio, e voltariam para casa antes da
chuva, que caa todos os dias quando o sol se preparava para descer.
O rio traava uma linha reta perfeita, no centro exato de um bosque retangular. Um
nmero igual e par de rvores existia de cada lado do rio. Um nmero igual e par de pedregulhos
repousava em cada margem. Um nmero igual e par de folhas em cada rvore, em cada moita.
No muito longe, depois de um labirntico jardim de ngulos retos, erguia-se majestoso o
tribunal de Khalmyr, o Deus da Justia. No centro exato de seu Reino, com um nmero par de
torres formando uma estrutura simtrica e perfeita,
como perfeito era tudo ali. A chuva comeou.
Duraria exatas duas horas, e o mesmo nmero de
gotas cairia, assim como caa todos os dias.
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Rufus expelia pela boca uma gigantesca lacraia.
O E  I 
O I  M
Aps hesitar um pouco, os aventureiros o Esquadro do Inferno entraram na
escurido cercada de pedra.
Luz sussurrou Vallen, e uma tocha foi acesa.
As paredes da caverna eram totalmente cobertas de desenhos feitos a tinta. Alguns
pareciam as pinturas toscas de uma criana,
enquanto outros eram to elaborados que
ameaavam se mover. O cheiro de perfume era cada vez mais forte, e j chegava a provocar
dores de cabea.
Viemos falar com Kallyvaan disse Vallen.
J sei! sbito, um homem emergiu das pr
ofundezas da caverna, saltando e correndo
alegremente, apoiando-se nos braos e dando cambalhotas. Tinha os cabelos muito compridos,
e eles se juntavam a uma barba espessa e ema
ranhada. Trajava roupas que poderiam ter
vestido cinco ou seis pessoas camisas, ca
sacos, mantas, uns por cima dos outros. Seus
olhos, enormes e azuis e sempre em movimento, pareciam fora de lugar no rosto peludo. Era
dele que vinha o perfume sufocante.
Meu servo j me avisou disse, apontando para um gafanhoto em sua palma. Sou
Kallyvaan, clrigo de Khalmyr.
O grupo quase foi jogado para trs.
Pensei que era clrigo de Nimb disse Nichaela.
E faz diferena?
Por um momento, apenas tentaram se acos
tumar ao perfume. O gafanhoto ameaou
saltar, e o homem esmagou-o com um tapa violento e sonoro.
Ele no era seu servo? disse Nichaela.
Era
. Agora, s um gafanhoto morto chegou prximo a ela. Movia-se sem parar.
Tudo muda, sabe?
para isso que estamos aqui Vallen to
mou a palavra. Para o Ritual da Troca.
Kallyvaan ponderou por um momento.
Por qu?
Vallen limpou a garganta.
Porque sou uma porcaria de lder. Somos um grupo de aventureiros e eu sou uma
porcaria de lder. Precisamos de mudana.
Que motivo ftil! gargalhou o hom
em, pulando, animado. timo. Farei.
O E  I 
E no se sinta culpado falou Kodai, em sua fala dura e truncada. Nossa lealdade
a voc no boa nem ruim, apenas
, como o correr do rio ou a fora do vento.
No sejam leais a mim! vociferou Vallen. Sejam, agora, leais a Rufus.
Para o diabo com isso cuspiu Ellisa. No sou leal quele mago intil. Mas
tambm no vou deixar o meu amado ir para o inferno sozinho.
Vallen sorriu.
Est certo, ento. Vamos todos.
Havia uma inevitabilidade no ar, uma sensao de destino e de certeza imutvel, que era
ao mesmo tempo assustadora e reconfortante. Acontecesse o que acontecesse, o cu era azul,
o oceano era profundo, e aquelas seis pessoas estavam juntas.
Vamos chutar os traseiros dos demnios,
no seu prprio territrio disse Vallen,
com seu sorriso feroz. Ns somos o Esquadro do Inferno, e nossos inimigos no perdem
por esperar.
Esquadro do Inferno? riu Gregor.
Ora precisamos de um nome, para que os menestris saibam o que cantar!
Vallen parecia brilhar. Ps as mos em concha sobre a boca.
O I  M
Foi isso que nos colocou nesta confuso.
Existe um meio
normal
de achar demnios? Gregor balanava a cabea.
Isso tudo o que posso dizer, se vocs no dispem de um mago.
Embora, depois da sua participao na batal
ha contra os goblinoides, Senomar tivesse
ofertas de dinheiro e segurana, tocando para as tropas em Cosamhir, havia optado por
continuar com a vida de andarilho. Segundo ele,
a rotina de um exrcito tinha muito mais a
ver com gente arrogante dando ordens absurdas do que com glrias guerreiras.
Ento, acho que isso o que vamos fazer Vallen resignou-se.
Senomar, desengonado e magro como eles se lembravam, e ainda en
ado nas perptuas
roupas negras, pousou uma das grandes mos no brao de Vallen.
Tudo isso pelo seu amigo. Voc um bom sujeito.
Vallen descartou o comentrio.
No, verdade. s vezes, parece que a regra neste mundo que todos sejam canalhas.
Quer dizer, no que todos precisem ser heris, mas poderiam ser
decentes
. Pelo contrrio.
Parece que preciso achar heris apenas para encontrar algum que no cuspa na sua bebida,
quando voc lhe der as costas.
Talvez voc s conhea as pessoas erradas.
Tenho vontade de sair deste mundo. Todos tm um corao envenenado.
porque Nichaela pegou toda a bondade do mundo para si.
Riram.
Bem, eles esto pedindo que eu volte a tocar.
Vallen abraou-o.
Atenda o seu pblico.
Boa sorte e... Eu tinha muita coisa a dizer. Mas no consigo me lembrar agora.
Despediram-se do bardo. Trocaram o teto de sap da taverna pela noite clara e estrelada,
e sentiram o ar gelado e bom nos rostos.
Antes de mais um passo sequer disse Vallen preciso esclarecer uma coisa.
O que ele iria dizer, claro, era o que Ellisa insistia.
No tenho o direito de pedir que vocs venham comigo. Ns vamos, literalmente, para
o inferno. No quero que vocs venham, se no estiverem dispostos a morrer. Mas eu mesmo
no posso deixar de ir.
Voc sabe que vamos acompanh-lo Ellisa, cida e cortante.
No posso ser responsvel por vocs, se fizerem algo que acham ser uma bobagem.
Mas eu tambm no posso deixar de ir. Diabos
, Rufus era minha responsabilidade e meu
dever. Mesmo ele no sendo o membro mais poderoso do grupo; mesmo ele tentando me
apunhalar pelas costas, ainda assim tenho que
tentar ajud-lo. Faria isso por qualquer
um de vocs.
Todos aqui vo segui-lo disse Artorius.
O E  I 
mandassem uma mensagem sabia, ao menos, qu
e Vallen planejava ir para Valkaria. Ainda
assim, a solidariedade no foi su
ciente para acolher o enfermo dentro de casa; a famlia Hu
ard
julgou que deixar um pouco de comida ao alca
nce do vizinho era ajuda mais do que su
ciente.
Por infelicidade, Vallen e os outros sabiam
ser incisivos, e o mago acabou dormindo em
um dos quartos dos Hu
ard, de qualquer forma.
Ele est falando do albino, com certeza
disse Nichaela, aps uma semana escutando
os delrios de Rufus. De acordo com ele, ainda est vivo.
Vallen soltou uma praga.
Fomos ingnuos disse Gregor Vahn. Achamos que s aquilo seria o bastante
para mat-lo.
A culpa foi do tal Mestre Arsenal rosnou Vallen.
Nichaela continuou: segundo o que descobrira, Rufus recebera a visita do albino.
E abriu para ele uma passagem para o inferno.
Todos se entreolharam.
Ento disse Vallen. para l que vamos.
A questo que Nichaela se ergueu da cama do doente, falando como uma
professora. Tecnicamente, no existe inferno
. Existem os Reinos dos Deuses, e alguns
podem ser considerados infernais, por certas pessoas. Mas no existe
o inferno
Poderia ter me dito isso antes de eu colocar um nome na minha espada.
E aquela coisa disse Artorius. Tambm no um demnio. No como eles so
conhecidos, ao menos. Se fosse, teria sid
O I  M
Podemos descobrir quem foi o desgraado que fez isso com ele disse Vallen.
Vallen, ele s est doente! exclamou Ellisa.
Isso no doena.
Rufus, que de forma alguma era um homem
jovem, agora parecia velho como o tempo.
O E  I 
M INSETO ENORME E ESTRANHO RASTEJOU, MOROSO, PELO
cho da casa de Rufus Domat. Com uma careta de nojo, Vallen esmagou-o.
Como ele est? perguntou o guerreiro.
Nichaela, que estava curvada sobre o corpo retorcido de Rufus, voltou-se com uma
expresso to doda como se fosse ela a sofrer as agonias.
O I  M
O feitio surgia nas pginas, mas tambm, de alguma forma, parecia ser criado pela
mente de Rufus. E, ao mesmo tempo, o pior de tudo: parecia que j existia, que era uma
entidade viva e aliengena em algum lugar, e qu
e se insinuava, de forma igualmente brutal,
no pergaminho encantado e na mente de Rufus. O mago perdera a noo do tempo
tudo o que havia era a casa, o livro e o albino e sentia o resto da mente se destroar.
M  D   S
Outra capacidade extica era a chamada magia. Era algo fraco e tambm quase intil; fazia
pouco para tornar menos patticas aquelas criaturas. Mas, naquele mundo, era a nica coisa
que podia abrir uma passagem de volta ao seu reino. E, o albino descobrira, as duas coisas
andavam muitas vezes de mos dadas os habitantes do mundo prendiam a tal magia com
O I  M
No meio da alucinao e do desespero, Rufus pegou-se imaginando:
Como ele sabe o meu
. Aquela pergunta dominaria sua mente no
imensurvel tempo seguinte, quando Rufus
foi, de mais formas do que julgava possvel, escravo do albino.
Aquele fora um inimigo estranho, desconhecido e incompreensvel. O intruso, o
M  D   S
XISTE UMA DIFERENA ENTRE MEDO E HORROR.
Medo a vontade de fugir. Horror a descoberta de que no h para onde fugir. Rufus,
lentamente, deixava de sentir medo. Era apresentado ao horror.
Voc est morto
gemia o mago, chorando como um beb. V embora, ns o
matamos.
Temos muito que conversar, Rufus disse o albino.
Ns o matamos.
Vamos
car a noite inteira conversando.
No justo. Eu no
z nada. Eles que lutaram com voc. No justo...
Temos dias e dias para conversar.
Rufus estava encolhido no cho, soluando. O
albino, quase to alto quanto o teto da casa
em runas, apenas observava-o. Sorria uma maldade calma e constante, fcil, natural. L fora, a
tempestade ainda tentava inundar o mund
o. O paraso de Rufus durara pouco.
S quero
car sozinho. No justo... a voz se afogava em muco.
O susto havia expulsado a maior parte das alucinaes, mas, nos cantos dos olhos, os
fantasmas do achbuld espreitavam, com caras de
bochadas e comentrios jocosos. Rufus se via
preso entre o medo das criaes de sua mente e o terror muito real daquele homem que voltara
dos mortos para atorment-lo.
Eu nunca quis participar daquela misso choramingou o mago.
O que voc quer e no quer no tem a menor importncia, Rufus. Voc vai obedecer a
mim porque posso mat-lo, assim como obedecia a Vallen Allond.
No! Rufus teve coragem para olhar de frente a
gura magra e alta. Pre ro
morrer.
No disse o albino.
No, voc no prefere
. No tem coragem. Voc um covarde,
Rufus Domat. Por isso perfeito.
O I  M
O medo o fez sbrio instantaneamente.
As imagens do sonho se des
zeram, mas ele continuava l. Um sorriso mau alm de
qualquer limite, o rosto branco e ossudo se dividindo em in nitos dentes.
Temos muito a conversar.
Ellisa foi contra. Pediu, quase implorou. Argumentou, disse que o mago no valia a pena.
At mesmo contou sobre o que ele lhe dissera na Caverna do Saber.
No interessa respondera Vallen. Ele um dos nossos.
Fazia seis meses que eles tinham se separado, quando Vallen e Ellisa conseguiram
encontrar Artorius, o ltimo que restava para que o grupo ou o que sobrara dele
D Q E  E   S 
a me, provavelmente, morreria mngua sem Claudius, mas tambm foi capaz de convencer-
se de que ela tinha parentes a quem recorrer. Talvez at fosse verdade.
E houve momentos em que a culpa o atacou como a peste, mas ele treinou em ignor-los
entre a culpa e o achbuld, o achbuld era sempre mais forte.
O I  M
seu nariz e sua garganta, mas continuou, d
eixando pegadas na imundcie do assoalho. L
estavam, como ele se lembrava: a cozinha, a sala, os quartos. A umidade havia destrudo
a maior parte de moblia (e outra parte fora roubada), mas alguma coisa ainda estava l.
Fungos prosperavam, na forma de bolor negro e forte e cogumelos de aparncia esqulida
e extica, pelas paredes e cantos. Algumas peas estavam bloqueadas por muralhas de
D Q E  E   S 
Eu sei.
Isso o que acontece quando voc no me ouve.
Certo, voc no precisa tambm foi interrompido por batidas na porta.
Senhor Vallen Allond a voz de um menino do outro lado.
Vallen vestiu as calas com pressa, e pegou uma espada. Ellisa se enrolou no lenol e
tambm se armou. Ele abriu a porta. Um ra
pazote sujo e esfarrapado estendeu-lhe um
pergaminho, e esperou, paciente e inconvenie
nte, at que Vallen lhe desse algumas moedas.
Foi ento embora satisfeito, e o guerreir
o fechou a porta, examinando o escrito.
uma mensagem? disse Ellisa.
Vallen concordou. Olhou para ela.
De Rufus.
E isso, Ellisa pressentiu, s podia signi
car problemas.
chegada do homem en
ado em mantos elaborados, andando com di
culdade,
carregando a barriga gorda e a mochila pesada
, os vizinhos da fazenda ao lado comentaram:
L vem de novo aquele menino dos Domat. Pensei que estivssemos livres dele
. H anos Rufus
no voltava fazenda dos pais, mas descobriu que tudo continuava como ele se lembrava
partes iguais de alegria e desgosto.
Quando cruzou a propriedade dos Hu
ard, para cortar
caminho at o pequeno stio, foi, como no passado, olhado de esguelha e interrogado.
O que est fazendo na nossa te
rra? espada na mo, Ygor Hu
ard, um dos rapazes
com quem dividira a infncia.
Sou Rufus Domat, lembra de mim? Estou voltando para casa.
Que seja o homem deu um grunhido. V logo.
Sou mago agora!
Que seja.
Era como se tivesse se ausentado por duas semanas, e o tempo ainda no tivesse
apagado a inconvenincia que ele fora para a fa
mlia vizinha por tantos anos. Ainda s um
pirralho esquisito.
Rufus entrou na propriedade de sua faml
ia e atravessou o minsculo campo coberto
de mato at a casa principal. Veri
cou que a propriedade havia diminudo os vizinhos
O I  M
Faz poucos meses que ns nos separamos dele, Ellisa, e ele j me trata assim. Acredita?
Depois de tudo que ensinei a ele?
Tenho certeza de que no culpa dele.
Depois que voc salvou o rabo magro dele em
artann?
Na verdade, ele me salvou tambm.
Ora, vamos, voc sabe que poderia ter feito tudo sozinha. Carregou ele nas costas.
Claro, Vallen a arqueira acariciava com cautela o ombro do amado.
Isso no est certo, Ellisa, e eu vou lh
e dizer por qu. No est certo porque, no
importa o que tenha acontecido e quanto dinheiro
a famlia dele tenha, ns arriscamos a vida
juntos, e isso um vnculo muito maior do que simplesmente ter nascido com um sobrenome
ou outro. srio, eu ouvi Artorius e Nichaela discutindo algo assim, voc sabe como eles leem
cam conversando sobre esse tipo de coisas, e eles so uma fonte con
vel. Por isso, o que
Ashlen fez est errado, no importa se no culpa
dele. Porque , de qualquer jeito, entende?
Claro, Vallen Ellisa sabia que, quando Vallen
cava assim, era melhor deix-lo
discursar contra o mundo. E sempre concordar.
Chega de falar daquele estrume intil!
Vallen ergueu a voz de novo. Levantou-se
e tomou a mo dela. Ele sempre foi intil para o grupo, no ? Recolher informaes!
Qualquer um pode fazer isso.
Ele est ainda mais mago
ado do que eu imaginava
, pensou Ellisa.
Vamos! Vallen puxou-a pela mo. Taverneiro, um quarto! Vou fazer amor com
a minha mulher a noite toda!
Qualquer coisa para fazer ele se sentir mscul
o de novo, raciocinou Ellisa, escondendo o
rosto de vergonha.
Deixe que se exiba
Depois, suados, sobre a palha:
Porcaria murmurou Vallen.
O que foi? Ellisa encostou a cabea no seu
peito, desfrutando do calor dos corpos
e da descontrao, da nudez e da intimidade. No fui boa o su
ciente para voc? Posso
mandar chamar as lhas do taverneiro.
srio. ... Toda essa histria com Ashlen.
Ela no disse nada.
Eu no penso aquilo de verdade, sabe? Eu acho que ele
era
importante.
Mesmo? Ellisa pensava se ele no sabia o quanto era transparente.
E eu sei que voc sabe disso Vallen fez um muxoxo. s que...
Voc sente falta dele.
O guerreiro concordou, beijando os cabelos da mulher.
Eu
disse
que era cedo demais para essa visita falou Ellisa.
Eu sei.
Voc insistiu, mas eu
avisei
que provavelmente ele ain
da estaria chocado demais.
D Q E  E   S 
Athela
cou parada, olhando o cadver, por diversos minutos. Depois caminhou,
arrastando os ps, at o quarto da morta, onde
disse s ajudantes para que recolhessem os
pertences dela, e que esvaziassem o
quarto para o prximo enfermo.
Pediu perdo a Lena pelo que sentia em meio
tristeza, ao horror, revolta consigo
mesma (como pudera ser to cega?), o
alvio
. Estava desobrigada, e isso era uma sensao
terrvel e refrescante. Pois ela negava, mas tamb
m estava mais magra. Tambm sua pele estava
ressequida e cinzenta, tambm perdera cabelo. Tornara-se mais relapsa em tomar banho, e
menos entusistica com os outros pacientes. Mas agora, que Lena a perdoasse, estava livre.
A doena da alma era, acima de tudo, altamente contagiosa.
O I  M
Ajude-me at l.
claro, Irynna um sorriso largo como o cu, salgado de choro. claro.
As duas caminharam at a tina. As pernas de Irynna estavam quase atro
adas pela falta
de uso. Mas, passo por passo, ela chegou, sob os olhos maravilhados das ajudantes do templo,
at a gua quente. Tirou a camisola imunda e entrou, sempre ajudada por Athela. No mesmo
instante, a gua lmpida tingiu-se de sujeira escura, mas era uma viso linda.
Por favor disse Irynna, com suavidade fraca mas doce. Poderiam me dar licena?
As mulheres que observavam, extasiadas, de repente perceberam que a jovem poderia
estar embaraada. Impelidas por Athela, correram de volta aos seus deveres.
Pode me conseguir uma roupa limpa, Athela? disse a lha do comerciante morto.
Esta est muito suja.
claro, Irynna. J estou indo.
Virou as costas. Mas:
Como est se sentindo?
Melhor disse Irynna. Muito melhor.
A clriga desapareceu dentro dos corredores. Ps as ajudantes a trabalhar imediatamente.
Vamos limpar o quarto e trocar os lenis, rpido, antes que ela queira sair do
banho. Vamos!
E todas se puseram ao trabalho entusistico.
Athela pensava em renovao, em vida, em renascimento. Agradecia a Lena e a
yatis,
por aquela ressurreio, to milagrosa quanto a
de um heri falecido em batalha. Pensava em
alegria. Retirava os lenis sujos quando encont
D Q E  E   S 
murchos pendendo do trax de costelas mostra. Irynna estava imunda. Recusava-se a trocar
de roupa, agarrando-se a uma camisola que desd
e as primeiras semanas no tirava. Recusava-
se a tomar banho. Crostas cinzentas e repugnantes tinham-se formado no pescoo, atrs das
orelhas, entre as pernas e debaixo dos braos. Vrios dentes haviam cado. J haviam tentado
at a fora bruta para banh-la mas que ferocidade tinha a fraca Irynna, para resistir! No
nal, Athela fazia tudo o que podia: deixava comida, que sempre sobrava, e insistia sem muita
nfase. No havia nada de errado com o corpo de Irynna, s com sua alma. Mas a doena da
alma era to terrvel que era como se todos os ossos de seu corpo estivessem quebrados.
E, h muito, Athela decidira que no valia a pena preocupar os outros por algo que no
tinha soluo. As pessoas de Adolan perguntavam:
Como est Irynna?
, e Athela sempre
respondia:
Est melhor
. Mentia. E todos ngiam acreditar.
Estou aqui, Athela veio a voz ressequida de dentro do quarto. Pode entrar.
O I  M
Vallen pensou que a histria que tinha ouvido em Fortuna era mesmo tima e verdadeira
mesmo que no houvesse muito tesouro, aquela
era uma luta digna de se sujar. E ele ainda
no havia feito o pedido, mas eles no estavam lon
ge de Valkaria, e haveria tempo de sobra,
sempre. Sempre haveria mais aventuras, e mais
inimigos, e mais amor. A vida era boa quem
deveria celebrar o casamento? Talvez um clrigo de Khalmyr, ou de Tauron? Talvez Artorius
ou Nichaela? As possibilidades eram in
nitas, e a vida s estava comeando.
Deu seu melhor grito de batalha e investiu,
sorrindo como uma criana, contra o monstro.
Mal se ouviam os passinhos de gato da clriga Athela, ao entrar no quarto sempre fechado.
O cheiro de pessoa doente aquele fedor m
rbido e caracterstico que os entes queridos
ngem no sentir estava impregnado nos lenis, nas paredes, no ar.
Que bom, no mesmo, Irynna? batidinhas de leve na porta. J acabou. Tudo
j acabou.
Era bom mesmo, Athela pensava. E que Lena a perdoasse por
car to grata por saber da
morte de um homem.
No houve resposta do quarto de Irynna. Athela bateu de novo, desta vez com mais fora.
Irynna, eles j foram. O senhor Vallen e a
senhorita Ellisa. Deixe-me entrar, eu quero
v-la era uma pena que Nichaela no tivesse vindo, mas o casal garantira que a meio-elfa
havia encontrado uma felicidade at ento desconhecida.
Irynna?
Athela decidiu abrir a porta e entrar de qualquer
jeito. Doa-lhe no esprito ver o interior
do quarto e doa mais ainda perceber que j no doa tanto. A rotina da degradao.
Durante muitos meses, vira a jovem Irynna de nhar, vira a pele corada e elstica tornar-se um
pergaminho cinzento, vira os olhos se apagarem aos poucos, at perderem toda a tolerncia
luz. Vira o cabelo se tornar uma massaroca repugnante, e por m cair aos chumaos, e vira a
jovem cada vez menos presa ao mundo, dormindo e dormindo, mal consciente da realidade.
E cada dia uma luta! Como era dif
cil insistir para que comesse,
a cada dia, e insistir, sabendo
que era intil, para que levantasse da cama. Era doloroso quando, sem saber o que fazer, abria
a janela contra a vontade da outra, e ouvia-a choramingar ante a luz do sol. Era terrvel quando,
numa tentativa de fazer com que sasse da cama, negava-lhe as cobertas, apenas para ver se ela
no poderia ao menos se levantar para peg-las. E era uma agonia ver que
, que Irynna era
incapaz de sequer fazer isso simplesmente
cava tremendo, encolhida na cama.
E, portanto, Athela no estranhou o que viu o corpo destroado de Irynna, re
D Q E  E   S 
No vamos entrar nesse assunto de novo, senhor Vallen Allond Ellisa, duas
echas
saindo ao mesmo tempo do arco, matou mais
duas criaturas. J lhe expliquei sobre a
responsabilidade que voc tem.
Quer dizer ento que Vallen foi interrompido por uma investida em massa das
criaturinhas. Mais de vinte saltavam em sua
direo, lanas em punho, gritando coisas
incompreensveis. Droga!
Vallen trespassou os primei
O I  M
E voc estripando aquele yudeniano foi provavelmente a coisa mais divertida que j vi.
De Petrynia, cada um viajava para uma direo. Artorius iria para a Unio Prpura, um
ajuntamento de naes brbaras onde sempre hav
ia uma guerra que necessitava de um clrigo da
fora, e onde um tal clrigo sempre poderia temp
erar seu esprito. Gregor voltaria para Cosamhir.
Mas nada de visitar a sua famlia aconselhara Ellisa, com um sorriso torto.
No se preocupe respondera o paladino. Vou apenas encontrar velhos amigos
de exrcito. Alis, o seu querido contou-lhe tudo sobre o que se passou em Cosamhir da
ltima vez, no ?
Ellisa apenas concordara em silncio, sorrindo marota.
Linguarudo do inferno! vociferara Gregor, com uma risada spera.
yatis vai
jogar um ovo amejante em sua cabea!
Rufus iria estudar em Sambrdia,
onde, esperava, a antiga ca
sa de seus pais ainda estaria
de p. Para ele, no houve grandes despedidas
, nem brincadeiras agre
ssivas. Vallen e Ellisa
iriam primeiro at Adolan, onde Irynna, a
lha de comerciante, ainda aguardava notcias
do criminoso que a deixara rf. Depois, cu
mpririam a promessa de levar informaes e
notcias aos clrigos da Caverna do Saber. Por
m, por sugesto de Vallen, seguiriam para
Deheon, o Reino Capital.
Quer ir a Valkaria? perguntou Ellisa. Visitar Ashlen?
Sim, isso mesmo ele respondeu.
E alm disso
, pensou Vallen,
l que vou pedir voc em casamento.
Essa a sua ideia de uma viagem romntica? gritou Ellisa
orn, enquanto
disparava uma
echa. A criatura-sapo tombou, mas j surgiam trs em seu lugar. Visitar
uma rf vingativa, voltar a um reino onde todos nos querem mortos, e agora...
Vallen conseguiu erguer o corpo, arremessan
do inmeros dos pequenos monstros em
todas as direes. Seu rosto e suas roupas es
tavam cobertos pela imundcie do pntano, e
ele ofegava, tendo escapado por pouco de se afogar no lodaal fedorento. Tanto ele como a
arqueira estavam ensopados, controlando a tremedeira de frio, en
ados at as coxas na mistura
de gua, lama e matria em decomposio. Via-se
pouco ao redor, a noite era carrancuda, e um
D Q E  E   S 
UM ABRAO.
No me venham car melosos agora, seu bando pattico de comadres disse
Vallen Allond.
Os guerreiros mantiveram a pose, e despediram-se com um nico abrao msculo. Nichaela
derramou-se em lgrimas e beijou cada um deles. Ellisa
orn envolveu-os, cada um, nos braos
O I  M
Para Masato Kodai, ele mesmo era o maior criminoso do mundo. Por isso no casava
queria acabar os Kodai.
E queria uma fuga daquele legado.
No havia um momento dramtico de transio. S o horror se acumulando lentamente
pelos sculos.
Apenas isso.
Isso horrvel, Masato disse Nichaela.
A cabea do samurai pendeu.
Mas timo poder falar disse ele.
A meio-elfa tomou-lhe a mo. Tinha o toque quente e macio de quem nunca pegara em
uma arma. Nem nunca pegaria.
Ela nunca haveria de matar
Aqui est ela disse a clriga.
Estavam apenas os dois, trs meses aps o alb
ino, num templo de Lena, em Lomatubar.
Onde Nichaela fora criada. Ela fez um gesto e uma menina de olhos muito azuis sorriu-
lhe um mundo. Veio correndo aos seus braos
, com passos de pato, descobrindo ainda a
arte de andar.
Esta a minha lha.
A ltima viagem do samurai e da clriga, juntos
. Em breve, Kodai voltaria para Tamu-ra,
para o dever. Contudo, antes permitira-se escolt-la. Nichaela abraou a lha.
Este meu amigo Masato voz de mel.
O nome da menina era gata.
O D    H 
Masato Kodai curvou-se e se levantou. Cumprimentou o pai de novo e rumou para suas
tarefas. O peito de Itto Kodai queimava de satisfao. Seu lho se tornava Executor, e ele
chegava na abenoada e aguardada idade idosa. Era uma boa vida. No; era a vida que existia,
e era absoluta no cabia aos mortais julg-la.
Era o que sufocava Masato.
Isso foi muito tempo atrs.
Dez anos depois: intolervel.
Morrera o velho Itto, morrera-lhe h tempos
a me. Masato Kodai em grilhes de honra.
Diziam-lhe que precisava de esposa. Era esc
ndalo ser ainda solteiro. Mas ele relutava:
sentia-se criana. Sozinho e criana. Por sobr
e seus ombros, olhavam geraes de ancestrais,
atentos a cada movimento. Quando acordava em prantos no meio da noite, sentia os olhares
de reprovao. Quando bebia o lquido aqueci
do que queimava as entranhas e acendia o
esprito, berrava contra o mundo. Contra os deuses. Uma vez ou outra, j fora um embarao
para a corte, mas ngia-se que no. O peso da sua famlia esmagava os eventuais deslizes. O
Imperador olhava em outra direo. O Imperado
r conhecera seus ancestra
is (era imortal!).
Masato desejava perguntar, saber como os mais antigos conseguiam ser infalveis. Mas
nunca falava. Cortesia, comedimento.
Perfeio.
Perguntava-se quando teria lhos: se no na
scesse um novo Kodai, quem iria matar os
condenados ilustres da prxima gerao?
Perguntava-se. Dizia-se.
Ningum tangvel fazia esses comentrios. As pessoas ao seu
redor no tinham volume, eram pinturas. Todos perfeitos. Kodai era diferente.
Este no era o modo do samurai.
Por m, amaldioou-se quando sua li
bertao veio com a tragdia. Um
daimyio
fora
assassinado, sua famlia e servos. Pediu ao Im
perador que fosse caada, para fazer justia,
como o Executor Imperial. Caso conseguisse, como recompensa, seria um lorde guerreiro.
Escolheria um novo executor.
Mas na corte, estranhamento.
O que causara a sada? Um acontecimento doloroso? Uma memria indelvel? Seria um
juramento na tumba do pai? A visita de um ancestral morto?
No s a culpa.
Por geraes, sua famlia matara. E ele vivia para desferir os cortes, sob o peso de
tantos milhares de execues, sob a montanha de cabeas e os rios de sangue. Quem dera os
fantasmas realmente viessem assombr-lo! Quem
dera houvesse vingana de familiares das
vtimas! Quem dera uma chance de expiao.
O I  M
Estoicos por entre o vento. Os olhos do ve
lho Itto lutavam contra a umidade salgada.
Mas, pai disse, de repente, o jovem Masato. No gosto muito da pro sso.
Em Tamu-ra, era o que se dizia.
Limpo
, ao invs de bonito.
Satisfeito
, ao invs de
feliz.
No gosto muito
, ao invs de odeio.
Itto Kodai deu uma risada sria.
O que falas no existe, meu lho. No gostas ento do fato de que, quando largas uma
pedra, ela cai ao cho? No gostas do cu ser azul? No gostas de Tamu-ra ser uma ilha? o
que me dizes. No h o que gostar, Masato Kodai. As coisas apenas so.
Masato concordou com humildade. Itto
tou-o por um tempo. O lho ainda era jovem, e
aquele era um dia de muita felicidade. Era possvel permitir um tal arroubo.
Gostaria de ser guerreiro disse Masato. Liderar os homens na batalha.
Itto tornou-se srio.
Como blasfemas assim? vociferou. Achas que sabes melhor do que nossos
ancestrais, que estabeleceram os costumes? Acha
s que sabes mais do que Lin-Wu, que ditou
o modo como devemos viver?
Masato baixou a cabea, desculpando-se.
Itto deixou a face amolecer um pouco.
Haver batalhas, Masato Kodai. E sers, nelas, o nico general e o nico guerreiro.
Tuas batalhas sero contra o maior dos inimigos: tu mesmo. Lutars a cada dia pelo corte mais
perfeito, pelo golpe mais preciso que cortar a cabea da tua vtima. Lutars para honrar os
teus ancestrais e os homens que executars, co
m mortes perfeitas. Estas sero tuas batalhas.
Sim, meu pai.
Silncio. Os dois homens, de joelhos, frente a frente, ptalas voando ao redor. De um
lado, um jardim cuidado h mil anos, simtrico e verde, controladamente vivo e perfeito. Do
outro, o palcio magn
co, de tetos de bambu e paredes de papel. O sol era gentil e a sombra
na qual estavam protegia as ideias do calor.
H muitas centenas de anos a famlia Kodai
produzia os executores imperiais. O ofcio de
matar gente fora sempre muito honrado por aque
la linhagem distinta, e todos os ancestrais de
Masato observavam por cima de seu ombro agora
que ele se preparava para assumir o posto.
Sentia-se ainda muito jovem, mas no reclamava. No era este o modo de um samurai. J se
exaltara demais com o velho Itto. Excedera-se,
O D    H 
STE O TEU OFCIO, MASATO KODAI, ASSIM COMO FOI O
ofcio do teu pai e do pai do teu pai. uma pro sso honrada, um cargo de respeito e
responsabilidade. Colocar-te-
um passo acima dos teus pares, mesmo dos outros samurais.
Deves, assim, dar o exemplo. Deves ser o exemplo, nunca podes falhar. Este o caminho da
honra e do dever, Masato Kodai.
O I  M
quatro cabeas pendiam mortas, Keenn quebro
u-lhe a outra asa e segurou a cabea de
babuno numa chave estranguladora.
G  M 
A criatura-deus atacou de novo. Desta vez correu com as cinco cabeas baixas, e o chifre
de rinoceronte do tamanho de uma torre pronto para furar o estmago do adversrio. O
ataque teve a rapidez de um relmpago, mas Keenn pde bloquear com o colossal martelo
de guerra. A arma se despedaou ante o impacto, mas desviou a chifrada. Girando o corpo
gigante, Keenn agarrou o chifre e continuou gi
rando, arrastando o co
rpo do deus-monstro,
num crculo largo que provocou uma tempestade
de areia, e por m largou a protuberncia,
arremessando Megalokk num voo atabalhoado at que sasse de vista.
O Deus dos Monstros atravessou um oceano e aterrissou pesado numa ilha, matando
tudo o que havia por l. Antes que se erguesse de novo, j chegava o Deus da Guerra, num
salto magn co, com a espada imensa segura rme em ambas as mos. Megalokk rolou
e pulou antes que a lmina pudesse atingi-lo, mas o golpe de Keenn explodiu a terra e a
pedra, e esfacelou a ilha, que afundou em um
monte de destroos no oceano venenoso. Sem
poder voar, Megalokk acabou por despencar no meio da gua txica, e logo sentiu o corpo
de Keenn jogando-se contra ele.
O Deus da Guerra tinha descartado a espada e,
usando as mos nuas, tinha se agarrado
ao corpanzil da criatura-deus, usando seu
peso enorme para tentar mant-la presa.
Preciso falar com voc!
Megalokk rugiu. Girou o corpo e
O I  M
cinco bocas e rugiu em resposta ao desa
o, mostrando vrias centenas de dentes com o dobro
do tamanho de um homem. O corpo era de leo, com uma cauda de rptil que terminava em
um ferro de osso a
ado. Trs pares de patas, cada uma com garras que tinham fora para
destroar um castelo, e asas de morcego com bordas de navalha. Uma farta juba abrigava
as cinco cabeas: rinoceronte, drago, lobo, tubaro e babuno. Protuberncias sseas
pontiagudas surgiam de dentro do pelo espesso como chifres fora de lugar. A criatura-deus
pateava e eriava o pelo, reagindo intruso em seu ninho divino.
Preciso conversar com voc disse Keenn.
Antes de acabar a frase, o Deus da Guerra, em seu corpo gigantesco, avanou e golpeou
Megalokk, atingindo um dos queixos de baixo para cima, com seu martelo. O Deus dos
Monstros foi arremessado no ar, com um uivo de
raiva e dor, e aterrissou sobre uma plancie,
destruindo a terra e a pedra e formando um des ladeiro. Quando se ps de novo em p, o
gigante de armadura j estava de novo sua
frente, e desceu a espada com fora monumental
em seu ombro. O deus-monstro por pouco conseguiu se desviar do golpe, e bateu as poderosas
asas para alar voo para longe do adversrio.
O furaco resultante devastou uma
oresta.
Antes que Megalokk pudesse tirar todo o corpanzil do cho, Keenn golpeou de novo
com o martelo, acertando a monstruosa asa. Ouvi
u o som do osso do deus se partindo, num
estrondo trovejante que percorreu todo aquele mundo.
G  M 
Arsenal comeou uma frase.
Ou pior! Eu poderia ver sua ca
ada por armas encantadas como uma forma de desarmar
o mundo. Voc poderia estar tentando impedir
que o que j ocorreu em seu mundo ocorra de
novo em Arton... Keenn parecia igualmente fur
ioso e divertido por este pensamento. O
que algo contra os princpios de seu deus, e
que seria punido com a negao de todos os seus
poderes. Voc culpado disto, Arsenal?
Mais uma vez, o clrigo permaneceu calado.
Eu o escolhi como um igual com quem mantenho uma aliana grunhiu o Deus da
Guerra. Mas, no instante em que no me servir mais, irei procurar um adulador obediente,
como todos os outros deuses. Portanto cuidado, Arsenal. Eu
SIM, MEU SENHOR.
Keenn encheu mais uma taa de vinho e, com um gesto, dispensou seu sumo-sacerdote.
Mestre Arsenal vestiu o elmo e se ergueu. Mas, antes de sair pela porta:
Arsenal!
MEU SENHOR.
Rena seu exrcito e trace suas estratg
ias um largo sorriso. A guerra est
para comear.
Alguma criatura estava sendo devorada por outra mais feroz. Sempre. Lagartos que
O I  M
Arsenal fechou os olhos por um momento. Soltou uma pequena respirao e decidiu que
precisava de um gole de vinho.
IREI OBEDECER, MEU SENHOR.
Keenn manteve o olhar por um tempo, depois sentou-se de novo. L fora, a chuva
diminuiu e por m cessou, e os soldados voltaram s suas lutas embriagantes.
G  M 
O I  M
lutarem: sabiam apenas lutar. Era s isso o qu
e havia. Onde quer que o olho pousasse, havia
uma batalha, grande ou pequena, ocorrendo. Es
te era o Reino de Keenn, o Deus da Guerra, e
apenas um homem naquele mundo achava tudo aquilo muito tedioso.
Porque aquele era um Reino de alegria. L residiam apenas guerreiros; guerreiros que
estavam para sempre tomados pela alegria fe
roz da batalha. Era mais intoxicante que o
mais forte hidromel, e mais prazeroso do que o sexo. Incontveis almas residiam no Reino
de Keenn e, se no estivessem vivenciando a fe
licidade incomparvel de matar um inimigo,
G  M 
MA CIMITARRA CORTOU UM ESTMAGO COBERTO DE COTA DE
malha, e as tripas se derramaram envoltas em sangue e sujeira fedorenta. O guerreiro cou
de joelhos, movendo as mos de forma pattica entre as tiras de intestino que pendiam.
Como incrdulo, como se s sentisse surpr
esa, e dor nenhuma. O outro levou a cimitarra
ensopada a seu pescoo e terminou o servio. Houve um som molhado quando o corpo
tombou em sangue. O vencedor sentou-se numa pedra, esperando. Dentro de alguns
minutos, o morto se levantou.
Defenda-se! gritou.
Hoje um bom dia para morrer.
E no eram todos?
Enfrentaram-se de novo. O guerreiro da cimitarra, que trajava uma armadura de couro
coberta por peles, seria morto daquela vez,
mas isso no teria importncia no correr da
E E   S C
Com um novo safano, Mestre Arsenal arremessou Vallen contra uma rvore. Virou-se e
caminhou com uma lentido digna por entre as rvores.
Obrigada! ainda gritou Ellisa,
mas o enorme homem no respondeu.
Vallen se levantou, esfregando a cabea machucada.
Se no estivssemos feridos, poderamos dar conta dele.
Ellisa ajudou-o, balanando a cabea.
Homens...
O I  M
O rei tentava se arrastar, deixando uma tr
E E   S C
Ele poderia ser Keenn em pessoa, de braos dados com Sszzaas e Ragnar, se quiser
mesmo nos tirar daqui. Qual o problema com vocs, homens? Orgulho?
Ellisa, no v disse Vallen. Eu no vou.
VOC FALA COMO SE TIVESSE ESCOLHA disse Mestre Arsenal.
O I  M
O intruso
cou, de novo, inerte.
E, por um tempo, tudo fora o combate, e eles haviam se esquecido de onde estavam. Mas,
com o inimigo vencido, aos poucos se deram
conta de que ainda estavam em Galienn. E os
guerreiros de Yuden ainda estavam l tambm
e, pouco a pouco, tambm percebiam que a
causa de seu pavor estava debaixo de centenas de quilos de pedra.
Esto ali! gritou uma voz conhecida. Os estrangeiros esto ali!
Era Athelwulf. O chefe da vila de Sagrann tinha as duas espadas de Masato na cintura
(presas de uma forma que causava engulhos no samurai), e apontava para aqueles seis
aventureiros em frangalhos, conclamando seus compatriotas a mat-los.
Antes que algum pudesse fazer algo, Masato Kodai se desvencilhou dos braos de
Nichaela e correu at o yudeniano. Athelwulf se voltou para ele, levando a mo at uma das
espadas. Mas Kodai foi mais rpido, e sacou a longa espada curva da bainha mal-colocada na
cintura do chefe.
Eu disse que iria estrip-lo.
E, com um golpe limpo, Masato Kodai o estripou.
Mas os guerreiros de Yuden j vinham. E, mesmo que fossem s uma frao de todos que
haviam estado l, vinham s centenas.
CHEGA anunciou uma voz avassaladora, e
os yudenianos pararam onde estavam,
derrapando no sangue barrento.
Mestre Arsenal estava atrs dos aventureiros.
VENHAM COMIGO ordenou.
Quase foram derrubados pela presena enorme do sumo-sacerdote de Keenn.
No ir nos aprisionar sem uma boa luta rugiu Artorius. De fato, morrer lutando
com o melhor guerreiro do mundo no parecia uma ideia to ruim.
SE QUISESSE APRISION-LOS, J ESTARIAM PRESOS. VOU SALV-
LOS. VENHAM COMIGO.
Os aventureiros se entreolharam.
No! exclamou Vallen. Voc no disse que no deveramos deixar os mais poderosos
lutarem nossas batalhas? E agora vem com
isto? Podemos tomar conta de ns mesmos.
Mestre Arsenal quase deu um suspiro de impacincia.
SE ADMITE QUE SOU MAIS PODEROSO, ADMITA TAMBM QUE SOU
MAIS SBIO. VENHA COMIGO.
Ele o maior servo de Keenn disse Gregor, entre dentes. No podemos
con ar nele.
Ellisa tomou a frente e se juntou
ao enorme clrigo de armadura.
E E   S C
patas bizarras, Ellisa j havia pulado, e jogou seu corpo contra o da criatura, fazendo com que
ela desabasse no cho de novo.
Rolando com agilidade, a arqueira saiu do caminho de Gregor. Ele correu, jogando o corpo
protegido pelo escudo contra a coisa, empurrando-a, arrastando-a pelo cho encharcado de
sangue at encost-la na parede.
Artorius! chamou o paladino.
O clrigo de Tauron correu, girando o machado, e golpeou no o inimigo, mas a alta
muralha atrs dele. Foi um golpe magn
co, e a pedra se rachou, mas a parede permaneceu
de p. Gregor no foi capaz de segurar o intruso, foi empurrado, e seus ps cederam. E a
criatura estava pronta a saltar de novo quan
do Vallen chegou, berrando, de trs. No tinha
suas espadas, apenas brandia as prprias mos como se fossem armas, e, assim que Gregor
fraquejou um instante, jogou-se no corpo do
intruso, espalmando as duas mos contra a
cabeorra e prensando a coisa de novo contra a parede.
Agora! gritou o lder do grupo.
Tauron! urrou Artorius, enquanto girava o machado de novo. A lmina
enorme bateu de novo no mesmo ponto e, de
sta vez, a pedra se estilhaou, a parede
inteira veio abaixo.
Gregor e Vallen mal tiveram tempo de sair
de baixo do desmoronamento, quando
centenas de quilos de pedra desabaram sobre a criatura. A muralha caiu sobre o corpo
O I  M
Tauron! Tauron! Artorius tambm invocava a proteo de seu deus.
E, de sbito, Vallen foi arremessado de novo pelo ar. Ele e Kodai tinham achado que a
coisa estava presa, mas ela tinha sido capaz de dobrar as pernas num ngulo impossvel, e
chutar o guerreiro para longe. Vallen caiu de co
stas, sem flego. O intruso se ergueu, deixando
Kodai moribundo no cho, e foi logo atacado po
r Gregor e Artorius. Os dois, ainda berrando
os nomes dos deuses, desferiram uma tempestade de golpes a
ados.
De volta ao cadafalso, as mos de Nichaela br
ilharam, e Rufus acordou. A primeira coisa de
que se lembrou foi a viso terrvel do intruso, e ento olhou em volta e viu que ele ainda existia.
Fique acordado! disse a meio-elfa. Vamos, os outros precisam de voc.
Rufus apenas tremia.
Vamos, faa outra magia. Um relmpago. Um ataque de energia arcana. Qualquer
coisa, vamos.
Rufus deixou a boca pender, frouxa.
Mas, se eu
zer choramingou. Vou esquecer tudo depois...
Nichaela arregalou os olhos, pasma.
Ento, ouviu seu nome dito com um
apo de voz, com um sotaque quebrado.
Nichaela gemeu Kodai. Por favor, se pudesse vir at aqui, seria timo.
E, no cho emporcalhado de sangue, ao lado de Masato Kodai, Gregor e Artorius
golpeavam como se mais nada existisse no mundo. Tinham j esgotado as bnos que seus
deuses lhes haviam concedido naquele dia em
bora nenhum dos dois houvesse curado
a si mesmo, todos os milagres se haviam convertido em bnos de combate. Nem mesmo
a proteo divina haviam pedido para si. N
o queriam proteo, s matar o inimigo. E,
E E   S C
acinzentada de cheiro horrvel respingou longe e, pelo que pareceu um tempo imenso, a coisa
voou, desengonada e alquebrada.
Ellisa! chamou Vallen. Mas era desnecess
rio, porque a arqueira j estava pronta.
Tinha quatro
echas entre os dedos, preparadas na corda retesada do arco e, assim que o
intruso voou pelo ar, ela disparou, e j tinha a corda retesada de novo antes que a primeira
saraivada atingisse seu alvo.
orn sabia que, num combate mortal como aquele, precisava car atenta para
disparar suas echas na hora certa, ser e ci
ente, no desperdiar munio e no acertar um
amigo. Estava mais do que pronta quando Va
llen deu a ordem e, graas aos seus olhos de
O I  M
Faa algo! gritou o jovem. Aquilo maligno demais! Faa algo!
Mestre Arsenal no movia um msculo.
Com os diabos, voc o maior guerreiro de Arton Vallen empurrou o clrigo, mas
era como empurrar um castelo. covarde? Vamos, faa algo!
A mo coberta de ferro voou num tabefe casual, que acertou Vallen no rosto e arremessou-o
E E   S C
Mestre Arsenal quase teve medo por um instante. Entendeu o que Keenn desejava.
Decidiu no interferir.
A criatura que fora o albino estava imvel.
Aparentemente, observava os aventureiros.
Fugitivo Vallen apontou a espada Inferno na direo da coisa. Sua voz tremia e
fraquejava, mas ele considerava que apenas ser capaz de falar era uma prova de fora incrvel.
Viemos aqui para traz-lo justia. Entregue-se ou sofra as consequncias.
A coisa fez um barulho indescritvel.
agora disse Vallen.
Agarrou com fora os cabos das duas espadas.
Atacar!
Vallen Allond propeliu-se com um salto pelo v
o entre o cadafalso e o palco. Aterrissou
pesado, com as duas solas das botas fazendo
um estampido na madeira, e investiu com
estocadas gmeas contra a criatura. Atrs dele, vinham Gregor e Artorius. Antes de todos,
chegou uma
echa emplumada, que se cravou no peito coberto de muco da coisa.
Duas quelceras se abriram na cabea horrenda, e ouviu-se um chiado doloroso. As pontas
das duas espadas mgicas vieram certeiras, mas a criatura, um instante antes de ser atingida,
deu um salto prodigioso, e passou por cima das cabeas dos guerreiros. Virou-se com uma
velocidade cegante e, com uma das garras deformadas, cortou fundo as costas de Artorius. O
minotauro urrou de uma dor grande demais, e te
ntou golpear. A coisa saltou de novo, para
trs, e pousou no cadafalso, onde Rufus estava desacordado, Masato lutava contra si mesmo e
O I  M
isso fosse tudo, no seria to terrvel. Hav
E E   S C
Gregor Vahn fez uma prece rpida a
yatis empunhou no brao esquerdo o Escudo de
Azgher. Seus olhos castanhos encontraram os olhos vermelhos do albino, e os olhos de ouro
de Azgher lanaram sua magia no estranho.
Faa com que funcione
, Gregor suplicou a
yatis e a Azgher.
Faa com que tudo no tenha
sido em vo
. Uma luz dourada e maravilhosa surgiu
em um cone, banhando o criminoso.
E, ento, nada aconteceu.
Os guerreiros de Yuden chegaram. A primeira leva foi su
ciente para jogar Vallen ao
cho, embora ele tenha tomado a vida de dois antes de cair. Artorius ncou os dois ps no
cho e achou que poderia resistir alguns instantes. Atrs, ouviu-se a voz de Rufus.
Eles achavam que algo assim poderia aconte
cer. Que nem mesmo a magia poderosa do
Escudo de Azgher seria su
O I  M
ALLEN, ELLISA, ARTORIUS, RUFUS, GREGOR, NICHAELA E KODAI
contra cinco mil guerreiros de Yuden. E o albino.
O D  D
Dispuseram-se no palco, banhando-se na admi
rao de todos aqueles homens e mulheres.
O regente, ento, tomou a frente. In
ou o peito e falou e, pela magia proveniente de Keenn,
sua voz alcanou a todos, poderosa como um furaco.
Guerreiros de Yuden ele disse. chegada a hora. Que comece a cerimnia.
Todos gritaram ao mesmo tempo, num brado de
guerra que derrubaria um reino. E ainda
assim, ouviu-se o regente por cima de todos.
Derramemos o sangue em nome
do Danarino de Guerra!
E, ao mesmo tempo, milhares de lminas foram desembainhadas facas, espadas,
machados. E, como se fossem um s, todos os guerreiros que assistiam cerimnia
zeram
um corte fundo no brao esquerdo, e deixaram o sangue correr livre at o cho.
As ruas de Galienn beberam com avidez. Tingiram-se de um rubro terrvel, e houve um
cheiro ferroso sufocante, capaz de fazer vomitar o mais calejado dos combatentes. Mas aqueles
guerreiros estavam possudos
por orgulho e devoo, e no sentiram nada, nem mesmo a
dor dos cortes, apenas um frenesi explosivo quan
do viram o rio de sangue se derramar pelos
paraleleppedos. A cidade se transformou num pntano vermelho.
Nosso sangue para o Danarino de Guerra! bradou o regente, tambm se cortando.
Os doze carrascos, ao mesmo tempo, puxaram as alavancas, e doze alapes se abriram
nos cadafalsos, fazendo doze prision
eiros danarem na ponta das cordas.
O albino sentia o poder uindo, e sorria maldade.
E ento, um prisioneiro se ergueu, o pesco
o aliviado da presso assassina. Aos poucos,
alguns notaram ele, e viram os enormes ombros que o apoiavam.
Artorius, saindo do esconderijo embaixo do
cadafalso, tinha nos ombros os ps de
Masato Kodai. O tamuraniano tossia e engasgava, segurando com as duas mos a corda que
tentara mat-lo instantes atrs. De um pulo, saiu tambm do alapo aberto Vallen Allond,
que se pendurou no mastro que sustentava a corda com n. Sacou Inferno e cortou a corda.
Artorius depositou o samurai no cadafalso. Ergueu o corpanzil de dentro da abertura, e
depois dele, saram os outros.
Armas! gritou Vallen. Armas!
Masato Kodai olhou, ainda tossindo, para o chefe Athelwulf. Todos os guerreiros de Yuden
olharam para os aventureiros. Mas eles no viram isso, porque s tinham olhos para uma pessoa.
L estava o albino.
O I  M
Uma gargalhada, logo interrompida por uma repreenso rme.
O chefe Athelwulf disse a primeira voz. Ir us-lo como boi de carga no salo
de Keenn. Se eu no chegar l primeiro o som estalado de um tapa.
No quase se podia ouvir a dignidade ptrea naquela voz abafada. Eu vou
estrip-lo, e ele sabe disso. Faa as pazes co
m seus ancestrais, Athelwulf o nome difcil,
tropeando na lngua.
Ellisa e Nichaela trocaram um olhar.
As vozes se calaram. Houve movimenta
o acima, e passos se distanciando.
Obrigada, Lena
sussurrou Nichaela.
O burburinho l fora j era ensurdecedor. Mas, de repente, se calou. Ellisa forou mais a
audio para ouvir palavras mais distantes.
Guerreiros de Yuden algum acostumado a se dirigir a multides comeou.
chegada a hora. Que comece a cerimnia.
Milhares de vozes se juntaram num urro imenso. L dentro, no escuro, o cho tremeu.
Os doze prisioneiros foram colocados nas forc
as. Os doze carrascos se aprontaram ao
lado dos instrumentos. Deixaram que cada um
dissesse uma ltima b
ravata ou splica. A
maioria prometeu vingana, pois eram tamb
m guerreiros, e no desejavam que a morte
os encontrasse implorando.
Era impossvel contar quantas pessoas es
tavam reunidas em volta da praa principal
de Galienn. Milhares de olhos ansiosos se voltavam para o palco, esperando o regente, o
clrigo e o Danarino de Guerra
. Milhares de comentrios, de especulaes, de maneiras
de expressar a ansiedade que havia em todos. Dos soldados dispostos em leiras ao mais
selvagem dos guerreiros.
Havia poucos que no compartilhavam da alegria que fermentava. Entre eles, Athelwulf,
o chefe da vila de Sagrann. Ele e seus guerreiros ocupavam um posto de honra, perto do
palco de madeira, com uma boa viso das doze forcas. E assim, Athelwulf ouviu quando o
tamuraniano, mais uma vez, jurou que derramar
ia suas tripas no cho. Era ridculo, ele sabia
o chefe tinha as duas espadas do estrangeiro mas, por mais que odiasse aquilo, sentia
um medo terrvel. Rezou a Keenn para que tudo acabasse rpido.
E ento, todos os guerreiros se calaram. A
gura imperativa de Mestre Arsenal caminhou
com uma dignidade avassaladora, subiu ao palco e se postou de lado, observando o espao
ainda vazio. Em seguida, Mitkov Yudennach,
o prncipe, ladeado por
sua estranha guarda de
crianas. William Vesper, o clrigo que presid
iria a cerimnia, em uma cintilante armadura
O D  D
Nos fez am-lo, e segui-lo Ellisa no deu ateno ao que ele dizia. E cativou a
todos com esse seu jeito bruto de quem pode en
frentar o mundo, e ento decidiu embarcar
nessa perseguio maluca.
No justo
. No justo fazer algum se apaixonar assim, e depois
se jogar numa coisa dessas.
Ellisa, voc comeou de novo, e de novo foi cortado.
No eu, Vallen. No
. Todos ns. Diga-me: voc acha que h algum aqui que no
esteja apaixonado por voc?
cou mudo.
Talvez s eu esteja apaixonada pelo hom
em, mas todos aqui esto apaixonados pelo
guerreiro, pelo lder, pelo brutamontes que ba
te nos problemas at irem embora. Voc j viu
como eles olham para voc, Vallen?
Ainda nem uma palavra.
Quem Gregor deixou que o acompanhasse sua casa? E para quem Nichaela se voltou,
na hora em que os soldados de Tyrondir precisavam de ajuda? E para quem Ashlen olhou na
hora de se despedir?
Todos ouviam aquilo, claro. E concordavam, em silncio.
Voc precisa aprender a ter responsabilida
de, Vallen. Aprenda a usar esse carisma
assim como voc aprendeu a usar uma espada. Ele tambm uma arma.
Eu no z de propsito disse o guerreiro com voz sumida. Seu rosto era o de
um parvo.
Ellisa riu forado.
Uma criana no quer matar ningum falando como uma me. Mas isso no
signi
ca que eu con
e nela para brincar com um machado.
Vallen explodindo.
Entendeu agora, seu imbecil estpido?
Ele a abraou.
Pare de arriscar o pescoo do homem que eu amo.
Beijou-a.
Voc est chorando? Ellisa, desgrudando-se dele e sorrindo, agora de verdade.
claro que no Vallen fungou. Homem no chora.
De repente, passos no teto.
Quatro pessoas disse Ellisa. De mulher, virara guerreira. De repente e de novo.
Aguou os ouvidos para discernir as palavras abafadas acima. Lentamente, arregalou os olhos.
Tem algo a dizer antes da sua morte, estrangeiro nojento? uma voz grave e rasgada.
Em seguida, o gemido de algum lutando contra uma mordaa. A segunda voz se clareou;
a mordaa fora retirada.
Aquele homem disse a segunda voz.
Vou estrip-lo. Ele sabe disso um
sotaque quadrado, quebrado, torto, rgido.
O I  M
Agora sim!
Vallen se esqueceu da discrio e deixou a voz se elevar. Todos olharam-
no com reprovao. Mas ele os ignorou, e agarrou o brao da arqueira. Voc vai me ouvir.
Acho que no tenho escolha Ellisa cobriu-o de sarcasmo.
Vallen pigarreou baixinho.
Quero saber qual o seu problema. Por que est agindo assim comigo.
Ellisa olhou na outra direo.
Fale.
Nada.
Fale!
se no fosse contra sua natureza, Vallen podia ter-lhe dado uma bofetada.
Mas, ainda, nada. Ele suspirou e deixou os ombros penderem.
Apenas me diga se voc no me ama mais. No quero morrer com essa dvida.
Ellisa se voltou para ele, com os olhos se afogando.
Acha que isso? ela engasgou. Podia muito bem torcer o pescoo dele, por fazer-
lhe passar aquela vergonha.
Acha mesmo que isso?
Ele no respondeu. Por m:
No sei. S sei que no quero morrer sem saber.
Chega de falar em morte Ellisa fungou. Ns no vamos morrer aqui. Chega
xao.
Responda Vallen tentou ordenar. Qual o seu problema, Ellisa?
Ela balanou a cabea, olhando para ele como se fosse um idiota.
O problema, Vallen limpou as lgrimas. que voc insiste em arriscar a pessoa
que eu mais amo. Entende? Voc insiste em peg
ar o que mais precioso para mim e colocar
em risco de morte, de novo e de novo. Sem motivo.
Vallen deixou a boca abrir.
Eu disse que j era su
ciente, Vallen a voz se clareou. J era
demais
. Mas voc
no me escutou, e continuou sendo um maldito teimoso, e por nada.
Ellisa ele comeou.
Cale a boca. Voc me perguntou, agora deixe-me falar. H quanto tempo estamos
nessa perseguio, Vallen? sempre
mais
uma cidade,
mais
uma fuga,
mais
uma batalha
intil, e ento iremos encont
rar o albino. Voc realmente acha que vamos encontr-lo
Ele est aqui.
Assim como j esteve em vrios lugares, e ns sempre o perdemos. Ns devamos ter
desistido, Vallen. Voc devia ter desistido.
Eu nunca obriguei ningum a me seguir disse o guerreiro, entendendo devagar.
No diga besteiras Ellisa forou um riso e jogou o cabelo para trs. claro que
nos obrigou, Vallen. Obrigou cada um de ns.
Ele comeou a protestar.
O D  D
O I  M
Iremos fazer como nossos ancestrais, como os brbaros que estavam aqui antes de ns.
Sempre houve um Danarino de Guerra, e haver de novo.
Arsenal apenas olhava.
Ele ser o campeo de Yuden, o maior guerreiro de Arton. Por muito tempo nos
deixamos enredar em protocolos e postos militares, mas eu trarei de volta o verdadeiro
esprito da guerra. O ttulo de Danarino de Gu
erra pertenceu sempre ao melhor guerreiro,
nos povos brbaros que nos precederam. A famlia Yudennach tambm teve sempre um
campeo. E teremos de novo!
A MANEIRA DE YUDEN NUNCA FOI PRESTAR RESPEITO AOS POVOS
BRBAROS, MAJESTADE. SEMPRE OS COSTUMES ANTIGOS FORAM
DESPREZADOS.
Talvez tenha sido este o nosso erro Fiodor Yudennach tinha fogo nos olhos. No
suava mais, no tremia, no gaguejava ao falar com aquele homem impressionante. Queimava
de entusiasmo, de
, agora que a consagrao estava to perto. Talvez por isso o povo
desprezvel de Deheon tenha sido supremo.
Arsenal cruzou os braos.
Que haja de novo campees! Fiodor crispo
u as mos. Que haja os julgamentos por
combate, regidos pelos deuses. Talvez na corte, no falatrio da diplomacia o vil
ormy tenha
sido vitorioso, mas quando o Reinado tomar suas decises pelo ordlio, Yuden ser imbatvel.
ASSUME QUE TODO O REINADO ADOTAR SUA PRTICA.
Fiodor deu um sorriso cortante. Imitav
a, sem perceber, o sorriso do albino.
Dizem que sua santidade vem de um mundo de guerras. Ora, em um mundo de guerras,
uma vez que um lado tenha uma arma, os demais tambm
precisam
de uma arma equivalente.
A verdade, Mestre Arsenal sabia, era que o regente no estava errado. De qualquer
forma, o posto de Danarino de Guerra, o campeo de Yuden, traria o fogo do combate para
Arton. Era o que Keenn desejava. Fosse como Fiodor Yudennach dizia (e os outros reinos
escolhessem seus campees), foss
e o Danarino de Guerra simplesmente usado para invadir
palcios e matar famlias reais, o sangue banharia o Reinado.
Os julgamentos iro se resolver por combate, de uma forma ou de outra Yudennach
ofegava, cansado de paixo. Combate formal ou assassinato, qual a diferena?
A DIFERENA QUE QUALQUER UM PODE SER ASSASSINADO,
MAJESTADE.
Arsenal decidiu-se a no opinar mais sobre o assunto. Sabia muito bem o que uma corrida
de armas podia fazer com um mundo e no sabia se
desejava ver este mundo destrudo. Criara
alguns laos em Arton. Mas apresentara suas discordncias ao prprio Keenn, e as decises
divina e mundana estavam tomadas. Que ho
uvesse, ento, um Danarino de Guerra.
Terminaram de descer as escadas. No andar de baixo, Athelwulf aguardava, sentado
como uma criana. Mitkov batia o p, impaciente. William Vesper retorcia as mos. A nal,
O D  D
O albino se ergueu. Era ainda mais alto que
Arsenal, embora os membros fossem delgados
O I  M
Com passos tmidos, entrou no templo o alto e largo chefe da vila de Sagrann, tentando
ser menor do que era. Fez uma saraivada de mesuras, atrapalhando-se e curvando-se para o
clrigo jovem e para as crianas que protegiam Mitkov.
O CHEFE ATHELWULF PROVIDENCIOU MINHA ESCOLTA disse
Mestre Arsenal. Limpando o suor da testa, Fiodor Yudennach raciocinou que aquele
pronunciamento deveria ser o sumo-sacerdote fazendo uma conversa casual.
Sim, eu fui informado gaguejou o regente.
Mais atrs, Athelwulf abordou William Vesper, cuidadoso como se temesse quebrar algo.
Fiodor continuava a tentar trocar cordialida
des com o imenso guerreiro, quando a voz de
William Vesper se esganiou e cortou o ar.
Acha que pode simplesmente fazer isto? esb
ravejava o clrigo, contra um apavorado
Athelwulf. Acha que apenas mais um no far diferena?
O chefe da vila de Sagrann olhava em volta, desejando sumir. Havia dito que trouxera
um novo prisioneiro, mais um no humano para ser sacri
cado nas festividades. No entanto,
William Vesper se havia digladiado com toda sorte de imprevistos a manh inteira, e tudo
o que no precisava era de um dcimo terceiro condenado, quando havia s doze forcas.
Conteve-se para no excomungar Athelwulf ali mesmo.
DIGAM-ME O QUE EST HAVENDO sentenciou Arsenal. Engolindo em
seco, William Vesper explicou-lhe a situao.
O TAMURANIANO UM BOM GUERREIRO. DEVE SER SACRIFI-
CADO HOJE.
Mas, meu senhor balbuciou William Vesper. S h doze forcas.
Arsenal deu de ombros dentro da armadura.
LIVRE-SE DE UM DOS CONDENADOS. H CES COM FOME POR
TODA A CIDADE.
E assim foi feito. Athelwulf sentiu as pernas afrouxarem de alvio.
MAJESTADE o sumo-sacerdote se virou. MOSTRE-ME O HOME-
NAGEADO.
Fiodor Yudennach assentiu. Sua guarda se ps em forma ao seu redor e, ante um gesto de
Arsenal, ele tomou a frente e subiu uma escadaria larga. Fechava os olhos com uma careta ao
ouvir o ressoar tremendo de cada passo logo atr
s. Logo, subiram ao topo de uma torre onde,
por trs de uma porta simples e trancada, estava
o homem de joelhos. Seu rosto se voltava para
uma janela, como era apropriado ele deveria olhar o cu e ver a magnitude de Keenn. No
entanto, quando se virou para olhar os visitantes, sua expresso no era reverente. Trazia um
sorriso debochado e maligno, com duas leiras compridas de dentes que pareciam presas. Os
olhos vermelhos continuavam carregando aquela con
ana enervante e poderosa, e talvez ele
fosse o nico que no se acovardasse frente a Mestre Arsenal.
Aqui est ele disse o regente, com um gesto amplo.
O D  D
Com licena uma voz tmida na porta do
templo. Era um jovem clrigo, muito
baixo para o robe negro e vinho que usava. Encolhia-se ainda mais ante a situao tensa.
William Vesper exigiu que dissesse o que queria.
A delegao da aldeia de Sagrann est aqui gemeu o clrigo.
Aquela frase foi su
ciente para pr um
m s hostilidades entre pai e
lho. As duas tropas
de guardas se empertigaram. O rei, instintivamente, aprumou as roupas e armadura que estava
usando. At mesmo Mitkov se ergueu, e podia-se ver um respeito apavorado em seu rosto.
Porque a delegao de Sagrann havia chegado. Com ela, o sumo-sacerdote de Keenn:
Mestre Arsenal.
H pessoas poucas, verdade que no precisam fazer nada para garantir respeito e
temor. Basta estar l. Era assim com Mestre Arsenal. Ningum conseguia se lembrar de uma
pessoa que o sumo-sacerdote de Keenn havia realmente matado. Mas o simples fato de aquele
homem existir era uma coisa to notvel e podero
sa que no havia dvidas quanto ao que ele era.
H pessoas, tambm, que vivem unicament
e de sua reputao: seus nomes tm um
tal peso que no preciso que suas capacidades estejam altura. No era o caso de Mestre
Arsenal. Dizia-se muito sobre ele, muitos eram os boatos extravagantes sobre sua fora. Mas
O I  M
generais e guerreiros da corte. A comitiva real tambm trazia a
gura principal daquele dia
sagrado. Um homem estranho, que no tinha nome, alto como o cu e mortal como a ira de
Keenn. Um albino silencioso e cruel.
Fiodor e Mitkov estavam dentro do grande templo de Keenn, aguardando o incio
das cerimnias. Os procedimentos j poderiam ter comeado, mas faltava a presena de
um convidado importante. Fiodor Yudennach conversava com William Vesper, o clrigo
responsvel pela organizao da cerimnia. Er
a seguido de perto por sua guarda pessoal.
Est tudo bem com
ele?
perguntou o rei Fiodor. Referia-se, claro, ao albino. No
se havia decidido uma boa forma de cham-lo
e, portanto, o nome era sempre evitado.
Est na cmara de contemplao disse
William Vesper. Ele era o clrigo atarefado
que estivera inspecionando os trabalhos na pr
aa, mais cedo. A cabea de William doa,
rachando de tantos assuntos que exigiam sua at
eno. Ele se esforava para ser respeitoso o
bastante com o regente.
Bom, bom disse Fiodor, caminhando de um lado para o outro na nave do templo.
Ele j sabia onde estava o alb
ino: supostamente em meditao, para que, dentro em pouco
recebesse a honraria a que tinha direito. Era o costume que o candidato se deixasse iluminar
por Keenn antes da consagrao.
Sentado, jogado desrespeitosamente sobre um bando no canto direito do templo, estava o
prncipe Mitkov Yudennach. Cercava-se de um
bando peculiar de crianas, nenhuma com mais
de doze anos, todas trajando uniformes negros
O D  D
mulheres no meio daquilo tudo provocaria um t
trico festival de estupros. Em qualquer outro
lugar, talvez no em Yuden.
O burburinho era ensurdecedor, sim, mas po
r causa das centenas de vozes grossas, no
porque estivessem gritando. Ouvia-se o clango
r do ao, mas apenas por causa dos ltimos
reparos nas construes de madeira feitas para aquele dia, e porque todos poliam armas e
armaduras para que estivessem em melhor esta
do no porque lutavam. Houve, a bem da
verdade, duas lutas naquela manh. Dois casos em que homens no se contiveram, deixaram a
excitao e as velhas inimizades tomarem conta de seus nimos, e os punhos falaram. Quatro
homens ao todo que, agora, es
tavam mortos. No houve mais lutas.
Em alguns lugares de Yuden, acreditava-se que uma luta, no meio de qualquer cerimnia,
atraa o favor de Keenn. At mesmo um casamento sem morte era um mau agouro os
clrigos de Keenn podiam realizar casamentos, e em Yuden era comum que o
zessem,
sua prpria maneira. Mas, naquele dia, a viol
ncia entre yudenianos no seria tolerada. Os
homens e mulheres eram soldados, eram pees, eram
parte de um todo
. E Yuden era, mais do
que nunca, o Exrcito com Uma Nao.
Assim, os guerreiros encontravam velhos am
igos e inimigos. Duelos, lutas amigveis e
confrontos at a morte eram marcados para o dia seguinte, fora de Galienn. Naquele momento,
apenas palavras (hostis, talvez, mas nada mais do que palavras) eram trocadas. Incontveis
eram os pais e mes que explodiam de orgulho, vendo seus
lhos, pela primeira vez, poderem
chamar a si mesmos de guerreiros. Guerreiros
bons o bastante para estarem presentes naquele
acontecimento. Incontveis eram os juramentos de todo tipo feitos naquele dia, entre aquelas
muralhas
O I  M
O protocolo no vale o meu pescoo, se esse tal Mastim criar problemas ante o regente
pensou o sargento.
Podem passar disse, por m.
John Caenhast e sua orgulhosa comiti
va cruzaram os portes de Galienn.
Nenhuma palavra sobre isto, entenderam? o sargento ameaou seus soldados de,
caso abrissem a boca, afog-los em bosta de mantcora. Era o incio da manh, e as veias j
saltavam na testa do homem. Os soldados acreditaram na ameaa.
Todos esto bem? John Caenhast se virou para trs. J estavam no interior da
cidade, numa das muitas ruas desertas.
Mathilde Furie assentiu com a cabea.
Tudo bem disse Elias, o Mastim. Estranhamente, tinha voz de mulher. Quando
ergueu a cabea, pde-se ver os traos suaves de uma meio-elfa. No sabia que eu tinha
este talento riu Nichaela.
Voc passou tempo demais com Ashlen disse John Caenhast, mais conhecido
como Vallen Allond. Artorius?
Uma voz abafada veio de dentro da carroa. Reclamava que a palha, sob a qual estava
enterrada, fedia a esterco.
Culpa sua por no poder se disfarar disse Vallen. Vamos, temos um
reconhecimento a fazer.
Raras vezes uma emboscada fora to bem-sucedida. A delegao de Tarazel, que
realmente contara com dez guerreiros e mais cinco soldados, nunca soube o que a atingiu. O
nico sobrevivente vomitara todas as informaes sem grande esforo.
Vallen pensou por um instante que Keenn de
veria gostar dele tambm. Mesmo que fosse
s um pouco.
Azgher estava alto no cu, olhando j o topo das cabeas dos homens. E o que via de
seu trono celeste era mesmo impressionante: pa
O D  D
O lder da comitiva se empertigou na sela.
Mais respeito, soldado. Sabe com quem est falando?
O sargento tentou conter uma careta.
Sou John Caenhast, nico lder da vila de Tarazel, e estes so os guerreiros que me bastam.
Deseja disputar minha autoridade? Podemos
resolver isso com um duelo, agora mesmo.
O sargento era um combatente veterano. Sabia reconhecer um bom guerreiro, e viu, pelo
porte e atitude de John Caenhast, que aq
uele no era um homem para se brincar.
Desculpe, meu lorde. Apenas sigo o protocolo.
Que isto no se repita, sargento.
O lder penetrou os portes.
Espere! interrompeu o infeliz sargento. Preciso veri
car seus nomes comeou
perguntando nica mulher.
Ela Mathilde Furie disse o chefe. Minha guarda-costas. muda.
E assim se apresentaram os demais membros: Buldrach era o velho.
omas Huglar, o de
ombros largos. Fizeram com que tirasse a cobertura de couro do escudo.
V? S um escudo comum! rugiu John Caenhast. O sargento pediu desculpas
de novo.
E o jovem? o sargento maldizia sua funo,
meneando a cabea para o rapaz que
conduzia a carroa.
E, de inesperado, o jovem sacou uma faca e fe
z meno de investir contra o sargento, que
deu um pulo para trs.
Elias, no! gritou John Caenhast.
Rosnando baixinho, o jovem se retraiu de novo sob seu capuz de peles.
Ele Elias, o Mastim explicou o chefe da vila. Est muito cheio de todas estas
perguntas. Calma, Elias.
O dinheiro e o prestgio no valem isto
, pensou o sargento.
Senhor disse ele, aps hesitar um po
uco. Teremos que vasculhar sua carroa,
por segurana.
Oh, no problema nenhum disse John Caenhast. Elias, saia da e deixe os
soldados revistarem a carroa.
O jovem no se mexeu. Das profundezas do capuz, comeou a brotar um novo rosnado.
Ele parece no querer sair John Caenhast deu de ombros. Mas pode mandar
seus homens tirarem-no de l.
O sargento olhou, incrdulo, para o jov
em na carroa, que tremia de fria contida.
Mastim
, pensou ele.
E considerado bom o su ciente para andar com este chefe arrogante
Por um momento, o sargento pensou em deixar de lado o protocolo e ignorar a revista. Mas,
considerando melhor, de
cidiu-se por insistir.
A comitiva real vem chegando! anunciou uma voz de dentro dos portes.
O I  M
negro testavam as forcas. Havia preparativos
de ltima hora sendo realizados, pequenos
O D  D
AVIA FELICIDADE E ORDEM NAS RUAS DE GALIENN. OS SOLDA
dos garantiam que fosse assim. Os prdios eram grandes caixas de pedra, havia rvores nos
lugares certos e praas onde as pessoas podiam
se reunir para discutir os assuntos certos,
desde que no estivessem em nmero excessivo. E havia tavernas, e bordis, e todo tipo de
O I  M
os cortes, sumiram os hematomas, o sangue se
tornou mais grosso e abundante nas veias, os
msculos estremeceram de tanta fora. Sbit
o, ele podia enxergar mais longe, ouvir melhor.
Sentia-se capaz de lutar como um deus, correr co
mo o vento, saltar como um grilo. Ser feliz
como uma criana. Sentia o intelecto se aguando
, o velho crebro, que ele insistia ser pequeno
como uma noz (embora fosse mentira; Vallen era um homem de mente aguada, ainda que
monocromtica), se agitando de novos pensamentos. E sentia-se con
ante, capaz de liderar
mil homens, dar ordens para o prprio Rei-Imperador. Sentia que podia enfrentar o mundo,
que tudo daria certo, que o albino no tinha a menor chance.
Passou o clice para Gregor, que estava ao
seu lado. Ellisa estava afastada, mas nem
A C   S 
Cedric havia feito mais: tinha curado os ferimentos deles, at onde o limite de seus
poderes permitiu. Havia lhes dado o pouco em equipamentos e recursos de que podia dispor.
Havia lhes perdoado algumas ofensas bastante graves. Como um professor com um aluno
especialmente rebelde e brilhante.
Voltaremos aqui para lhe trazer as not
cias disse Vallen, o velho sorriso de con
ana.
Mas provavelmente estaremos com um exrcito nos calcanhares.
Allystra, mais atrs, permanecia muda e admirada. Tentava absorver tudo daqueles
tipos peculiares.
Se no h mais nada que eu possa fazer por vocs disse Cedric. Desejo-lhes boa
viagem, e que a Me da Palavra povoe seu caminho de sabedoria.
Na verdade, h disse Vallen. O clrigo lh
e dirigiu um olhar incisivo de irritao
incipiente. Poderia nos cons
eguir um pouco de hidromel?
Desconcertado, Cedric mandou Allystra trazer a bebida. Pensou com seus botes que bem
poderiam fazer aventureiros to insolentes que,
primeira hora da
manh, queriam beber.
A deusa me testa disse, sob a respirao.
O qu? Nichaela.
Nada, minha jovem.
Allystra chegou com um odre. Vallen abriu sua mochila e retirou l de dentro um
O I  M
Mas vocs no precisavam ter gostado tanto. s do que falam: promessas de matar
quem se interpe no seu caminho.
por isso que voc importante... er
a estranho a voz imensa em um tom humilde,
quase envergonhado.
Talvez eu seja intil aqui. Talvez esteja desperdiando o meu tempo. Talvez haja outros
lugares onde eu seja necessria.
No faa isso.
Estou apenas falando a verdade, Artorius.
Por favor, no faa isso.
E tambm existe um limite para ser desacordada, arrastada, tirada do caminho, e
permanecer com um sorriso.
No nos deixe. No
deixe.
No me obriguem.
Depois de Andilla, e de Masato, voc tudo o que eu tenho.
Ento demonstre isso! foi a vez de Nichaela gritar. Era algo raro, mas estava
genuinamente brava.
Artorius se ajoelhou sua frente. Tomou suas mos.
Chega de mortes disse o minotauro.
A C   S 
E, por todos os deuses,
continuava a amando
Pensei que fosse insistir para salvarmo
s Masato disse Artorius, o minotauro.
Nichaela deixou a cabea pender.
No h um instante em que eu no pense ne
le, Artorius respondeu a meio-elfa.
Mas temos uma misso. E provvel que nem
consegussemos salv-lo, de qualquer modo.
Artorius se aproximou, estendendo os bra
os enormes para envolv-la. Estavam apenas
os dois num dos sales de pedra, rezando.
O clrigo de Tauron no iria se permitir essa
O I  M
Eu s queria dizer um tempo. Queria dizer que, se eu estivesse no lugar dele,
nunca iria lhe tratar mal. Voc
seria uma princesa. Como merece.
Rufus, o que voc est dizendo?
Estou dizendo o que voc sabe! o mago elevou a voz, e nalmente encontrou os
olhos de Ellisa. Que ele no merece voc.
E que voc merece?
Eu iria
me esforar
para merecer.
Ellisa seguiu ouvindo.
Quem nunca teve nada, como eu Rufus engasgou. Sabe valorizar o que
conquista. E eu saberia valoriz-la.
Tempo.
Era apenas isso Rufus se virou para ir embora.
Espere! o universo do mago foi um claro de esperana.
Tremendo, olhou de novo no rosto que lhe cegava de beleza.
Est me dizendo que iria me tratar melhor.
Ele assentiu um sim.
Entendo. Talvez voc tenha razo.
Corao na boca.
verdade? gaguejou o mago.
No! Ellisa empurrou-o.
Rufus cambaleou para trs e bateu numa das paredes de pedra.
Vallen salvou sua vida, seu monstro. Ti
rou-o do achbuld, teve confiana para
coloc-lo no grupo. E, por tolo que ele seja, tirou voc de sua vida pattica para tentar
ser um heri.
Terror.
E assim que voc retribui? Aproveita
o primeiro momento de fraqueza, quando
ele perdeu dois de seus melhores amigos, e n
s acabamos de passar pelo inferno, para
tra-lo?
A boca de Rufus pendendo mole.
Para tentar
me roubar
As mos de Rufus agarrando a pedra atrs de si.
E como acha que continuaria o grupo, caso isso ocorresse?
Eu achei que poderamos continuar amigos a voz desaparecendo.
Ellisa congelou-o com um olhar.
Esta deve ser a coisa mais pattica que j ouvi em minha vida.
Ellisa saiu, passando por Rufus
e empurrando-lhe com o ombro.
Vire homem antes de tentar conquistar uma mulher.
Ele caiu de joelhos. Nojo de si.
A C   S 
Melhor morrer do que ver aquilo de novo choramingou Balthazaar.
O que ele ? disse Gregor.
No sei.
O que ele ? insistiu o paladino.
No me faa lembrar...
A viso do albino, no olhar revelador de Balt
hazaar, esfacelou-lhe o esprito. Allystra, a
jovem clriga, atestava que o colleniano no
passava uma noite sem gritar no sono, gemendo
incoerncias que pareciam aterroriz-lo ao ex
tremo. Cedric fora contra, mas Allystra
intercedeu, pedindo para que Balthazaar
casse na Caverna nos seus ltimos dias. Ela mesma
rezava para que no fossem muitos o velho sofria demais.
Ento ele est na corte? Vallen
tentou arrancar mais alguma coisa.
Balthazaar, no meio de balbucios patticos,
conseguiu dizer que o albino iria, em breve,
para a cidade de Galienn.
Receberia uma honra militar.
Os deuses Nichaela.
Espero que estejam do nosso lado
tambm na batalha disse o lder.
Eles seguiriam para a cidade de Galienn, a
sede da religio sangrenta de Keenn, onde
estavam se reunindo algumas das
guras mais importantes de Yuden.
Direto para a boca do lobo disse Gregor.
O lobo que se cuide era Vallen.
J apertavam as correias de escudo, j a
avam espadas e veri
cavam as armaduras. Era
noite fechada, mas estavam to ansiosos que se esqueceram de dormir.
S quero dizer que compreendo voc.
orn ocupava uma das inmeras salas que a natureza havia escavado na
Caverna do Saber. L, checava seu equipamento. Virou-se para se deparar com Rufus, de
p, retorcendo as mos.
O qu? disse a guerreira.
Compreendo voc.
Ellisa pediu que explicasse.
Ele est escorregando, no es
t? Est cada vez mais arrogante e certo de si. E no lhe
ouve. No ouve ningum.
Ellisa caminhou at perto do mago.
Espero que voc esteja brincando.
No tente negar. Vallen est perdendo o cont
role deste grupo. E no est lhe tratando
como voc merece.
Rufus evitava os olhos da mulher. Ellisa, com a mo no queixo, apenas ouvia.
O I  M
E foi embora.
Balthazaar DiSaede foi rico at o dia em que precisou trabalhar. Era o
lho nico de um
comerciante prspero em Collen, que se
zera por si s. Deixou que o pai o
zesse tambm, ao invs
de tomar as rdeas da prpria vida. E, rfo de me desde pouca idade, teve uma juventude feliz sem
se importar com o futuro. O pai trabalhava, ele passava as noites entre as raparigas, e o mundo era
bom. No se podia cham-lo de mau carter: apenas foi um rapaz sem um guia. O pai se ausentava
por meses, em viagens de negcios. Contanto
que deixasse os Tibares, estava tudo bem.
E, talvez, se o pai de Balthazaar o tivesse deixado mais cedo, ele poderia ter aprendido a ser
algum sozinho. Mas o velho tinha sade de ferro, e Balthazaar j contava com mais de quarenta
invernos quando seu pai demorou a voltar de u
ma viagem rotineira. Balthazaar seguia sua vida de
sibarita, e o navio do pai nunca chegava. At que chegaram, antes do barco, contas a pagar. Ele no
sabia nada sobre negcios, mas julgou que, as
sim como seu pai, pudesse aprender na prtica.
Estava errado.
O pai nunca voltou, as contas nunca cessaram de chegar, e as raparigas tiveram que
car em segundo plano. Balthazaar contratou homens astutos para auxili-lo nas nanas, e
astutos eles foram, pois roubaram tudo o que ele tinha. Em menos de trs anos, Balthazaar
estava pobre. No tinha ouro ou pro sso. Acabou na cidade insalubre de Var Raan, onde
acabavam muitos dos sem sorte.
Em Var Raan descobriu em si uma habilidade
. Viu pela primeira vez um item encantado,
e observou, ao redor dele, uma forte aura brilhante. Em pouco tempo, Balthazaar aprendeu
a diferenciar as auras mgicas que era capaz
de ver. Uma habilidade que poderia lhe fazer
fortuna caso fosse mais esperto, mas que apenas o manteve longe da pobreza, pois oferecia
seus servios a piratas e bandidos, e a outros tipos que no hesitavam em lhe enganar.
Era bom, em Collen, viver dos olhos. Era algo digno e fortuito. Mas, um dia, viu o horizonte
mais borrado. Um curandeiro lhe disse que estava
doente. E ele soube que a doena lhe roubaria
a viso. Em Collen, era melhor morrer do que
car cego. Mas Balthazaar sentia nunca ter vivido,
ento procurava esconder o que lhe aconte
cia. E, na primeira oportunidade, fugiu.
Em Yuden, empregou-se com luxo e pompas na fortaleza do regente. Seu nico trabalho era
A C   S 
Faam as perguntas que desejarem disse Cedric, numa voz reverente. O
Helladarion tem o conhecimento do
s clrigos j mortos de Tanna-Toh. Vasta sua sabedoria,
e muitas so as respostas que ele pode fornecer.
O globo permanecia imvel, apenas sendo.
Vallen ergueu a cabea.
Quer dizer que ele no sabe
tudo?
Cedric tentou ignorar o tom de desapontamento na voz do guerreiro.
Ele tem o conhecimento do
s clrigos de Tanna-Toh...
Sim, eu entendi interrompeu Vallen.
O I  M
nenhum medo do guerreiro. Allystra, encostada numa parede, tinha as mos cobrindo a
boca, em espanto.
No irei tolerar este tipo de comportamento aqui, meu jovem disse o clrigo.
Lembrava um professor, um preceptor, um pai: algum acostumado com idade e respeito.
O senhor no sabe o que ele fez Va
llen continuava olhando ameaador para
Balthazaar. O que era intil, pois o velho
cado no conseguia enxergar tais sutilezas.
O que quer que tenha feito Cedric largou
o pulso de Vallen e, para a surpresa do
guerreiro, pegou seu rosto, fazendo os olhos
dos dois se encontrarem. No razo para
voc profanar este recinto. Faa isso de novo, e estar nas mos dos soldados yudenianos.
Talvez seja melhor Vallen, indignado.
E ele esperava j uma reprimenda, provavelment
e de Nichaela, ou talvez de Artorius ou
Gregor. Mas ouviu a voz de Ellisa.
Deixe de ser criana, Vallen. O que va
i fazer? Bater em quem nos acolheu, tambm?
Vallen deixou os braos penderem. Mirava Ellisa com um misto de raiva e descrena. Mas
Artorius e Gregor tinham expresses tambm re
provadoras. E, por teimoso que fosse, Vallen
reconheceu que estava errado.
Nichaela foi acudir Balthazaar. Limpou o queixo do velho, examinou com pesar os olhos
dbeis. Conseguiu, a nal, ver o laranja brilhan
te de uma das ris, que antes pontuara aquela
face como uma joia. Agora, parecia uma sujeira.
Oh, por favor, no me machuquem, meus queridos. J sofri tanto.
Cedric se afastou de Vallen, ainda prestando ateno nele, como se fosse um moleque
malcriado.
Voc ouviu o que ele disse? falou Gregor.
Sim Vallen, mesmo com o orgulho ferido
, resolveu ser prtico. Acha que o tal
homem horrvel o nosso fugitivo?
claro Nichaela com um sorriso, amparando Balthazaar. Os deuses, lembra?
Os deuses esto do nosso lado.
Cedric, sem dizer mais uma palavra, conduziu-
os pelo que restava dos tneis. Vallen se
aproximou de Ellisa. Comeou a falar, mas:
Agora no disse a arqueira. E se afastou.
Rufus viu aquilo.
E, por m, estavam no centro daquele comple
xo de tneis de pedra, aquela caverna que
se abria improvvel no meio de uma
oresta. Estavam num grande
salo, vazio exceto por um
A C   S 
E, como se por um passe de mgica, os habitantes de Sagrann se puseram imediatamente
a trabalhar. No ousavam um segundo de repo
uso: apenas carregavam carroas, embainhavam
espadas, ensacavam mantimentos num frenesi.
Se me permite, meu lorde Athelwulf gemeu, depois de muito hesitar. O lorde
certamente no precisa de uma escolta.
Certamente pode enfrentar qualquer um...
SUGERE, ENTO, QUE UM HOMEM DE MINHA POSIO VIAJE
SOZINHO. COMO UM CAMPONS.
No, meu lorde Athelwulf se apressou, com um medo pattico em sua voz.
O guerreiro conduzia seu cavalo calmamente, olhando uma atividade e outra. Kodai
permanecia chumbado terra.
Meu lorde Athelwulf ousou de novo. Ser o senhor a conduzir a cerimnia?
O guerreiro, de novo, voltou o elmo na direo do chefe. Desta vez, Athelwulf no
sustentou o olhar: caiu para trs, sentado no cho, em terror. Mesmo Kodai, que apenas
observava aquilo, congelou por dentro, e sentiu as tripas encolherem-se de medo. Porque, de
O I  M
A C   S 
Mate-me agora, yudeniano o samurai conseguiu dizer. Pois, se eu conseguir
andar novamente, juro que irei estrip-lo.
Recebeu mais um soco.
Voc no vai morrer agora, criatura suja Athelwulf chegou muito perto de Kodai,
exalando o hlito malcheiroso. Ser sacri
cado em Galienn, na consagrao.
Masato tentou uma cabeada, aproveitando a
proximidade do inimigo. Errou o golpe, e
foi vtima de mais uma saraivada de punhos.
Athelwulf era quase impossvel para Masato falar. Alm do sotaque quebrado,
a boca muito inchada distorcia as palavras.
A inconscincia tambm roava em sua mente,
tentando-o com o alvio fcil. Saque a
wakizashi
. A espada pequena. Olhe em sua lmina,
e ver como vai morrer.
Athelwulf deu uma risada raivosa, fazendo um
comentrio qualquer com seus guerreiros.
Ver que eu vou estrip-lo. Com Lin-Wu por minha testemunha, o que juro fazer.
O chefe da vila agarrou a espada menor.
Acho que vou usar esta faca para cortar a carne que alimenta meus ces.
Olhe na lmina.
Acha que pode me intimidar, aberrao?
Olhe na lmina, eu o desa
o!
Kodai levou um chute no queixo. Chegou a piscar, um pequeno desmaio, mas ento
viu que Athelwulf sacara a espada
wakizashi
. O yudeniano dirigiu um olhar desa
ador ao
samurai, e ento olhou para a lmina.
Arregalou os olhos. Viu, como um reflexo no metal polido, Masato Kodai abrindo
seu estmago.
V? a sua morte, yudeniano. assim que vou mat-lo.
Era uma boa bravata. Kodai con
ava o su
ciente em si mesmo para julgar que daria certo.
Ento vai morrer agora, monstro, antes que possa faz-lo.
Athelwulf segurou a espada de Masato, e comeou um golpe rumo ao corao do samurai.
Masato olhava-lhe nos olhos, atravs das plbebras roxas e inchadas, certo de que iria viver. A lmina
viajava rpida. Quase encostava no seu peito quando uma voz interrompeu o movimento:
Chefe Athelwulf! Ele chegou.
O ar gelou ao redor de Masato. Athelwulf tornou-se plido. Os guerreiros deixaram os
queixos tombarem, e em seguida prostraram-se no cho. Um minuto se passou, e a vila em
silncio mrbido. Os nicos que no se curvavam eram os que seguravam Kodai (e esses
pareciam apavorados). Lentamente, pde-se ouvir o passo manso de um cavalo, uma pata
devagar depois da outra, um bufar de ve
z em quando, se aproximando, sem pressa.
E ento, por trs de uma casa de madeira, surgiu o homem mais impressionante que
Masato Kodai j vira. Era um gigante; um guerreiro imenso, todo coberto por uma magn
ca
armadura de placas. No se podia ver seu rosto, nem uma nesga de pele espiava por trs do
O I  M
por qualquer razo, mantinha os
os preciosos das roupas e as pedrarias dos anis das mos
no dava a impresso de passar di
culdades nanceiras, apenas algum tipo de molstia
avassaladora. Mas o pior de tudo eram seus olhos.
Balthazaar forava os olhos, apertando-os at que fossem riscos e no se pudesse ver as
cores dspares. As mos tateavam frente do corpo, ele caminhava com cuidado: no podia ver.
So vocs? So vocs mesmos, meus queridos? Oh, como lhes devo desculpas.
Balthazaar tentava discernir as
guras que eram borres sua frente. Via cores vagas,
enxergava formas humanoides, mas nenhum trao particular. Assim como Ashlen notara, h
um tempo que parecia enorme, Balthazaar estava
cando cego. Por isso, quisera fugir de Collen,
por isso entregara o grupo ao sofrimento nas m
os de Sig Olho Negro, e por isso acabara em
A C   S 
E assim, decidiu-se criar uma cidade para servi
r de sede religio militar de Keenn, nos
arredores da mtica Caverna do Saber. Os regentes, desde sempre da famlia Yudennach,
no ousavam atacar de forma direta o Hellad
arion ou os clrigos do conhecimento
principalmente pelo medo das informa
es que poderiam vir tona em retaliao. Mas
nunca deixaram de colocar patrulhas e
cientes nos arredores da Caverna, garantindo que o
conhecimento no fosse divulgado demais
. Conhecimento era uma coisa poderosa.
A paz frgil entre o culto a Tanna-Toh e o reino de Yuden desagradava a ambos, mas a
ambos era necessria. E assim, Cedric, um velh
o clrigo com mais conhecimento na cabea do
que entusiasmo no corao, havia arriscado muit
a coisa ao salvar aquele bando esfarrapado.
Passara alguns dias vasculhando os arredor
es em busca de um grupo que pudesse ser seus
olhos em Galienn, e descobrir o que era que estava mobilizando a nobreza, tirando o regente
O I  M
L estava o grande tomo de capa em madeira.
No entendo. Eu o deixei cair.
Tanto melhor disse Vallen. Vamos, no quero deixar um sumo-sacerdote
esperando.
O livro tem poderes misteriosos!
Rufus arregalou os olhos.
Que seja era Gregor. Vamos.
Mais fundo na caverna. Era uma catedral; o teto abobadado se erguia alto, longe
do alcance dos braos, as paredes laterais eram afastadas, e se abriam cada vez mais. O
cho se inclinava, descendo para dentro da terra. Havia escurido, e tambm havia luz:
muitas lanternas cobertas de vidro, disp
ostas em harmonia pelos corredores. O que era
um simples salo natural na entrada da caverna virava logo um complexo de passagens
de pedra e tneis subterrneos. Seria fcil
(menos para Artorius) se perder l dentro. O
velho clrigo seguia frente, sem dizer pala
vra, oculto por inteiro em seus mantos com
capuz, e os aventureiros iam atrs, sentin
do uma coisa estranha uma espcie de medo.
No que achassem que passavam perigo; apenas tinham a noo de que havia ali algo
to
mais poderoso
do que tudo que j tinham visto.
A C   S 
Como voc sabia que ele era o lder?
Deveria ser um humano, para poder lider-l
os por reinos como
este. E no estaria
sendo carregado, a menos que estivesse morto,
pois guerreiros acreditam em fora e em dar o
exemplo a voz foi diminuindo. Conhecimen
to, Allystra, conhecimento e raciocnio.
Os aventureiros se entreolharam.
Esto todos bem? era Vallen.
Rufus certamente no estava: fora espancado.
Gregor tambm no tinha um bom aspecto;
sangrava por uma centena de cortes.
Eu vou viver.
Nichaela, com uma prece, comeou a derramar as bnos de Lena sobre os colegas
feridos.
Vallen imaginara que aquele lugar seria mais
distante. De fato, deveria ser (como Nichaela
poderia con rmar, de acordo com o que havia lido nos pensamentos do soldado Orean). Eram
apenas circunstncias extraordinrias que faziam os
clrigos de Tanna-Toh utilizarem a magia
de sua deusa para carregar aqueles aventureiros
at seu destino, e ocult-los dos olhos de seus
inimigos. Circunstncias que os clrigos prefer
iam no discutir e, portanto, como eram
proibidos de falar mentiras, decidiram se afastar.
Gregor e Rufus abriam os olhos; Ellisa esta
va com a perna enfaixada, quando o clrigo
surgiu de novo. Um velho empoeirado com ar professoral.
Venham. O Helladarion est pronto para receb-los.
Vallen se ergueu, tonto. Tudo estava acontecendo rpido demais, e ele tentava ordenar
O I  M
OC NO SABIA
QUE ELES VIRIAM DISSE A
jovem de amarelo e cinza.
claro que sabia. Era impossvel no ouvir toda a balbrdia que faziam.
Voc falou como se fosse algo mgico...
conhecimento, Allystra disse o velho de mantos. Sabe de algo
mais
mgico?
A jovem se calou. O idoso conduziu os aventureiros feridos at a Caverna do Saber.
E como sabia que eles estavam procur
ando pela Caverna? insistiu a jovem
chamada Allystra.
Foi um bom palpite. Quase todos os aventureiros por estas bandas procuram a
Caverna do Saber.
Allystra pareceu contrariada.
Conhecimento, Allystra, conhecimento diss
e o velho, dedo em riste. E raciocnio.
Nichaela e Artorius pararam antes de entrar na bocarra de pedra.
O que foi? disse o velho.
Ambos
caram em silncio. At Nichaela interromp-lo.
Este um local muito sagrado.
Ser um local muito sangrento tambm, se vocs no entrarem logo. No posso
escond-los o dia todo.
E assim foram enxotados para dentro da mtica Caverna do Saber, o lar de todo o
conhecimento de Arton. Vallen e Artorius pousaram os companheiros no cho de pedras
e terra.
z proibido o velho se dirigiu a Vallen. Como lder dessa gente, faa-os
entender que estou colocando muito mais que meu pescoo em risco para salv-los.
O S  G  
Vamos embora! disse Vallen.
Correram sob o escudo milagroso de Nichaela. Vallen carregava Ellisa; Artorius carregava
Rufus e Gregor. Atrs deles, vinha a aldeia de Sagrann.
Por quanto tempo Lena consegue manter esse truque? perguntou Vallen.
No muito foi a resposta de Nichaela.
Eles se embrenharam num bosque, com os aldees nos seus calcanhares. Athelwulf
liderava a perseguio, berrando e vociferando ofensas aos quatro ventos.
S mais alguns minutos! avisou Nichaela.
Pronto para lutar, amigo? Artorius rosnou um sorriso.
Eles no vo dar nem para o comeo disse Vallen.
E Lena estava pronta a retirar sua bno, e os guerreiros de Sagrann chegavam perto,
quando uma rvore pareceu se mover atrs do grupo em fuga. Vallen notou mas no deu
ateno. Logo depois, um arbusto, e galhos, e
folhagens e pssaros de todos os tipos, e logo
o caminho atrs deles estava bloqueado, e el
es no conseguiam ver seus perseguidores. O
escudo de Lena se desfez. Mas, atrs, eles s ouviam pragas e gritos confusos. Estavam muito
perto, mas os yudenianos os haviam perdido.
Foi um milagre de Lena? disse Artorius.
No. De Tanna-Toh uma voz saiu de trs de uma rvore. Um homem de sessenta
O I  M
para perto dos amigos, sem nunca atacar, apena
s tentando bloquear os golpes com sua espada.
Vallen gritou algo e abriu um novo caminho, cortando at chegar na amada. Os dois
caram
um de costas para o outro, apenas se movendo, sem falar nada. Tentando viver.
Numa batalha, perde-se a noo do tempo. Assim, Vallen, Ellisa e Gregor tinham a
impresso de estar h horas combatendo, quando
de repente yudenianos voaram para todos
os lados. Com um urro, surgiu Artorius, carregando Rufus Domat sobre um ombro, enquanto
investia de cabea baixa, usando os chifres para
estocar, prender corpos e jog-los para cima.
Tauron, faa com que eu no erre nenhum golpe!
Lena, no deixe que a morte chegue perto de mim
ouviu-se a voz de Nichaela.
Artorius depositou o mago desacordado perto
de Vallen, enquanto agarrava o pescoo de
O S  G  
impressionante, alto e largo, farto de carnes,
com muitas cicatrizes onde se podia ver a pele.
Seus bigodes fediam a cerveja mas eram aparados com esmero. No cinto, ele carregava um
trofu: a barba escalpelada de um ano. O cabo do machado era enfeitado com dezenas de
unhas que ele havia arrancado de oponentes valorosos.
Nos seus ancos, os cinco soldados levavam espada e escudo, trajando uniformes
idnticos, com cabelos curtos por baixo dos elmo
s. Um deles era um clrigo de Keenn, embora
menos graduado que Degelfred. Athelwulf e os soldados eram um retrato do que era Yuden:
a selvageria herdada dos povos brbaros que os yudenianos haviam dizimado, mesclada
O I  M
Vou torr-lo com uma bola de fogo!
As crianas, reunidas em volta, gargalharam. Uma pedra atingiu Rufus no ombro.
Vamos, ento desa
ou o garoto.
Mas, claro, Rufus, naquele momento, era incapaz de conjurar uma bola de fogo.
Vamos! o menino deu-lhe um empurro.
Estou avisando. Eu tenho um livro...
Um livro! exclamou o rapazote. As cria
nas rugiram em gargalhada. Alguns adultos
tambm assistiam, rindo calmamente.
O menino deu um tabefe no rosto do mago.
O que vai fazer? Vai chorar? Onde est aquela bola de fogo?
Estou avisando! Rufus sentia os olhos
se encherem. Eu tenho amigos fora da
O S  G  
A menina deu um grito estridente de desesper
o. Ficou um instante parada, atnita, e
nesse instante foi abalroada por Ellisa
orn. A mulher mais velha jogou-a no cho, usando
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O S  G  
desequilibrasse para frente, vtima da fora que punha contra o adversrio. Antes que Bergulch
pudesse endireitar o corpo, Vallen correu para
circund-lo, atrs da fogueira. E assim, no
momento seguinte, quando Bergulch, o Pele-de-Pedr
a, estava de novo virado para ele, Vallen
chutou uma brasa em seu rosto.
Vamos ver se tambm tem olhos de pedra.
O homem uivou de dor, e levou as duas mos cobertas pelas manoplas ao rosto. Vallen
se jogou ao cho, agarrando-lhe os dois joelho
s, fazendo com que dobrassem. Bergulch caiu
pesado na terra, batendo a cabea. Sem deixar que respirasse, Vallen montou em seu corpo e
bateu a cabea calva de novo e de novo, at a terra
car mida e o homem, desacordado.
Prximo! ofegou Vallen Allond.
No era a voz de Gregor Vahn. Vocs trocam de campeo; ns tambm trocamos.
O paladino se colocou no centro do salo, observando os guerreiros sentados. Vallen,
brotando suor, agradeceu-lhe em silncio.
Levantou-se a vasta mulher que tinha o maior dos cachorros. Ambos, humana e animal,
foram para a terra pisoteada.
Sou Brumhyld disse a guerreira, dona de uma voz poderosa, braos grossos
como toras, olhos azuis e brilhantes, seios volumosos e coxas musculosas de ao. Este
Arsenal apresentou o cachorro.
O animal atacou primeiro, em um salto cheio de dentes. Gregor ergueu seu escudo com
rapidez e bateu com ele no focinho da criatura
. Antes que o co pousasse, Gregor agarrou o
corpanzil e arremessou-o contra a dona. Brumhyld recebeu a fera no peito, e caiu para trs.
Quando deu por si, a ponta da espada
de Gregor estava entre seus olhos.
Odeio bater em mulheres. Prximo!
Houve mais um guerreiro, uma montanha em
forma de homem, coberto de cota de
malha, que usava a maior alabarda que Gregor j tinha visto. Tambm foi derrotado, embora
desta vez com mais sangue: perdeu as duas mos.
No sou mais guerreiro o enorme
homem mutilado gemeu entre dentes.
Mate-me.
Eu nunca mato Gregor virou-lhe o rosto. Prximo!
Temos muitos campees rosnou Athelwulf.
Ns tambm era Ellisa
orn, tomando o lugar do companheiro.
Ellisa, acho que esta no uma situa
o para o seu estilo comeou Gregor.
Um guerreiro alto e magro se levantava, no
fundo de uma das mesas. Ellisa disparou uma
echa que se cravou em sua garganta. O yudeniano voltou a sentar.
Prximo! disse a arqueira.
Um guerreiro armado de lana e escudo se ergueu, tendo o cuidado de se proteger de uma
possvel
echa, mas Athelwulf interrompeu-o.
No! o salo se calou. Que seja Ethel.
O I  M
homem. Ele curvou o corpo, sem ar, e a maa bateu contra o cho, afundando a terra compacta.
O S  G  
Vamos! Obedea-me!
Finalmente, decidiu-se por entregar a band
eja ao outro escravo, que j estava
sobrecarregado com apenas uma. Jogou-se ao cho
frente a Athelwulf, encostando a testa na
terra coberta de palha.
Eu gosto de goblins, Vallen Allond o chefe da aldeia voltou a se dirigir ao lder dos
aventureiros. Sabe por que gosto deles? Porque sabem seu lugar.
Athelwulf derramou sua cerveja no cho.
Beba, criatura miservel!
Sem pestanejar, o goblin se ps a lamber o lquido derramado.
V? Ele sabe que, sendo estrangeiro, inferior a um yudeniano. E, no sendo humano,
ainda pior.
Vallen no respondeu.
Este o valor destes goblins, v? Eles entendem sua condio. Qual o seu valor,
Vallen Allond?
Eu sou guerreiro, senhor.
Voc estrangeiro! rugiu Athelwulf. Eu no o conheo, portanto vai ter de
provar seu valor. Voc ser como os goblins, ou ter um valor diferente?
Nada. Vallen continuou sobre um joelho.
Voc diz que quer comprar a minha comida. Trata-me com o respeito que um
estrangeiro deve a um yudeniano. Mas no prov
ou, ainda, seu valor. Pode faz-lo cumprindo
minhas ordens.
Vallen ergueu a cabea, olhando nos olhos de Athelwulf.
Minhas ordens so para que beije minha bota. No, melhor! Beije a bota de cada
guerreiro neste salo, Vallen Allond.
No faa
, implorou Ellisa, em pensamento.
Continue sendo quem voc
E h uma alternativa, senhor?
Combate, claro.
Eu escolho combate.
Contra um campeo...
Eu escolho combate!
Vallen estava de p.
Boa escolha.
O yudeniano enorme investiu contra Vall
en, brandindo uma maa imensa, com uma
cabea redonda macia, coberta de grossos espi
nhos de ferro. Vallen saiu de seu caminho
com habilidade, girando o corpo e erguendo um joelho, que foi se afundar no estmago do
O I  M
Ainda estou bebendo a minha, coisinha es
tpida! um dos homens deu um forte
safano na cabea de um goblin, que logo se desfez em pedidos de perdo e clemncia.
Ellisa observou que os seis soldados no bebiam, nem pareciam se engajar na
conversa ruidosa.
Ao meu lado, Vallen Allond Athelwulf continuou falando, enquanto os goblins
serviam esto os escudos e os nomes dos ch
efes desta vila que me precederam. O primeiro
deles Cynewulf, que era capaz de estrangular um urso com as prprias mos. Meu pai,
Murganwulf, foi o nico homem desde ento ca
O S  G  
O que os traz ao salo da vila de Sagrann? a voz do homem no era nem hostil
nem amigvel.
Viemos apenas em busca de um pouco de
comida, senhor Vallen abaixou-se sobre
um joelho. Pedimos que nos venda algumas provises, e iremos embora.
O homem examinou Vallen por um longo tempo.
Sorveu um generoso gole de sua caneca.
E quem que me pede isto, forasteiro?
Meu nome Vallen Allond. Estes so meus companheiros fez um gesto comedido.
Gregor Vahn e Ellisa
orn. esperou a resposta.
E no deseja saber meu nome, Vallen Allond?
Sim, meu senhor.
Pergunte-me, ento!
Por favor, diga-me qual seu nome, meu senhor.
O homem se empertigou na vasta cadeira.
Sou Athelwulf, lho de Murganwulf.
um prazer conhec-lo, meu senhor.
No vejo por qu, j que meu nome no lhe diz nada houve uma risada contida
atravs do salo.
Mais silncio. Vallen permaneceu curvado, tentando calar as vozes dentro dele que o
chamavam de covarde.
De onde vocs vm, Vallen Allond?
Estamos em viagem, senhor
. Passando por seu pas.
Perguntei quais seus reinos de origem!
Portsmouth apressou-se Vallen. Eu
e Ellisa somos de Portsmouth. Gregor vem
de Tyrondir.
E seu amigo careca, l fora com os fazendeiros?
Rufus Domat. Ele vem de Sambrdia, meu senhor.
Athelwulf coou o queixo e cochichou algo com o jovem clrigo de Keenn ao seu lado.
Ele um mago, no ?
Sim, meu senhor Vallen hesitou.
Curioso que algum de Portsmouth viaje ao lado de um mago.
Ele um mago que provou seu valor, meu senhor.
Entendo tomou mais um gole. E depois:
Todos
tm de provar seu valor.
Vallen fechou os olhos, praguejando em silncio. Prevendo.
Mais cerveja! bradou Athelwulf, de repente. Onde esto os malditos goblins?
Rapidamente, surgiram no salo duas pequenas criaturas cinzas e magricelas, correndo
O I  M
tipo que se usa para treinamento com espadas, ocupavam uma outra rea, embora fosse claro
que eram apenas uma diverso menor no salo. Em duas paredes opostas, duas leiras de
curiosas decoraes. Numa delas, doze escudos, um ao lado do outro e espao para mais
O S  G  
Continuaram andando sob o peso do escrut
nio dos aldees. Perderam a conta das
mos que estavam nos cabos de espadas e fa
cas. Dirigiam-se lentamente, tentando ser
humildes, para o salo.
Repare sussurrou Gregor. Eles
usando uniformes.
Os outros enxergaram o que o paladino apontou. De fato, aquelas pessoas se vestiam
de acordo com algum cdigo homens de marrom, mulheres de verde. As mulheres
mais velhas trajavam preto; os homens idos
os, amarelo. Os meninos vestiam azul, e as
meninas, branco. Eram roupas dspares, claro, e em muitos casos, no mais do que
sacos com alguns furos, enfiados pela cabea. Mas eram uniformes. Aquela gente era um
peloto. Cada um sabia seu posto.
O I  M
Ashlen resolveria isso de olhos fechados
disse Vallen. Iria enred-los com
mentiras e palavras doces.
Ashlen no est aqui
cortou Ellisa. Ns estamos. Vamos; se formos pegos aqui,
a forca.
Em silncio, Vallen concordou e se levantou. Deteve-se, olhando para Gregor.
Talvez seja melhor voc
car para trs tambm.
O paladino olhou-o como se nunca o tivesse visto.
Eles vo fazer com que juremos qualquer bobagem a Keenn explicou Vallen.
Pode ser at que tenham algum comentrio sobre
yatis.
Gregor se levantou e sorriu, com uma expresso tranquila.
Vallen, sou um paladino, e no um imbecil. Tenho certeza de que
yatis no vai se
importar se eu falar uma ou duas mentiras para salvar o seu traseiro magro.
O lder do grupo se permitiu um sorriso, num dos poucos momentos de alegria genuna
daqueles ltimos dias.
Mas deixe o Escudo de Azgher com Artorius.
Est bem. O escudo
ca.
Caminharam, tentando esconder o nervoso, at o vilarejo.
Era mesmo um ajuntamento minsculo, talvez at menor do que eles haviam estimado.
Foram vistos de longe pelo povo que termin
ava seu dia de trabalho, voltando para casa
arrastando seus corpos cansados. Alguns meni
nos correram na direo do amplo salo de
madeira, sem dvida para avisar dos recm-chegados. Enquanto terminavam de pr os ps
nas ruelas de terra, puderam ver que todos an
davam armados. Mulheres
, crianas, velhos
todos carregavam algum tipo de lmina. Eram pessoas pobres e cansadas, mas tinham
uma coisa diferente, uma fagulha qualquer que
os separava dos aldees de outros lugares.
O olho do tigre murmurou Gregor. Os outros confusos. Olhar de guerreiro
explicou.
O paladino estava certo. As pessoas cessavam suas atividades para observar o pequeno
grupo de forasteiros, e em suas posturas havia algo de prontido, como uma fera prestes
a dar o bote. Os olhos examinavam os quatro, avaliando fraquezas com a naturalidade
de um veterano de batalhas. Braos e pernas estavam prontos a pegar em armas ou fugir,
conforme a necessidade.
Mas havia mais: aquelas pessoas, embora vivessem num lugarejo pauprrimo, longe das
cortes e cidades esplendorosas, traziam orgulho no
modo como se portavam e vestiam. Havia
ali agricultores, lavadeiras gente simples mas todos limpos (na medida do possvel).
Rostos bem escanhoados, cabelos curtos e ordenados. E todos pareciam usar suas vestes,
mesmo que fossem andrajos, como uniformes de honra.
Agora eles viam: destacavam-se daquela gente como se no pertencessem mesma raa.
So um exrcito concluiu Ellisa
orn.
O S  G  
Mas sempre h guerreiros disse Artorius. Todos aqui so guerreiros.
Melhor guerreiros do que soldados.
No sabemos disso disse o minotauro, mas foi interrompido por Vallen.
Est decidido! Vamos entrar na aldeia fr
ente e vamos rastejar um pouco, e vamos
comprar algumas malditas raes. E
vocs
de novo para os trs no humanos. Vo
O I  M
Ellisa, por favor comeou Vallen.
Vai me pedir para matar o homem? J
z.
Obrigado disse ele, incerto. Por mais que Nichaela no goste, no podemos nos
dar ao luxo de ter algum dando nossas descries.
Eu sei. Nem sempre voc precisa me explicar tudo como se falasse a uma criana.
Ellisa, eu no disse nada.
Exatamente. H quanto tempo no fala comigo, a no ser para me dar uma ordem?
Vallen
cou parado, mirando-a por um tempo.
Desisto. No preciso disso. Se quer
car com raiva, desconte em outro idiota. Para
mim j basta.
Bom saber que voc no precisa
disso
disse Ellisa, signi
cativamente.
Ellisa, eu no quis dizer comeou Vallen, de novo.
realmente timo saber disto ela interrompeu.
orn apressou o passo.
Vallen Allond olhou em volta, procurando alguma coisa para matar.
Mais duas semanas, e estavam quase sem provises.
Yuden era uma terra segura (segura demais para a prosperidade de aventureiros), e as
patrulhas constantes garantiam que no houvesse caa farta. Na verdade, no havia quase caa
nenhuma. A paisagem tambm no era amigvel: no havia grandes extenses de
orestas,
s pequenos bosques e plancies e mais plancie
s, salpicadas de inmeras cidades e vilas,
todas contando com soldados. A cobertura verde natural e os animais de Allihanna eram
gradualmente expulsos daquela terra pelos hu
manos, que, mais do que em qualquer outro
lugar, marcavam em Yuden sua presena avassaladora. O inverno, que j se aproximava do
seu m, adicionava mais um toque inclemente quela viagem. En m, os aventureiros estavam
racionando comida, e logo passariam fome.
Temos que entrar em uma vila sentenciou Vallen, a cabea pesando de preocupaes
que lutavam por ateno.
suicdio disse Artorius.
Vocs
no vo entrar o guerreiro gesticulou para o trio de no humanos. Ns
vamos. Entrar, comprar alguma comida e ir embora. simples.
Eles tambm no gostam de estrangeiros insistiu o minotauro.
Talvez se abaixarmos as cabeas e formos humildes, eles nos vendam alguma coisa.
Ellisa ouviu Vallen e sentiu a bile da raiva amargar-lhe a garganta.
Talvez
. A palavra
que Vallen odiava.
H uma aldeia frente continuou o guerreiro. Com sorte, ela ter poucos soldados.
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Diga-me o seu nome ela falou. S isso.
O soldado respondeu com uma praga.
Humanos que andam com criaturas infe
riores! mais um palavro. Matem-me
ou torturem-me. melhor do que ajud-los.
Voc no precisa jogar sua vida fora.
Keenn estar me esperando, com um sal
o cheio de mulheres belas, boa cerveja e
batalhas sem m.
Nichaela comeou Gregor.
Por favor, no jogue sua vida fora disse a clriga.
E sem nenhuma aberrao inferior como vocs.
Nichaela, ele no vai falar insistiu Gregor.
A meio-elfa sua prostituta? Malditos amantes de aberraes.
Chega! Vou mat-lo! rugiu Artorius.
O I  M
Nada.
Isto no hora.
Hora para qu? Para cumprir suas ordens?
Vallen comeou a dizer algo, mas desistiu.
Por favor
, tire Nichaela daqui.
Por que no pede a Artorius? Ele quem se intitula irmo dela.
Parem de falar de mim como se no estivess
e aqui! disse a clriga. Ela se dirigiu ao
soldado amarrado, que sangrava sob o olhar atento de Masato Kodai. E mesmo que o Rei-
Imperador
ormy me pedisse, no iria deixa
r este homem sozinho com vocs.
Muito se podia dizer da personalidade de Nichaela apenas pelo fato de demonstrar tanta
piedade para com o prisioneiro, um soldado de Yuden. O homem, um veterano empedernido e
O S  G  
Mais frente a fronteira de Yuden disse Seraphine. Boa sorte.
Podemos lhe pagar mais, se nos levar at dentro do reino tentou Vallen.
J disse que no piso nessa terra amaldioa
da nem por todo o ouro de todos os drages
do mundo a feiticeira cuspiu no cho. Fiz-lhes um favor deixando-os longe da fronteira,
O I  M
Depois disso, viajar e mat-lo. E s.
O S  G  
Seraphine era uma feiticeira. Era um perfeito exemplo da razo pela qual magos como
Rufus se ressentiam do outro grupo. Ela no lembrava em nada algum que costumasse
car
enfurnada entre tinta e pergaminhos; suas poucas roupas deixavam ver um corpo musculoso
e bem-torneado, belo, forte, gil. Tinha a pele negra como a noite de Tenebra, e contrastantes
olhos verdes que exalavam esperteza. Cobria-se com panos vaporosos e esvoaantes, vermelhos,
amarelos, roxos. Adornava seus cabelos curtos
com uma na tiara de prata e diamantes um
toque exagerado e desa
ador, deslocado fora de um salo nobre. Seraphine tambm tinha
um desprendimento saudvel pelos to aclamado
s mistrios da magia. Em outras palavras,
utilizava seus dons para ganhar dinheiro
. Isso provocava engulhos em Rufus Domat.
Se Wynna desaprova a maneira como uso a magia, ela pode vir falar comigo
pessoalmente dissera a feiticeira, falando da poderosa Deusa da Magia.
Mas Rufus tentava se convencer de que nada
daquilo importava, porque ele tinha seu
livro, que insistia em tentar ler, embora as pginas se abrissem e fechassem contra a sua
vontade, no vento que rugia-lhe nos ouvidos.
Voc vai acabar perdendo esta coisa advertiu Gregor Vahn. Guarde.
Rufus no queria guardar o livro, pois estu
d-lo era excitante. Alm disso, manter os
olhos nas pginas rebeldes impedia que ele olhasse para baixo e vomitasse de novo.
Resmungou qualquer coisa e voltou tentativa de leitura. Muito abaixo, a paisagem corria. O
ar secava os olhos e os aventureiros se aproximavam com rapidez do perigoso reino de Yuden.
Toda nao tem um exrcito. Yuden, dizia-se, era um exrcito que tinha uma nao.
Uma terra de ao e disciplina, de homens fortes
e regentes in exveis, de guerreiros mortais
e armas sempre a postos. Era tambm o segundo reino mais poderoso do mundo conhecido,
atrs apenas de Deheon, o Reino Capital. No era segredo que os regentes de Yuden h
muito tempo desejavam o poderoso posto de Rei-Imperador, ocupado por
ormy, o
regente de Deheon. Temia-se o dia em que este desejo mobilizasse as tropas in ndveis de
Yuden, o que provocaria uma guerra sem prec
edentes naquele mundo de batalhas. Quando
Yuden se movia, Arton observava.
Nada disso interessava aos aventureiros. Eles iam a Yuden arriscar os pescoos em nome
do conhecimento. Na Caverna do Saber, no corao do Exrcito com Uma Nao, estava
o Helladarion, o artefato que era o Sumo-Sacerdote de Tanna-Toh. Dizia-se que podia
responder qualquer pergunta.
Tambm no interessava ao grupo o conhecimen
to in nito que o artefato poderia trazer.
No queriam perguntar sobre o estranho envolv
imento dos deuses naquela misso sofrida,
no tinham questionamentos sobre o mundo, o
futuro ou a existncia. S uma pergunta
estava em suas cabeas, entalada em suas gargantas.
O I  M
CHO SE AFASTOU RPIDO, DANDO A IMPRESSO DE QUE,
junto com ele,
cavam os estmagos. Seraphine, a feiticeira, levava o grupo em seu vasto e
colorido tapete voador.
Artorius estava inconsciente,
pois era esta a nica maneira de fazer um minotauro suportar
uma viagem como aquela. Toda a raa tinha um pavor paralisante da altura, e mesmo a vontade
ptrea do clrigo de Tauron no foi capaz de vencer a natureza. Ao invs de demonstrar medo,
Artorius preferiu
car desacordado, e assim prosseguiu por todo o caminho.
Voc estudou na Academia Arcana? disse a exuberante Seraphine, gritando contra
o vento para Rufus Domat. Talvez conhea alguns de meus amigos de l.
Acho que no o mago fez um muxoxo. Certamente no.
Seraphine deixou o assunto morrer, com um olhar de estranhamento. Rufus foi grato por
isso, porque odiava lembrar-se dos anos de fracasso e inveja que passara na Academia Arcana.
Voltou a se concentrar no livro. Quando o tivesse decifrado todo, pensava Rufus, poderia
ento procurar os antigos colegas, de cabea erguida.
A prpria Seraphine j o deixava desconfortvel. Em Arton, havia dois tipos de
conjuradores arcanos magos e feiticeiros. Embora para olhos leigos fossem exatamente a
mesma coisa, havia diferenas fundamentais en
tre os dois grupos. Magos estudavam a magia
como uma cincia, uma coisa hermtica, cheia de
frmulas e smbolos, e dedicavam grande
parte da mente ao armazenamento das palavras e gestos exatos de cada conjurao. Feiticeiros
eram os artistas da magia. No estudavam; o
dom arcano lhes vinha de forma natural, sem
que precisassem gastar horas empoeiradas entre alfarrbios. No memorizavam coisa alguma
pelo contrrio, o ato de conjurar um feitio lhes era to natural quanto mover um brao
ou uma perna. E, embora tambm
cassem extenuados pelas energias mgicas, os feiticeiros
em geral tinham uma postura mais leve (leviana, diriam alguns magos) e despreocupada. De
fato, deles a magia parecia exigir pouco.
L  N T  M N  P  
Eu no quero me virar. No h por que me esforar mais, no h por que fazer
sacrifcio. J perdi demais nisto. As coisas deixaram de ser ideais, e eu vou embora.
Andilla deu a vida por esta misso! Vallen no aguentou mais e gritou.
E quantas vidas mais vo ser necessrias? Ashlen gritou de volta. Chega! Quem
se importa se uma menina perdeu os pais? Isso acontece todo dia! H outros aventureiros,
Vallen, h heris de verdade. Eu vou sair desta loucura, e vocs deveriam sair tambm.
Ningum disse nada.
Desculpe murmurou Ashlen.
Para onde voc vai? disse Nichaela.
Deheon. Valkaria era a capital do Reinado, a cidade natal de Ashlen e lar da
famlia Ironsmith.
Vamos visit-lo disse a clriga.
Ashlen assentiu.
Adeus.
Virou-se.
Espere! exclamou Vallen.
Puxou-o com fora, envolveu-o em um abrao.
Fique com a capa.
Foi esmagado pelos abraos de Vallen, Artori
us, Gregor e Ellisa. Nichaela beijou-lhe as
faces, chorando. Kodai fez uma mesura profunda. Rufus, incerto, apertou-lhe a mo.
Desculpe disse Ashlen de novo. Eu no quis...
No seja idiota interrompeu Vallen. Est tudo bem. Agora saia daqui, est
nos atrasando.
Ashlen Ironsmith levou a capa negra, que viria a pender, intil, por muitos anos em seu
quarto, como uma lembrana dos seus dias de perigo. Aquela foi a ltima vez em que viu os
aventureiros a maior parte deles.
Vallen chutou uma pedra.
Tudo bem com voc? perguntou Ellisa.
Ele deu de ombros.
Perdi um amigo.
O I  M
parecia ter se elevado de novo. Alm disso, havia a capa, que permitia que ele voasse, pendesse
de cabea para baixo por uma s pata.
Muito bem disse Vallen. Temos o destino, e temos os meios. Vamos embora daqui.
O refgio de Seraphine era uma elaborada casa na orla de uma das exuberantes
orestas de
L  N T  M N  P  
De repente, um morcego enorme voou pelo acampamento. Circundou as cabeas dos
aventureiros e mergulhou em direo areia. Em seguida, suas grandes asas
caram ainda
maiores, como se estivessem se desdobrando, e viraram uma capa negra, na qual estava
enrolado Ashlen Ironsmith.
Descobri o poder da capa disse o jovem, mal conseguindo
car de p. Era a primeira
vez que eles ouviam sua voz em muito tempo, exceto por lamentaes.
Ashlen havia descoberto a capa, que transforma
va o usurio num gran
de morcego. Gregor
mantinha no brao o escudo, que trazia a viso reveladora de Azgher, o Deus-Sol. Rufus tinha o
livro com a capa de madeira, embora muito tempo
ainda fosse necessrio para que ele decifrasse
(ou criasse) outra pgina. E havia o clice e as ferraduras, cujos
ns eles desconheciam.
As ferraduras so as mais poderosas foi a sentena da feiticeira que examinara os
itens. No consigo saber o que elas fazem, mas so as mais poderosas.
Um tempo grande havia se passado. Eles haviam sado da ilha, en m, resgatados por
um barco, aps uma semana. Haviam viajado at Wynlla, o Reino da Magia um lugar de
maravilhas onde esperavam descobrir as capacidades de seus novos tesouros, e conseguir um
O I  M
O mago engoliu um pedao de carne (um pequeno animal caado h pouco por Ellisa).
Limpou a boca nas costas da mo.
um livro mgico.
Artorius e Kodai tambm estavam em frente
ao mago, ansiosos por respostas. Ellisa
prestava ateno de longe.
L  N T  M N  P  
O mago chamou os companheiros, e apontou. Artorius bufava, encurvado sobre os restos
da bruxa, que, em pedaos, seguia falando.
Os amigos devem ser bons e  car comigo. Se eu fui embora, no foi por querer.
Gregor foi o primeiro a correr at o ponto
vermelho indistinguvel que Rufus apontara.
O I  M
Armas! gritou Vallen, sem demora. Armas!
E as armas estiveram nas mos de todos em um instante. Eles viam uns aos outros,
de novo fortes e prontos, de novo lutadores e, por enquanto, no procuravam saber o que
Rufus havia feito. Tambm procuravam ignorar o choramingo de Ashlen que, amparado por
Nichaela, repetia:
Eu no tenho armas... No vou mais poder lutar.
Esperaram, por alguns momentos, que a bruxa atacasse de novo. Vallen gritou ordens
(mesmo que, ele soubesse, fossem inteis) para
que eles estivessem prontos as ondas de dor
poderiam vir de novo. Sabiam que pisavam num ch
o frio de pedra, porque sentiram-no nos
dedos e nos joelhos, mas no conseguiam v-lo. S viam a vermelhido in nita, que ameaava
engolir os colegas mais distantes.
Todos juntos! ordenou Vallen.
Mas Rufus via o cho. Via o cho, as paredes, as pedras cinzentas cobertas de limo. Via
uma janela prxima, e via que era um dia azul e agradvel. Via, porque
A libertao total de
Rufus
havia desfeito todas as prises as prises
do corpo de da mente, e com elas as iluses
da bruxa Andaluzia.
Artorius tinha razo disse o mago, com voz muito calma. uma iluso. Sigam-me.
Os aventureiros estavam estupefatos, mas fo
ram atrs de Rufus, sem questionar e sem
falar nada. Perdido em um sentimento desconheci
do de segurana e orgulho, ele os guiou pela
torre que j conheciam a torre velha, decada, mida, salgada. Sbito, ouviu-se Andaluzia.
Amigos no podem sair, os avs vm visitar de novo
Rufus abriu a boca para dizer algo, mas Vallen foi mais rpido e eloquente:
Lembrem-se! uma iluso!
Veio de novo a onda de dor. A sensao de ser fervido em leo quente. Mas, desta vez,
apenas Ashlen foi pego: os demais tinham as ment
es, de sbito, fortalecidas pelo conhecimento
(e Rufus estava simplesmente protegido por magia).
Artorius atacou. Levantou seu machado enorme, ainda sujo com o sangue de seu amigo
Ashlen, e investiu com dio in nito contra a bruxa. A lmina acertou no ombro da mulher,
quebrou-lhe a clavcula e se enterrou fundo, dividindo um seio em dois. O rosto inexistente
continuava impassvel.
Por que meus amigos no so bons? Por que minha casa est longe e atrs?
Artorius golpeou de novo, e de novo, retalhando Andaluzia, mas, para a frustrao
do minotauro, ela apenas continuava falando
incoerncias. Os outr
os estavam incertos,
circundando a bruxa como lobos, quando Rufu
s, o olhar livre do vermelho, viu algo,
jogado em um canto.
L  N T  M N  P  
Ele manteve seu estudo em segredo e, de alguma forma, ningum notou o que ele fazia,
todos os dias, encolhido, en
ando a cara no tomo enorme. Era maravilhoso. Rufus, no incio,
tivera medo. Aquilo o fazia especial, nico, es
colhido. Por isso, tambm, ele tinha medo,
misturado com orgulho brilhante e desmedido,
que ameaava estourar-lhe o peito. Ele era
o escolhido do albino. No teatro da sua mente, Rufus confrontava o fugitivo, sozinho, numa
luta privada de inimigos mortais. A cabea do
mago estava povoada de imaginaes insossas,
histrias fracas das quais ele era o protagonista.
Mas o tomo era maravilhoso, e realmente especial. Rufus abrira-o em busca de uma
salvao. Passara quatro meses na primeira pgina, mas, ao decifr-la, fora capaz de entender
que ali havia uma salvao.
Era um livro de magias, um grimrio. Mas, di
ferente dos que ele havia possudo, dos quais
poucos haviam sido poderosos de verdade, aq
uele era um livro de
enormes conhecimentos
e poderes. A primeira pgina continha a exata magia da qual ele necessitava.
Libertao
total
O I  M
Ouviu-se um grito de batalha, e em um instante Ellisa
orn estava de p, e disparou trs
echas antes que algum pudesse abrir a boca. As trs hastes de madeira se cravaram fundo
no peito da bruxa sem rosto.
No, no
disse Andaluzia, tateando as
L  N T  M N  P  
Nunca vai acontecer disse Ellisa, com voz embargada. Por que no morrer aqui,
agora mesmo?
No fale assim disse Nichaela.
Com uma praga, Ellisa mandou que a clriga se calasse.
tudo mentira disse Ellisa
orn. mentira que a vida vale mais. mentira
que vamos sair. Melhor morrer de uma vez e, de novo, chorou. Vallen, em fria, batia-se
contra a jaula.
O I  M
Entregou a Rufus um livro, um tomo volumoso e escuro, de muitas pginas e uma
estranha capa de madeira. O mago no contou para ningum.
Vallen, como era a vida antes da perseguio? perguntou Ellisa
orn, no meio do
segundo ms. Seu cabelo estava imundo, e se grudava no crnio, caindo depois em longos
os
engordurados. Sua magreza revelava os contorno
s da garganta e os ossos dos ombros. Olhava
para a distante jaula de Vallen, com vontade e tristeza.
O guerreiro fez um sorriso triste. Sentia um
dente se afrouxar, apodrecendo na boca h
muito no lavada.
Tudo era bom ele disse. Ns ramos, heris, no lembra?, e todos gostavam
Tempo, silncio.
L  N T  M N  P  
Ashlen, ainda gritando, sem entender o que fazia, agarrou o machado de novo. Ergueu-o
com ambas as mos, e fez a lmina descer de novo. Errou. O segundo corte foi acima do
primeiro, e esmigalhou mais os
so e rasgou mais carne, mas ainda assim no decepou o p.
Continue! Vamos, no desmaie!
E, sempre berrando em choque, Ashlen golpeou a prpria perna, de novo e de novo,
sentindo o sangue respingar-lhe na cara. At qu
e sentiu o machado morder, rasgar e romper,
O I  M
L  N T  M N  P  
poderia desejar seguidores mais leais do que
os dois clrigos e o paladino. Mas mesmo
assim, um ms de priso surreal abalava os espritos. Os trs sentiam a mesma coisa:
no ressentimento de seus patronos, ou d
vida de que eles estivessem l apenas uma
fraqueza enorme, que impossibilitava que suas
almas alcanassem os pncaros necessrios
para que eles fossem ouvidos nos cus.
Nichaela mantinha a f em Lena, e tambm sua f nova e fantica:
Os deuses esto do nosso lado... Querem que o encontremos... No vamos morrer
aqui, no antes de encontrar o albino... er
a a sua cantilena diria
e constante, que ela
recitava para assegurar os outros, e tambm para tentar se convencer.
Artorius tinha outra cantilena:
No real...
No real...
Ele tinha certeza de que aquilo era uma iluso. Tudo aquilo, as jaulas, as correntes, o
vermelho, a bruxa sem rosto. Mas sua mente n
o podia ser convencida: ele sentia o frio do
O I  M
HAVIA O CATIVEIRO.
O cativeiro era seu mundo, tudo o que conheciam. Havia as jaulas, havia as correntes,
havia os companheiros presos, havia a escurido vermelha, e mais nada. Aos poucos, eles se
esqueciam de como era l fora. O cativeiro era tudo.
Tinham um ao outro, tinham suas coisas, e assim
zeram l o seu mundo. Perderam
a conta dos dias; todos menos Artorius. Em sua mente militar e disciplinada, o minotauro
mantinha uma conta perfeita do tempo em que passavam nas jaulas.
Dois dias.
Cinco semanas.
Trs meses e um dia.
Informava sempre aos colegas. Os outros se apegavam sua voz grossa e clara para
se agarrar sanidade. Artorius mantinha
a sua prpria atravs de rotinas pequenas e
repetitivas que inventara para preencher a cabea. O medo e a loucura ocupavam com
facilidade uma mente vazia.
Vamos contar os elos das correntes ordenava com gentileza aos amigos.
Recitem todas as suas linhagens, os nomes de seus pais e avs, at onde se lembrem.
Vou ensinar-lhes a lngua de Tapista.
E assim salvou-os. Contudo, salvara-lhes apenas as mentes; os corpos continuavam
presos. No que no tentasse: Artorius, assim como todos os guerreiros do grupo, forara
seus msculos at ouvi-los se rompendo, na esperana de dobrar as grossas barras de ferro.
Mesmo abenoado pela fora de Tauron, Artori
A V A   V  A
Vallen fez mais do que apenas transformar-lhe, de atrao circense, em aventureiro
ousado. Arrancou-lhe do achbuld. Deixou Rufu
s trancado na cabana, sozinho, por dias a
o,
at que passasse o desejo incontido pelos sonhos alucingenos.
S um pouco! berrava Rufus, de dentro da cabana.
O I  M
Est tudo bem.
Ele se cobriu, sentindo o
sono arder-lhe os olhos.
E no tem medo de magos?
Como eu disse Nastara sorriu. J vi coisa bem pior.
Voc muito especial disse Rufus, num rompante de coragem.
Boa noite.
verdade.
Muito
Boa noite.
Boa noite.
Manh. Rufus. Nastara.
Vallen.
Tenho uma proposta a lhe fazer, senhor Rufus Domat.
Rufus tinha uma ponta de medo, apesar de Na
stara ter lhe tranquilizado. E se Vallen
descobrisse o que acontecera?
E ento, quer ouvir?
Pego de seus pensamentos, Rufus assentiu, rapidamente.
J pensou em fazer parte de um grupo de aventureiros?
Eles estavam precisando de um mago. Ele, Ell
isa, Gregor e Nichaela. Precisavam de um
mago. E, de todos os lugares, logo em Portsmouth, numa viagem de lazer, de visita antiga
casa, Vallen encontrara seu mago. Ouvira os boatos sobre o que Rufus
zera: ele parecia um
homem decidido, habilidoso e de
pensamento rpido. Alm diss
o, Nastara gostava dele. Fez
o que pde para convencer Rufus Domat Vall
en era um homem energtico e carismtico.
Seu entusiasmo contagiava, motivava. Fazia dele um lder.
No tenho certeza...
Vamos, seremos heris!
Vallen esforava-se, tinha um bom pressentim
ento sobre aquele mago. Porque Vallen,
apesar de ser um timo lder e um guerreiro s
em par, no era um bom juiz de carter, nem
tinha uma intuio muito apurada.
E sim, Rufus j pensara em ser um aventureiro. J pensara em tesouros e inimigos e
vitrias arcanas. A nal, ele era bom, n
o ? Ele matara inimigos, ainda ontem, no?
Eu aceito.
E assim Rufus Domat foi arrancado da vida de palhao arcano por Vallen Allond, e
A V A   V  A
cou mais vermelho, mas agora no de esforo.
Bem gaguejou. Porque voc tinha dito que era... deixou a frase no ar.
Prostituta. Vamos, pode falar.
Desculpe.
No, vamos! Fale.
Porque voc disse que era, que tinha sido, prostituta.
timo. Eu gosto que as pessoas se acostu
mem com isso, falem bem alto. Ajuda elas a
aceitarem quem eu sou.
Mas no tem achbuld?
No. No tenho.
Silncio.
E o pai de Vallen?
Espero que volte um dia disse Nastara, espreguiando-se.
Oh...
Ele me deve dinheiro.
Ele olhou-a.
Nunca mais vi o desgraado, saiu de ninho e
cou me devendo. Pelo jeito, devia ser
mercenrio ou bandido de estrada.
Vallen sabe?
claro. Eu no gosto de esconder as coisas. Foi por isso, basicamente, que me
expulsaram de Fillene.
Rufus se apoiou num cotovelo, sinalizando para que ela continuasse.
Eu falava para as mulheres quando seus
maridos e lhos vinham me procurar. No
que fosse segredo, entende? S que ningum
mencionava
Entendo disse Rufus.
Se o lho est doente, mande no curandeiro. Se precisa virar homem, mande na
prostituta. simples. Deveria ser.
Silncio.
Por que fez isso comigo? disse Rufus, desviando o olhar.
O I  M
Os homens voltaram a recolher os colegas inertes.
Esperem interrompeu de novo Nastara. O que Vallen mandou era exagero, mas
um pedido de desculpas seria bom.
Como ovelhas, os soldados se desculparam. Depois recolheram os cados e saram,
massageando os orgulhos feri
dos. Levaram a turba consigo.
quem longe!
Mais tarde, na taverna, eles contariam brav
atas e jurariam vingana, todos ngindo
acreditar que seriam capazes.
E como o seu nome, homem que conquistou a simpatia de minha me? sorriu
Vallen para o mago que no conhecia.
Rufus. Rufus Domat.
Muito prazer, senhor Rufus apertou-lhe a mo com vigor. E no precisa
agradecer, eu bato em vermes como aqueles nos meus dias de folga de lutar
de verdade
Ele aventureiro disse de novo Nastara, brilhando de orgulho.
um timo guerreiro disse Rufus, sem saber ao certo o que falar.
Que nada Vallen escorou a mesa numa das paredes e sentou-se na nica cadeira
livre. Existem alguns melhores, como aquele
tal de Arsenal. Mas ele est na minha lista
o jovem riu de novo, com sua risada boa, clara, sincera. Me, poderia fazer mais ch?
No v derramar de novo brincou a mulher.
E Rufus olhou, apalermado, en
quanto aqueles dois, me e
lho, faziam brincadeiras e
conversavam sem preocupao, aps terem enfrentado uma patrulha e uma multido em fria.
Lembrou-se que, antes, havia matado pela primei
ra vez. Ele era bom, tambm, no era? No era?
Vallen tomou o ch e se levantou.
Trate de respeit-la, hein? falou sorrindo
para Rufus, dando-lhe um soco brincalho
no ombro. Beijou Nastara e abriu a porta.
Ellisa est me esperando. Volto amanh.
Cuide-se.
Foi embora.
S ns dois agora, senhor Rufus
disse Nastara, sorrindo-lhe com afeio.
Acabaram se deitando juntos. Depois, o manto com estrelas e luas no cho, eles sob um
cobertor velho, na palha.
Voc tem achbuld? perguntou Rufus, ainda vermelho.
Ela riu.
No. Voc bem direto, no ? Por que achou que eu poderia ter, ou mesmo que
saberia o que ?
A V A   V  A
Eles baixaram as cabeas. Sabiam que era verdade.
Fora daqui Vallen se virou de costas. Me, pode me servir um ch?
O terceiro guarda, o que ainda no havia falado, atacou. Ergueu a espada de sbito e,
segurando-a com ambas as mos, investiu contra o jovem. Surpresos, os outros dois soldados
reagiram atacando tambm.
Somos soldados, maldio!
Vallen se abaixou, fazendo a espada que vinha
para sua cabea passar longe, alto. Agarrou
o brao do atacante e arremessou-o por sobre o corpo, fazendo-o se estatelar no cho. Voltou-
se a tempo para reagir aos outros dois soldados, que vinham com estocadas. Girando o corpo,
catou a chaleira que fumegava sobre o fogareiro e
jogou-a, encharcando de ch fervente os dois
rostos. Os homens gritaram.
Venham os quatro juntos! No vou usar armas, para que tenham chance!
O sargento aproveitou o ataque para se erguer. Pegou a espada de um dos soldados e
tentou um corte. Vallen aparou a lmina com a espada que tinha na mo e, com a fora do
impulso, levou a lmina do sargento at prxim
o ao seu rosto, fazendo o homem se desviar
do prprio golpe. Largou a espada no cho e de
sferiu um soco potente no queixo do sargento
Wilkam. Este cambaleou e desfaleceu.
Os guardas com os rostos queimados seguravam as faces, incertos. J o primeiro atacante
estava refeito e, com um urro, investiu de novo pelas costas de Vallen. Foi recebido com uma
cotovelada pontuda no estmago. Dobrou-se, Vallen se virou, e levantou o p num chute
extremo no meio das pernas do homem. Com um choramingo, o soldado tombou. Tentou se
agarrar na mesa, mas acabou desabando, quebrando uma perna do mvel.
Mais algum? rosnou Vallen.
Os dois soldados mal tinham coragem de olhar para ele.
Deem-me algumas moedas para pagar pela mesa que seu amante aqui quebrou
mandou Vallen.
O homem depositou alguns Tibares na mo estendida.
Mais disse Vallen.
nosso soldo gemeu um dos homens. No ganhamos muito.
E por que acha que isso problema meu? Vocs que durmam com as vacas e comam
grama com bosta. Deveriam ter pensado nisso antes de nos importunar.
Obedientes, os dois homens esvaziaram suas al
gibeiras, a do sargento e a do outro colega
cado. Comearam a recolh-los, para ir embora.
No mesmo. Antes, peam desculpas e beijem minha bota.
Os guardas pararam, estarrecidos. Um deles sentiu o lbio tremer e os olhos se encherem
dgua, mas lutou para engolir o choro.
Vallen, j chega disse Nastara, com suavidade.
Est bem Vallen, contrariado.
O I  M
Os trs soldados amontoavam-se na pequena
cabana, as espadas em punho, tremendo.
Vallen, por favor, s um mago desconhecido gaguejou um dos soldados.
Flescher Florzinha! o rosto de Vallen se
abriu em um sorriso largo, franco como
o da me. Lembra-se de quando ganhou esse apelido? Quando o
z des lar pela aldeia
vestido de menina, com as margaridas nos cabelos?
Vallen, um
Bons tempos, eh?
Ningum respondeu.
E lembra-se como o Willy recebeu o apelido? continuou Vallen, sempre sorrisos.
Tinha na mo a espada do sargento, mas ignorava a sua prpria. Eu o proibi de usar a
latrina, at segunda ordem. E o maricas obed
eceu! Vallen deu uma gargalhada gostosa.
E acabou no se controlando na frente do clrigo Brian, lembra-se?
Vallen, ele sargento
agora ganiu o soldado.
Todos vocs, meninos mais velhos, eram uns malditos covardes o sorriso de Vallen
agora era um pouco mais feroz, e sugeria algo mais srio. Muito valentes para falar da me
dos outros, mas se molhavam de medo de mim, no ?
Vallen tentou o soldado, mais uma vez.
Acha bonito xingar a minha me, Flesch
er Florzinha? Vallen abria muito a boca,
lanando perdigotos na cara do soldado.
Vallen...
Perguntei se acha bonito.
No a voz do soldado Flescher sumiu.
Vallen girou a espada na mo, com habilidade.
Eu j disse que ningum vai contrariar a minha me por aqui, no disse? no
havia mais riso na voz de Vallen. Quando ela disser
defequem
, vocs perguntam:
em que
formato, senhorita Nastara?
Silncio. Respeito. Medo.
Vallen, a capital pode saber disso gemeu outro soldado. O regente. Voc no
pode com a guarda da capital.
Quem voc, mesmo? Vallen se voltou para o novo interlocutor. No me lembro
do seu nome, s me lembro de lhe ter partido
a cara quando ramos
crianas depois, um
olhar mais cuidadoso. No,
era criana,
voc
j era quase homem feito.
A V A   V  A
O jovem mediu Rufus brevemente, depois se voltou para o sargento.
Ento eu repito:
que porcaria est acontecendo?
Ningum queria falar. Por m, o sargento
se rendeu aos inmeros olhares que lhe
impeliam a tomar a iniciativa.
Sua me est abrigando um mago.
E qual o problema nisso? disparou o jovem, o queixo para cima em atitude
de desafio.
, por todos os deuses!
Willy, no seja bobo riu o jovem.
Agora eu sou sargento, no me chame assim pediu Wilkam, com humildade.
J no decidimos que a minha me pode fazer
o que bem lhe aprouver
nesta droga de
vila, Willy Borra-Botas?
Eu sou sargento agora voltou a gemer
o homem. E no pode ser assim. Ela no
pode abrigar um mago, Vallen.
Bem, vamos decidir isso, ento riu o jo
vem, erguendo os punhos. Em seguida,
olhou para Rufus: Muito prazer. Meu nome
Vallen Allond, e eu vou bater nestas pessoas
para livrar a sua cara.
Rufus notou que o rapaz parecia muito satisfeito.
J o sargento, nem tanto.
Eu sou sargento agora pela terceira vez.
Ora, Willy Borra-Botas, passei a minha infncia batendo em voc e nos outros garotos
mais velhos. Somos velhos amigos, no me
venha com essa histria de sargento.
O homem tinha a espada em punho, pronta.
Vou atacar voc a srio, se for preciso, Vallen.
O jovem Vallen Allond riu de novo, ainda sem arma nenhuma nas mos.
Eu vou arrancar essa espada da sua mo, W
illy. E, com minha outra mo, vou quebrar-
lhe um dedo, para que aprenda a no ser malcriado. E vou lhe dar um chute no estmago que
vai fazer voc cair.
O sargento Wilkam atacou.
Eu avisei.
Com efeito, Vallen se esquivou habilmente do golpe da espada. Segurou o pulso do
homem com uma mo, tomando-lhe a arma com a ou
tra. Deslizou a mo que estava no pulso
para os dedos de Wilkam, quebrando o indicador em um s movimento. Em seguida, virou-se
e acertou a sola da bota na boca do est
mago do oponente. O sargento caiu.
Eu avisei.
O I  M
Mas ele um mago.
Houve um grito vindo de trs:
Deem um tapa na vadia e peguem o mago!
Quem disse isso? a mulher, de nome Nastara, adquiriu um tom de voz grave. No
houve resposta.
Senhora, por favor.
Senhorita corrigiu Nastara.
Senhorita, por favor. Ele um mago. Um
meu convidado. Est tomando ch.
O aldeo resmungou mais um pouco, depois se
voltou para o resto da multido, balanando
a cabea e dando de ombros. Os homens coara
m os cabelos e as barbas, confusos, sem ousar
entrar fora. Por m, atrasados pelas cotas de malha que lhes pesavam nas costas, chegaram
os guardas. Empurraram os aldees para fora do caminho e abriram espao para seu sargento,
ainda de espada em punho, conf
rontar a senhorita Nastara.
Senhorita, no se interponha no nosso caminho.
Ele meu convidado.
Senhorita, no seja absurda!
O senhor no seja
rude
, sargento Wilkam, com a mulh
er que lhe fez homem! houve
um comeo de risada na multido, rapidamente debelada por um olhar severo.
Senhorita.
Acho que hora do senhor sair daqui Nastara olhava para cima, para o rosto mal-
barbeado do sargento Wilkam, e batia o p esquerdo.
Ora, chega desta bobagem disse o sa
rgento, empurrando Nastara e entrando
na cabana.
A V A   V  A
No logo: Sim.
Rufus, com a mo que no segurava a caneca, tentou fazer um gesto ameaador. A mulher
sorriu com a boca larga, recostando-se na cadeira.
Calma. Eu no me importo.
Rufus bebeu mais um gole descon
ado.
No de Portsmouth?
Sou. Mas no por isso que preciso gostar de Portsmouth.
L fora, ao longe:
Linchamento!
Pelos deuses, a resposta desses aldees para tudo.
Rufus no entendeu, e ela explicou:
Foi o que disseram para mim tambm.
O I  M
Deixe-me entrar Rufus foi empurrando a dona da cabana. Ou te mato.
A V A   V  A
O primeiro dos aldees, de enxada em punh
o, avanou para Rufus Domat. Com uma
terceira conjurao, uma srie de projteis de energia esverdeada atingiu o peito do homem,
que caiu pesado para frente.
Rufus correu para fora do estbulo, com uma velocidade mgica que era estranha em seu
corpo dbil. sua frente, a turba.
Linchamento!
Uma nova bola de fogo deixou as mos do mago, e veio a explodir no meio da multido.
Corpos foram arremessados para todo lado, muitos saram em correria apavorada, e fez-se
uma algazarra de gritos, entre a agonia, o medo e o dio.
Idiota! Rufus ouviu a voz do Senhor Zoldini.
Por favor era Brugarr, o Homem Mais Forte de Arton. Pare de mat-los.
Entregue-se! disse a Mulher Volumosa.
Mas Rufus apenas correu. Aproveitou a brecha de morte e queimaduras que sua bola de
fogo havia causado na multido e correu, com sua velocidade arcana, pelo meio da turba. J
refeitos, os soldados perseguiam-no, mas nenhum era preo para a sua rapidez.
Alguns aldees conseguiam chegar perto. Ru
fus disparou uma nova
saraivada de msseis
verdes, e alguns deles tombaram. Eles caam como
moscas, frente energia arcana. Aquilo era
fcil, e fazia Rufus se sentir bem.
S falta um pouco de achbuld
, pensou o mago.
E correu.
Rufus precisava de esconderijo, de achbuld, e de uma mulher. Trs coisas difceis de
serem conseguidas.
Ele nunca havia matado antes. Naquele dia, j matara pelo menos um punhado de pessoas
aldees vtimas de sua bola de fogo equivo
cada, e mais aldees, que perseguiam-no por
justia. No entanto, ele no pensava naquilo. Pensava s no que precisava, que era esconderijo,
achbuld e amor. Bem, no
mas algo assemelhado.
Encontrou dois, dos trs, numa cabana isolada, logo fora da vila de Fillene.
O I  M
Zoldini. Ele precisava apenas pensar em uma estratgia para vender o nmero de Rufus em
Wynlla, o Reino da Magia, onde a popula
o no seria to facilmente enganada.
Mas isso depois, porque agora os soldados es
tavam ali, prontos a cortar algumas cabeas.
Porque o misterioso e poderoso Arcano Sem Nome havia, aparentemente, queimado alguns
aldees at a morte. O Senhor Zoldini s pensava no prejuzo.
s um mal entendido Joseph levantou-se, erguendo as mos em um gesto
pac co.
Um dos soldados bateu nele com o cabo da espada, fazendo o superclio explodir em
sangue. Faella deu um grito estridente, que fez o
Menino-Polvo gritar ainda mais, e o sargento
gritar acima de todos:
Calados! a lmina pronta para cortar qualquer um. H um mago aqui, ou
no h?
claro que no o Senhor Zoldini levantava-se, tentando seu sorriso de persuaso,
enquanto lutava para fechar as calas. Nunca,
, empregaramos um maldito mago.
claro que no.
Rufus esttico.
ele exclamou uma voz por trs da porta. Logo, apareceu uma das mes da
arquibancada, as roupas chamuscadas e o rost
o inchado de tanto chorar. Ele por pouco
no mata a minha lha.
Do lado da mulher, um aldeo com rosto host
il. Simples mas forte, portando uma enxada
que parecia pronta a rachar o crnio de algum. E, mais atrs, outros aldees. Com enxadas,
foices, pedaos de pau. Sedentos.
Ele matou crianas.
Um assassino!
Linchamento!
elevavam-se as vozes, em um crescendo de raiva e jbilo.
A ponta da espada do sargento estava na cara de Rufus Domat.
voc? cuspiu o homem.
Rufus no disse nada.
Venha conosco.
Ainda no disse nada.
Eu falei, venha conosco!
E ento, Rufus falou. Falou algumas palavras arcanas, e um arco-ris brilhante deixou
seus dedos, com fascas, cores e luzes atordoantes que
zeram o sargento largar a espada,
levando as mos ao rosto e cambaleando para trs. Os soldados tambm pareciam estonteados
pelo jato de luz colorida, e foram incapazes de
reagir. O Menino-Polvo elevava os pulmes a
novos pncaros. Rufus fez outra magia.
mesmo um mago!
gritava a multido.
mesmo um mago!
A V A   V  A
Calma, Samuel disse o Homem Mais Forte de Arton.
S um pouquinho, s uma folha balbuciou Rufus.
Diabos! gritou o Senhor Zoldini. Dandarra, largue este pirralho e venha aqui.
Obediente, a Dama Selvagem entregou Welleck para a Mulher Volumosa, e seguiu o
Senhor Zoldini para um canto onde a palha fedia menos a esterco.
Pronto, pronto murmurou Faella para o beb em prantos. Ningum vai te
Rufus olhou de esguelha e viu um grande naco de carne branca, quando Dandarra
levantou as saias para que o Senhor Zoldini se acomodasse sobre ela. Em seguida, virou os
olhos, mas ouviu o ofegar ritmado e sfrego do mestre do picadeiro.
O I  M
bem pior (batendo em aldees desavisados para
tomar-lhes os parcos Tibares), mas agora
Joseph s queria envelhecer em paz.
Os outros no eram melhores. Faella, a
Mulher Volumosa, nem era to gorda assim,
apenas vestia roupas apertadas e com estampas que davam a iluso de uma rotundez bem
maior truques do Senhor Zoldini. Vivia tr
iste, chorando toda noite de vergonha do
prprio corpo, e consolava-se em cuidar de Welleck, o Menino-Polvo. O beb era a nica
A V A   V  A
Que prejuzo, que prejuzo choramingava o Senhor Zoldini, enquanto seu Grande
O I  M
Faa o raio de gelo chiou o mestre do picadeiro.
Rufus olhou-o. Conseguiu reconhec-lo e, depois de um tempo, entendeu o que ele
havia dito.
Mas eu s decorei uma vez balbuciou o mago. Se conjurasse aquela magia, ela
iria desaparecer da sua memria, o que era uma sensao horrvel. Que medo! Rufus teve
vontade de chorar.
O Senhor Zoldini, o mestre do picadeiro,
no disse nada. Apenas empurrou Rufus na
direo da plateia, fazendo com que ele oscilasse perigosamente, mais uma vez. O Homem
Mais Forte de Arton seguiu logo atrs, estabilizando o corpo do Arcano Sem Nome.
Truques de araque! provocou a voz bbada. Seu dono levantou-se, fazendo um
gesto obsceno. No tem nome porque a
cadela da sua me se envergonhou de voc.
Rufus reconheceu aquilo como um insulto.
No mexa com o Arcano Sem Nome, senhor! tentou o mestre do picadeiro.
Aquele que at mesmo Leen tem medo de vir buscar!
Rufus olhou em volta, de novo sem reconhec
er onde estava. Comeou a se deitar, para
dormir. Estava com sono.
O raio de gelo! o Senhor Zoldini no tentava mais sussurrar.
verdade, lembrou-se Rufus. Era melhor
fazer aquilo logo, e depois poderia dormir.
Antes, tomar mais um pouco de vinho com achb
uld, e depois dormir. Firmou os ps no cho
balouante, amparado pelo Homem Mais Forte de Arton. Moveu as mos, falou palavras
arcanas. Foi fazer a magia, mas viu que aquela iria provocar uma sensao ruim. No era
melhor fazer outra?
Uma enorme bola de fogo desprendeu-se das mos trmulas de Rufus Domat, vindo a
explodir na arquibancada. O fogo rugiu como mil feras, e a exploso ensurdecedora jogou para
trs o Arcano Sem Nome, o Homem Mais Forte de Arton e o mestre do picadeiro. Ao mesmo
tempo, berros das mes e crianas, e do mendigo que acordou para ser imolado, e do bbado.
O ar encheu-se do fedor de carne queimada, e
a gordura humana estalou e ferveu. As pessoas
correram para todos os lados. O que sobrava da arquibancada ardia, e as fascas subiam pelo
ar da noite que comeava, vindo pousar em muitos lugares. Acendeu-se o pano vermelho, e
Faella, a Mulher Volumosa, saiu correndo, carregando Welleck, o Menino-Polvo. As fascas
incendiaram o telhado de sap de uma casa prxima, e
zeram arder um monte de feno, e em
breve muita gente corria e berrava. Fogo por toda parte.
Rufus sabia que deveria correr. Via uma agitao ao seu redor, mas o som dos berros
parecia-lhe muito distante, as pessoas muit
o borradas, movendo-se rpido demais. Muita
agitao. Ele no gostava.
Deixe-o a! gritou o Senhor Zoldini. Ele bem que merece queimar neste pardieiro.
Mas Brugarr, o Homem Mais Forte de Arton, se apiedou do Arcano Sem Nome e, com
grande di
culdade, ergueu-o, carregando-o para longe.
A V A   V  A
No pressionem o Arcano Sem Nome! o me
stre do picadeiro voltou ao palco,
falando em sua voz alta e estridente. No,
senhoras e senhores, este homem no gosta
de ser apressado. Ele no tolera que lhe diga
m o que fazer, e foi por isso que foi expulso da
Academia Arcana, logo aps ter vencido Talude em um duelo mgico!
volta de Rufus, o mundo era muito estranho, vago, fora de foco.
Faa seu nmero, ou lhe entrego guarda chiou o Senhor Zoldini para Rufus,
enquanto sorria, cheio de dentes, para a plateia.
Rufus piscou e despertou.
Moveu as mos, fez uma cara que julgava ser
sinistra, e luzes coloridas danaram sua
frente. As crianas inspiraram de surpresa, to
das ao mesmo tempo. Rufus seguiu fazendo poses
supostamente ameaadoras, enquanto as luzes
verdes, vermelhas, amarelas, azuis, pulavam e
moviam-se ao seu redor. Por vezes esquecia-s
e de onde estava. Desequilibrou-se e caiu.
Ergueu-se com di
culdade, atrapalhado pelos pesados robes de muitas camadas
sobrepostas. As vestes eram grandes demais para ele, e a costura que Darrana, a Dama
Selvagem, tinha feito na barra dos mantos se desfez, deixando o tecido velho pender como
uma saia, arrastando-se no cho. Uma das estrel
as segurava-se, descosturada, por uma ponta.
Uma das meias luas bordadas desfazia-se, o
o pendendo frouxo.
Rufus fez uma nova magia, gerando uma pequena imagem de uma serpente alada, que
voejou por alguns momentos at desvanecer-se. Uma menina deu um gritinho, e escondeu o
rosto no vestido da me. Ao fazer a magia, Rufus ergueu os braos, e pde-se ver o grande
rasgo no tecido que cobria sua axila esquerda.
Caiu no cho de novo. Desta vez, deitou-se na terra. Como era bom dormir.
As luzes danantes se apagaram.
Sim, este homem no tem medo de dorm
ir a cu aberto, mesmo sabendo que os
deuses e os maiores magos de Arton esto em seu encalo! interveio o mestre do picadeiro.
Fez um gesto para dentro do pano vermelho. Brugarr, o Homem Mais Forte de Arton, surgiu
para ajudar Rufus a se pr de p.
Um ousado, senhoras e senhores.
Rufus resmungou, querendo que o deixassem dormir. Viu a plateia e teve uma vaga
lembrana do que deveria fazer.
Fora! gritou a voz bbada.
Apresente-se direito ou entrego voc o Senhor Zoldini mal conseguia manter o
sorriso para o pblico. J esqueceu de onde estamos?
Estavam na vila de Fillene, que era um ajun
tamento minsculo de aldees ignorantes,
mas havia mais. Estavam em Portsmouth, um rein
o hostil a magos. Se Rufus fosse exposto
como um mago de verdade aqui, seria preso e depois quem sabe o que aconteceria? Mas,
no estado em que se encontrava, Rufus achava
O I  M
O pblico, em sua maior parte, estava apti
co. Meia dzia de crianas ranhentas, contudo,
tinham os olhinhos muito abertos, arrebatadas
como estavam pelo homem de casaca vermelha,
que falava muito alto.
Qual esta misso? seguia o mestre do pica
deiro, j sentido a voz lhe doer. Ningum
sabe! Ele j matou dois esperti
nhos que foram curiosos demais! as crianas impressionadas
abriram as bocas, em espanto mudo. Ele um
mistrio, senhoras e senhores, e eu lhes
aconselho que no cheguem muito perto deste homem.
No havia mais de quinze pessoas nas arquibancadas frouxas de madeira. Na maioria,
mes esfarrapadas, que levavam seus lhos para
um divertimento que no teria igual no ano
todo. Mulheres que sabiam estar sacri
cando Tibares preciosos pela felicidade das crianas,
deixando de trabalhar num m de tarde quente de vero. Um mendigo dormia, esticado nas
tbuas de uma arquibancada, alheio gritaria
do mestre do picadeiro, o dono do Grande
A V A   V  A
OR QUE RUFUS NO CONTOU NADA?
Ele mesmo no sabia. Dissera a si mesmo que er
a impossvel que nenhum dos outros tivesse
visto. Os olhos de Rufus eram velhos e gastos, e havia no grupo olhos de guia como os de Ashlen,
e olhos de arqueira como os de Ellisa, e olhos vigilantes como os de todos. Rufus disse a si mesmo
que os outros no precisavam contar com ele. Rufus era muito bom em mentir para si mesmo.
Porque apenas ele vira, apenas ele sabia, era algo s dele, a presena do albino. Talvez
por isso no houvesse dito nada. Sem o achbuld,
e sem a magia, s aquilo era s dele. Uma
coisa importante. E ele imaginou mil vezes qu
e salvaria o grupo com aquela informao, com
um feitio na hora certa, com alguma vantagem
inesperada que aquele
conhecimento iria lhe
conceder. Caso lhe perguntassem depois,
por que no tinha dito nada?
, ele responderia:
Vocs
no perguntaram
. Todos ririam. Era assim na mente de Rufus Domat, at a hora em que seus
sonhos despertos se apagavam e ele se lembrav
a da fome e da dor, e da
sua prpria imundcie
cobrindo a maior parte do cho da gaiola suspen
sa, e ouvia os lamentos dos companheiros, e
sentia o fedor do p de Ashlen apodrecendo. Mas, logo em seguida, enveredava-se por outro
cenrio, em que todos aqueles sofrimentos eram
resolvidos por ele. Pelo menos em um, Ellisa
orn recompensava-lhe com o corpo e o amor.
Rufus Domat procurava ignorar que traa os amigos na realidade, e traa Vallen Allond na
cabea, deitando-se com sua mulh
er. No sabia qual crime era pior. Rufus vivia num mundo que
ele mesmo criava, e sempre tentava esquecer
a vida antes de Vallen Allond, e o que ele
zera.
Um dos maiores magos de Arton! exclamou o mestre do picadeiro, o rosto reluzente
de suor fresco. Banido da Academia Arcana por desobedecer as ordens do poderoso Talude,
senhoras e senhores, ele vaga pelo
mundo em uma misso misteriosa.
O I  M
Amigos novos
a voz da mulher sorria
Sempre foram amigos, ou no so?
Apenas a voz sorria, porque a mulher no tin
ha boca, nem olhos ou orelhas. Caa-lhe
um cabelo de cor indecifrvel por todos os lado
s, e mal podia-se dizer para onde sua cabea se
voltava. Vestia trapos. No tinha rosto.
Ningum gosta do  nal das visitas
Ellisa estrebuchava
Ou do comeo.
Apenas Rufus viu, atrs da mulher, muito atrs, nas sombras vermelhas, muitos dentes
se mostrando, se alargando em sorriso, e depois
olhos, um nariz grande e quebrado. Apenas
Rufus viu um rosto emergindo da escurido vermelha, olhando-lhe nos olhos, com olhos
vermelhos. Cabelos brancos.
Pele albina.
Pelo menos estavam todos juntos. Viam-se un
s aos outros. Pendiam, cada um isolado,
de gaiolas de ferro, presas a um teto invisvel. No viam tambm o cho. Ambos estavam
perdidos numa massa de vermelho to denso quanto o negro de um cu de Tenebra. Ali a
escurido era vermelha. As gaiolas balanavam,
rangiam. Fora isso, apenas o som de Ashlen,
tentando controlar o volume do choro que agitava seu corpo.
Pelo menos estavam todos vivos.
Ellisa no estava ferida ningum se lembrava dela ter sido curada, mas no tinha um
arranho. J o ferimento de Ashlen era muito real, seu p j era uma protuberncia enegrecida
que fedia em profuso.
Presos, mais uma vez.
E este foi s o comeo dos tempos ruins, porque presos eles
caram ainda por quatro
meses. Na torre impossvel de Andaluzia, a bruxa sem rosto.
A B   R 
Um berro do jovem preencheu o salo novo e cruel. Ashlen Ironsmith pendia do teto
por uma corrente. Seu p esquerdo havia sido trespassado por um gancho polido, que agora
reluzia de sangue grosso.
Um porquinho no aougue
disse uma voz inde nvel.
Antes que Vallen pudesse dar uma ordem, Artorius j tentava soltar Ashlen. No
mais de dez batidas do corao de cada um haviam transcorrido desde que emergiram
do pesadelo de dor.
O peso do corpo de Ashlen fazia a carne de seu p se rasgar. Ele gritava e, uma batida de
corao depois, seu grito virou uma serpente de dor, e todos tombaram de joelhos.
Quanto mais amigos, melhor
disse a voz.
Tump
tump
O I  M
Desceram at o primeiro salo. Vallen em
purrou a porta em frangalhos que pendia da
nica dobradia ainda resistente.
Vamos embora daqui disse o lder do gr
upo. Vamos embora dessa ilha, e vamos
tentar achar respostas dos deuses no fundo de um caneco. O que me dizem?
Atravessou a porta.
Tudo
cou negro.
No houve um instante de surpresa, porque a dor ocupou-o. Todos sentiram lminas
A B   R 
Bela masmorra disse Ashlen, chutando uma pedra.
Embora aquilo no fosse, na verdade, uma masmorra, era como qualquer grupo de
aventureiros iria cham-la. Era parte do jargo. Qualquer construo fechada, qualquer
ambiente isolado, no qual se esperava problemas armados, era apelidado de masmorra.
Caverna, templo abandonado, forte
inimigo, torre de bruxa: masmorras.
Checaram tudo mais uma vez. Ashlen revirou cada canto at que seus olhos ardessem.
No havia nada.
Vamos embora daqui disse Vallen, desanimado.
Misturavam-se sentimentos. Eles estavam aliv
iados, por no terem achado problemas.
Frustrados, porque muitos j sentiam de novo a sede de batalha. E perdidos, porque mais uma
vez o albino havia lhes escapado. Menos Nichaela.
Os deuses querem que o encontremos disse a clriga. No havia fervor em sua voz,
apenas um tom incolor, de quem apenas reporta uma informao.
Os deuses tm coisa melhor para fazer Ashlen deu um meio riso.
No disse Nichaela, como se explicasse algo a uma criana. Os deuses querem
que o encontremos, e por isso vamos encont
r-lo. Esta histria j tem nal escrito.
O destino inexorvel disse Gregor
, entrando com sua f na discusso.
Mas misterioso.
No este. Eu j entendi. No nal, vamos encontr-lo.
Ento, por que no sentamos, simplesmente, e esperamos os deuses despejarem um
albino sobre nossas cabeas? disse Ashlen, com uma aspereza que no intencionara.
Est certo Nichaela, como sempre, mantinha a calma. O que quer que faamos,
vai acontecer.
Vallen tinha engulhos de ver os companheiros conversando como se estivessem em uma
taverna, mas a verdade que o nico perigo naquele lugar era uma eventual pedra solta ou um
rato mais ousado.
Ento, vou me sentar! disse Ashlen, com um sorriso e uma voz ressoante. De
fato, sentou-se. Que venha o albino! disse para o cu. Khalmyr, Nimb, Hyninn,
Allihanna! Ouviram? Que venha o albino!
Inconscientemente, todos agarraram as arma
s um pouco mais forte. Se estivessem numa
histria, aquela seria a hora de um ataque surpresa. Mas no houve.
Os deuses devem estar dormin
do riu Ashlen, erguendo-se.
Nichaela ajudou-o, tambm rindo. No desaprov
ava a irreverncia do jovem, embora ela
mesma no fosse to solta. Resolvera que deveria ser um pouco mais como Demilke.
Uma torre de bruxa, um bando de aventureiros, e nada falou Gregor, sob a
respirao. Se esta uma histria, ento no uma
das boas
O mar chiava, o vento assobiava, e as gaivotas
caram felizes porque eles saram de seus
domnios no ltimo andar.
O I  M
rostos contra os protegidos alados de Tenebra, at que Nichaela sussurrou algumas palavras
sagradas, e o imenso bando de morceg
os se acalmou num sono amedrontado.
Coitados disse a meio-elfa. Calma, no estamos aqui para lhes fazer mal.
Os aventureiros seguiram por algumas portas e passagens insigni
cantes, sempre
levando a mais aposentos vazios e mortos. Os piores perigos pelos quais passaram foram mais
morcegos, e o cheiro mole dos morros de ex
cremento. Numa certa altura, Rufus Domat parou
para recolher um pouco da substncia nauseabunda.
Oh, por favor disse Ellisa
orn, nojo e desprezo.
til para uma magia poderosa justi
cou-se o mago.
Que, aposto, voc no tem em seu livro capenga zombou Ashlen, menos cortante
do que a arqueira.
Vallen fez meno de mandar que se calassem. Aquela no era hora de conflitos nem
gracejos. Mas acabou por no dizer nada. Eles eram seu grupo, e eram
bons
. Sabiam o
que fazer e no fazer numa situao de perigo. S que ali no havia perigo. At mesmo
Vallen, por mais que se forasse a uma tenso alerta, afrouxava as mos em Inverno e
Inferno. S mesmo Artorius e Masato, dois se
res de disciplina monoltica, eram capazes
de manter a postura.
Talvez eu esteja vendo inimigos onde no h
, pensou Vallen. Talvez ali no houvesse risco.
Talvez a bruxa j estivesse morta. Nem sempre o pior acontecia, talvez agora fosse como h
poucas semanas, com a clriga Demilke. E os
dedos se afrouxaram s mais um pouco nos
cabos das espadas mgicas.
E mesmo assim eles eram vigilantes. Eles eram bons. No deixaram nenhum canto
sem ser inspecionado, paredes, cho ou teto
A B   R 
De fato, eles estavam em uma histria de aventuras. Uma construo aparentemente
abandonada, que escondia um inimigo traio
eiro e inmeras armadilhas. Se fossem
inexperientes ou tolos, poderiam mesmo
acreditar que a torre estava deserta.
J chega anunciou Vallen. Para dentro.
Eles haviam esperado atrair a tal bruxa ou
at o albino para fora, para lutar longe
de seu elemento.
Valeu a tentativa disse Ashlen, aprontando a besta e dando de ombros.
Passavam atravs da entrada pomposa e apodrecida.
Ento, isso disse Gregor Vahn. Vamos matar uma feiticeira.
No gosto de lutar contra mulheres disse Artorius.
Para mim, no faz diferena era Vallen.
Entraram.
E comearam os tempos ruins.
A luz fria da manh desmaiada entrava pela porta junto com o grupo, e iluminava um
salo redondo e vazio, que recebia os intruso
s naquela construo em runas. O ambiente no
era muito recluso parecia uma continuao da praia l fora. A areia, carregada pelo vento,
cobria boa parte do cho. O mesmo cheiro mido de sal dominava o lado de dentro da torre,
assim como o lado de fora. As nicas diferenas eram a sombra gradual, que engolia a luz
opaca do sol tmido, e um odor podre que se escondia em algum canto, escorrendo para todo
o salo. Havia vestgios de alguma moblia, mas s e um alm tomado por breu.
Eles avanavam com cautela. Sabiam ser este o certo, mas ainda assim sentiam-se bobos.
Eram como crianas brandindo pedaos de pau
contra inimigos imaginrios, tentando ver
mistrio onde s havia desolao muito mundana. Caminharam atravs do salo, a areia
chiando sob as botas. Por m, a luz cinzenta deixou de acompanh-los, e um virote da besta
de Ashlen se acendeu com luz arcana vinda de
Rufus Domat. Isto s os fez parecer mais
tolos viam muito frente, e no havia nada para ver.
Talvez esteja mesmo deserta sugeriu Rufus, mas foi cortado por Vallen antes do
som terminar de deixar seus lbios.
No! Nada de relaxar.
Ela est aqui.
E talvez
ele
tambm, pensaram todos. O
criminoso. O intruso. O albino.
O cheiro nauseante se intensi
cou at a beira do insuportvel.
Bosta de morcego sentenciou Ashlen. De
fato, nos cantos, pequenas montanhas de
excremento e vermes satisfeitos.
Acima, dezenas de corpinhos pendurados, en
colhidos sob suas asas, dormindo. A luz
os fez se agitar, e em breve tudo era uma tempestade de voejares negros. Todos cobriram os
O I  M
ENTO, COMEARAM OS TEMPOS RUINS.
O vento soprava um cheiro molhado de sal, que eles haviam aprendido a associar com
derrota. No estavam longe da praia, na ilha onde s havia a torre da bruxa Andaluzia.
Deixe-nos entrar! gritou Vallen para a construo de pedras mal cuidadas.
Viemos levar justia um assassino procurado em trs reinos.
A torre, cinza de pedra e verde de musgo, apenas existia, impassvel e morta. Ao
redor, muitas gaivotas voejavam, caavam
e viviam, alheias s histrias e herosmos
daquele mundo.
Sabemos que esta torre tem uma mestra Vallen seguiu esbravejando para as
paredes. Deixe-nos entrar, por Tauron, Lena e
yatis!
O guerreiro sentiu-se um pouco ridculo. O vento seguia sendo vento, e as gaivotas
seguiam sendo gaivotas, e ambos, assim como a torre, pareciam zombar dele, em sua
indiferena total.
A torre era atarracada e decadente. No que fosse muito antiga parecia ter poucas
dcadas. Mas, por abandono, as pedras cinz
entas estavam cobertas de limo esverdeado e
gosmento. Em algumas protuberncias, havia ninhos de pssaros. A torre cava prxima
M T 
houvesse realmente importncia num con ito no mundo material, ela sairia vencedora de
qualquer jeito. E, caso a tempestade de Glrienn fosse mesmo to perigosa quanto se dizia,
ela j tinha algum para lutar em seu nome.
O que deseja, Senhor da Morte? Tene
bra sorriu. Num instante, suas feies
mudaram: a pele, de branca como cal, tornou-se rosada. Os longos cabelos negros viraram
curtos e prpuras. As orelhas se alongaram e o rosto
cou mais suave e inocente. Frente a
Ragnar, estava Glrienn, a Deusa dos
Elfos. Em que posso lhe agradar?
O desejo, que j ardia insistente no Deus da Morte, explodiu em um incndio. Ele possuiu
Tenebra com violncia e sofreguido.
Se algo surgiu deste encontro, ningum sabe.
O I  M
Ragnar sentia o hlito gelado de Tenebra morder-lhe a pele. As narinas redondas e
abertas sorviam o cheiro podre da respirao da deusa. A mo dela pousou suave em sua
bochecha, numa carcia quase imperceptvel, mas
Ragnar chegou a sentir dor, tamanho era o
frio do toque.
Qualquer coisa.
De repente, Ragnar agarrou-lhe os dois pulsos
nas mos imensas e, de um salto, derrubou
a Deusa das Trevas no cho. Sobre ela, arfando, o corpanzil quase esmagando a forma esguia
da deusa, sentiu os dedos adormecerem com o frio, mas tambm sentiu o sangue correr mais
forte com o desejo.
Diga o que quer.
M T 
que haviam pertencido a reis e machados elegantes que j haviam visto batalhas incontveis
em nome da raa l
ca. Jogada perto do trono agonizante, estava a coroa do rei dos elfos,
descartada como um brinquedo velho. Tenebra n
O I  M
Parou frente torre de ossos e armas onde residia o Deus da Morte. A espira cujo
topo se perdia no cu fora feita com os esp
lios dos inimigos mortos de Ragnar, e agora
M T 
Na plancie arenosa pela qual Tenebra andava, acampava um exrcito goblinoide, e
suas tendas eram feitas de pele de elfo. Ladeando uma trilha precria, lanas em intervalos
regulares, onde, ainda vivos, estavam empalado
s elfos que gemiam. As crianas goblinoides
brincavam de apedrejar os elfos menos valorizados
pelos adultos, e as crianas mais fracas
tinham de se contentar com brincar com as caveir
as dos elfos j utilizados por todos. Longas
las de guerreiros goblinoides esperavam para estuprar elfas presas com cordas. As vozes
musicais dos lhos de Glrienn se quebravam ao se elevarem em berros de agonia. Naquele
mundo cinza, os goblinoides tinham o mesmo comportamento que teriam em Arton. A
diferena era que, ali, eles eram reis.
Uma alma, ao adentrar o Reino divino que
O I  M
REINO DIVINO DE RAGNAR ERA FEIO, BRUTAL E SIMPLES. TUDO
l era exatamente como se esperaria, e todas as pedras a
adas, lanas enegrecidas e torres
macabras pontilhavam o cho rido nos lugares
exatos onde se esperaria que estivessem. No
havia espao para sutileza no Reino de Ragnar, mas havia muito espao para uma crueldade
honesta e burra. O cu cinza como ferro poderia ser um pouco claro demais para Tenebra, a
Deusa das Trevas, mas, afora isso, ela no se sentia longe de casa.
Tenebra no era maligna, no como era Ragnar. Ela sabia, talvez mais do que qualquer
deus, ser impiedosa, e suas ideias sobre o mundo entravam invariavelmente em con ito com
as dos povos humanoides de Arton. Contudo, a Deusa das Trevas era apenas uma mestra
caprichosa e exigente, esperta e assustadora.
Ragnar era um assassino. Tenebra era uma
adaga esguia, descrevendo um corte no e dolorido na pele de seus inimigos. Ragnar era um
machado. Tenebra amava; amava suas criaes noturnas, amava a luz da lua e o frescor da
noite. Ragnar mal tinha a capacidade de odiar.
E assim talvez fosse estranho que a graciosa mulher caminhasse com tanta segurana e
calma pelo cho seco e entre as rvores moribundas de galhos pelados. Talvez fosse estranho
L  O H  A
Aquilo atingiu Masato Kodai como um relmpago. Era bvio, mas ele nunca havia
pensado nisso.
Voc acha que protegemos Nichaela porq
ue ela uma menina incapaz? continuou
Artorius. Se fosse assim, eu nunca estaria no
mesmo grupo que ela. Nichaela a mais sbia
de ns, Masato Kodai,
a melhor de ns
, e ela tem uma garotinha que depende dela, em algum
templo de Lena pelo mundo.
Masato no falou nada.
Ela uma mulher, uma mulher madura e sbia. Lembre-se disso.
Ele iria se lembrar. Mas no conseguiu dormir.
Ento, ele est atrs de uma bruxa? diss
e Vallen, entre bocejos, depois de dormir
um dia inteiro. Nichaela acabara de lhe explicar
o destino do fugitivo, conforme lhe fora dito
por Demilke. Como disse que o nome dela?
Andaluzia disse a clriga. Ela tinha gr
andes bolsas escuras embaixo dos olhos,
porque havia dormido muito mal e muito pouco. Sua torre
ca na tal ilha a sul.
Ento, estvamos no caminho certo di
sse o guerreiro. Muito bem, parasitas!
Chega de dormir e engordar, temos que matar um albino.
O grupo se espreguiava, descansados e refeitos pelo dia inteiro de sono. Estavam prontos
para retomar a caada. Demilke embrulhava pacotes com comida e lhes desejava a paz de Marah.
Paz o que no teremos disse Vallen.
Ela se despedia de cada um com um novo beijo nas faces, mas agora via faces menos
relutantes.
Espero que voltemos a nos encontrar dizia a lha de Marah. Provavelmente no
estarei mais neste templo, mas ele
car de p enquanto Marah assim quiser.
E o grupo saiu do templo de Marah, lamentando deixar o lugar pac
co, mas com o
nimo de jovens em sua primeira misso.
O I  M
Ento por que pergunta?
Por nada! Nichaela quase gritou.
Mais silncio e imobilidade. Agora, parecia no haver som nenhum no templo.
Acho que vou, ento disse Masato, comeando a caminhar em direo s
escadas brancas.
Ele subia o primeiro degrau quando
Nichaela conseguiu reunir foras su
cientes.
No v disse a clriga.
Ele se voltou.
Por qu?
L  O H  A
duas secaram os corpos com toalhas brancas e de
licadas, e foram se juntar ao resto do grupo
no salo principal.
Os guerreiros estavam renovados: exalavam satisfao e cheiro de limpeza.
Artorius estragou a sua fonte, dona
riu Ashlen. Aquela gua est poluda
para sempre!
O minotauro ngiu tentar agarrar Ashlen,
rugindo brincalho. Nichaela e Gregor
pareciam ser os nicos a notar como a animosidade entre o grupo se des
zera. Aquele lugar
era mesmo um santurio.
Espero ter comida para todos disse Demilke. Em seguida, desapareceu numa sala
O I  M
A misso era ajudar outros grupos, outros viaj
antes. Ela viajou pelas terras do Reinado,
em busca de uma iluminao de Marah, sobre como
faria para auxiliar aqueles que viviam pela
espada e pela estrada. En m, meio morta de sede nas Montanhas Sanguinrias, foi salva por
um grifo branco, e teve uma viso, na qual sua
deusa lhe ordenava que construsse um templo,
no meio dos ermos, para que os que fugiam ou lutavam encontrassem abrigo.
Mas eu desobedeci riu Demilke.
Como?
Eu desobedeci Marah. No criei um templo. Criei uma ordem.
J eram, Demilke contava, quatro templos como aquele, espalhados por Ramnor. Ela
mesma viajava pelas terras, pregando a palavra
de Marah e incentivando outros clrigos a
construrem aqueles refgios de paz, no meio de
orestas, montanhas, desertos.
Esta ordem tem um nome? perguntou Nichaela, fascinada.
Precisa? sorriu Demilke. Eu no so
u boa em criar nomes. Sou boa em curar
pessoas, e viajar por a.
Essa era a misso que Demilke tinha se imposto na vida. E, pelo que ela sabia, j havia
L  O H  A
Seus amigos acham que vou devor-la riu de novo a lha de Marah.
Faz tempo que s vemos dor, senhora
disse Nichaela, com um sorriso triste.
Marah a nica senhora aqui. E espero
que conheam um pouco de alvio nos
domnios dela.
No demorou para que as duas clrigas co
meassem a trocar histrias como se fossem
velhas amigas. Nichaela contou o que os levara at aquela ltima batalha, a ltima fuga e,
nalmente, at aquele lugar.
No culpe seu amigo Ashlen disse
Demilke. Ele s queria o seu bem.
Eu sei respondeu Nichaela. Eu no culpo.
E logo as duas perceberam que eram dois espritos assemelhados, embora Nichaela
fosse muito mais reservada, e Demilke fosse s exuberncia. Ela ria o tempo todo, e tentava
amenizar com palavras doces as partes mais dodas da narrativa da meio-elfa. E, de tempos em
tempos, do outro lado da construo ouvia-se a
sua gargalhada deliciosa. Nichaela acabou por
con
ar nela o su
ciente para contar a jornada deles desde o incio. Falou de Irynna e Athela,
de Andilla Dente-de-Ferro e da estranha senhora Raaltha; falou de Balthazaar e Izzy e Sig
Olho Negro, e falou de Senomar e
orngald Vorlat e de todo o resto. E falou do albino.
Ele esteve aqui disse Demilke.
Nichaela quase deu um salto dentro da piscina fumegante.
Sim, esteve aqui continuou a lha de Marah. E eu o acolhi, como acolho a todos.
Ele me disse para onde ia, e conversou muito comigo sobre Arton, e sobre os deuses.
Nichaela
cou um tempo em silncio, subitamente mais grave.
Eles querem que o encontremos disse, por m.
O qu? disse Demilke.
Os deuses. Eles querem que o encontremos.
Ela no sabia se estava aliviada com aquela percepo, ou se deveria se assustar. Sentia-
se especial e abenoada, mas tambm um pouc
o sobrecarregada por aquela ateno divina.
A nal, o que era o albino?
Mas Demilke disse tudo o que sabia, e Nichaela decidiu que aquilo era assunto para
Vallen e os outros. E decidiu contar-lhes mais
tarde, porque, Lena sabia, todos precisavam
de descanso.
A
nal, o que voc e este templo fazem aqui? perguntou, tirando a cabea do assassino.
Demilke no hesitou em contar. Ela fora uma vez uma aventureira, assim como Nichaela.
Clrigos de Marah, assim como as clrigas de
Lena, eram uma viso curiosa entre os grupos
que se aventuravam por Arton, pois no usavam
de armas ou violncia nunca. Para Marah
assim como para Lena, era prefervel morrer a derramar sangue. Demilke, en m, fazia parte de
um grupo de aventureiros, at que todos foram mortos em uma emboscada goblinoide. Eram
seis, alm dela, e todos caram vtimas das lminas infectas.
E ento tomei para mim outra misso disse a mulher.
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L  O H  A
em pedra muito branca sobre colunas elegantes. Eles se aproximaram com cautela, e sentiram
algo estranho lhes invadindo. Logo, saiu de dentro da construo uma
gura inusitada.
Uma bela mulher, com seus trinta e poucos
veres, coberta por uma vaporosa tnica
branca. Tinha cabelos ondulados de mel, que se
derramavam fartos costas abaixo. E tinha um
sorriso largo e franco, algo que h tempos eles no viam.
Bem-vindos, viajantes disse a mulher, numa voz de msica. Bem-vindos ao
templo de Marah.
No demorou para que os aventureiros reconhecessem a pena alva e o corao que eram o
smbolo de Marah, a Deusa da Paz. A clriga lh
O I  M
Veio a resposta quando Vallen desabou entre duas rvores.
Voc nem consegue andar! gritou Ellisa. Deixe-me aqui!
Cale a boca! Vallen gritou de volta.
E, num esforo sobrehumano, ele se ergueu, e ergueu ela com ambas as mos. Todo o seu
corpo agonizava, os ferimentos queimavam como o inferno. E, por falar em inferno:
Notou que deixei cair a espada?
Foi para dar uma chance aos goblinoides ge
meu Vallen, enquanto voltava ao arremedo
de corrida, levando Ellisa nas costas. Vou matar todos com uma faca que tenho na cintura.
A bravata fez os olhos de Ellisa se encherem dgua e ela tinha esquecido o quanto era
doloroso chorar com um olho to machucado.
Idiota ela disse, simplesmente. Idiota.
Os pulmes de Vallen gritavam de dor, e ai
nda assim ele andava. J no conseguia manter
uma linha reta apenas cambaleava em zigue-zague, tentando manter-se longe dos monstros.
Queria dizer a Ellisa para que tirasse a
prpria vida antes de deixar que eles
zessem algo com
ela mas o orgulho o impedia, e ele
apenas torceu para que ela soubesse.
E, de repente, achou que estava delirando
, pois viu algo branco e luminoso no
caminho frente.
Sentiu a dor arrefecer um pouco, a mente se clarear de leve, as pernas
carem um pouco
mais fortes. Viu um pequeno prdio de colunas imaculadas, cercado por uma luz pura, boa e
refrescante como a que exalava de Nichaela, quando ela recebia a bno de Lena. E, frente
da construo, estava uma criatura bela
e iluminada, que s podia ser um anjo.
Que surpresa
, pensou Vallen.
Achei que, quando chegasse a minha hora, veria fogo, enxofre
e uma centena de inimigos vingativos. Mas, se os deuses cometeram este erro, no vou discutir
. E
assim, com os monstros em seu encalo, caminhou em direo luz.
Os aventureiros haviam encontrado um sinal fnebre a lmina Inferno jogada na relva.
Preferiram no comentar. J amanhecia quando
avistaram um grupo de pouco mais de dez
goblinoides na estrada frente. Estavam de
scansando em um acampamento improvisado.
Meus disse Artorius, j em carga.
Dois dos monstros sobreviveram, e foram interrogados ante a lmina do machado.
Onde esto os guerreiros que vocs es
tavam perseguindo? rosnou o minotauro.
A mo verde de garras imundas apontou frente. Nichaela tentou impedir, mas os dois
goblinoides foram executados imediatamente.
Os aventureiros seguiram a direo indicada e se depararam com uma construo estranha,
deslocada, bem no meio da
oresta. Era um prdio de dois andares, pouco extenso, construdo
L  O H  A
No.
Era Nichaela.
No vamos nos separar disse a clriga.
Seria tolo. E no podemos voltar, porque
perderamos muito tempo. Vamos continuar.
Todos olhavam para ela.
Ashlen, voc toma a frente. Pode no ser um rastreador, mas os seus olhos so os melhores
dentre ns. Artorius virou-se para o imenso mi
notauro. Eu tenho poucas bnos restantes,
mas vou tentar cur-lo. Gregor, faa o mesmo.
Artorius nosso melhor guerreiro, e bom que
esteja em plena forma. Ele ir logo atrs de Ashlen, e ir defend-lo em caso de problemas.
Ningum dizia nada.
Rufus, voc pode fazer algumas magias de luz? continuou ela, suave.
Sim disse o mago, com um
o de voz.
Faa tantas quanto puder. Vamos iluminar esta
oresta ao mximo. Gregor, voc
car
na retaguarda, e Masato
ca comigo e Rufus no meio. Agora, acho que bom todos sabermos
quais magias temos disponveis, para pode
rmos estar prontos em caso de um ataque.
Ela disse tudo aquilo com a calma e doura
de uma professora. E todos obedeceram.
Nichaela assumiu a liderana do grupo, e Gregor suspirou em alvio.
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L  O H  A
Todos os olhos pousaram no jovem, e a maioria deles pesava mais que uma montanha.
Envergonhado, ele levou o grupo at os arbust
os nos quais havia escondido o corpo inerte
da meio-elfa.
Idiota! urrou Artorius. Apesar de co
nhecer o minotauro, daquela vez Ashlen
realmente pensou que ele fosse lhe bater.
Masato apenas arregalou-lhe os olhos estr
eitos, e botou a mo no cabo da espada.
Calma disse Gregor. Ashlen, bom que haja uma explicao para isto.
Havia. Ashlen falou-lhes de como Ellisa tinha confabulado com ele, de como ambos (na
verdade, muito mais ela, mas ele escolheu abra
ar boa parte da culpa) haviam decidido que era
melhor descartar regras e honras, e tirar o xam do combate. Para tanto, deveriam garantir a
segurana de Nichaela, e sabiam que a clrig
a nunca iria se retirar por vontade prpria.
Segurana? urrou de novo Artorius.
Deix-la sozinha e inconsciente deix-la
em segurana?
Eu a estava vigiando o tempo todo, at Gregor chamar ofereceu o jovem.
E o que, exatamente, faria, caso os goblinoides viessem? disse Masato, cheio de
desprezo frio.
Ashlen no disse nada.
No o vi no campo de batalha continuou o samurai.
Eu poderia comeou Ashlen.
Seria intil! gritou Masato.
Gregor, mais uma vez, interrompeu a disc
usso. Ignorando Artorius, que insistia em
fazer isso, tomou Nichaela nos braos.
Ela vai acordar dentro de meia hora, mais ou menos disse Ashlen. Ningum
respondeu.
Todos gostamos de Nichaela disse Gregor. Mas Vallen e Ellisa desapareceram.
Virem adultos por um momento, e vamos procur-los.
No havia nenhum rastreador no grupo, portanto eles perderam um tempo enorme e
precioso achando a pista do casal em fuga. O piso
tear dos goblinoides era fcil de ser seguido,
mas a grama naquela plancie j estava to castigada que vrios rastros se confundiam. E
assim, o sol j se punha quando el
es nalmente estavam na pista certa.
Deixaram para trs Senomar, o exrcito tyro
ndino e as honrarias que seriam prestadas a
Roderick Davranche, o mrtir daquela batalha.
Roderick j morreu
, dizia Gregor para si mesmo, tentando justi
car a falta de luto pelo
amigo.
Vallen e Ellisa esto vivos
. Mas no tinha certeza. Carregava Inverno na cintura, muito
O I  M
tiveram a chance de fugir, e muitos dos que fugiram escolheram seguir Vallen e Ellisa. Era
impossvel, mesmo para a centena de soldados recm-chegados, perseguir cada uma das
criaturas, e foi por essa infelicidade que o casa
l de guerreiros se tornou a presa ferida de um
bando de goblinoides que no tinha nada a perder.
Largue-me aqui, seu idiota disse Ellisa. Ela sempre se perguntara qual sentimento
venceria se um dia a sua sobrevivncia e a de Vallen entrassem em con ito. Agora sabia: preferia
colocar Vallen primeiro.
Talvez eu no seja to diferente desses guerreiros tolos
, pensou, quase
com um sorriso.
Deixe de ser imbecil ofegou Vallen. Fugimos os dois, ou
camos os dois aqui
e matamos todos mas, mesmo enquanto falava aquilo, olhou por cima do ombro e viu
criaturas demais.
Boa hora para algum deus ou heri poderoso aparecer
, pensou, quase com
um sorriso.
Vallen e Ellisa sabiam o quanto eram iguais. E sabiam que nenhum dos dois desistiria do
outro, e buscaram algum tipo de consolo em
morrer juntos. Mas, no fundo, esperavam que
algo acontecesse e eles no morressem a nal, eles nunca morriam.
Contudo, quando j era o meio da noite, e eles ainda fugiam, sozinhos, no meio de uma
oresta desconhecida, comearam a duvidar. Esta
vam feridos, exaustos e caados. E sozinhos,
exceto pelo rudo e fedor que se aproximavam.
Os o
ciais do exrcito tyrondino congratulavam Gregor Vahn por ter-lhes levado quela
batalha de herosmo. Lamentavam os mort
os, matavam prisioneiros e parabenizavam-se
mutuamente. Mas Gregor mandou que se calassem, e saiu de perto deles, quando viu algo
que era terror.
Um goblinoide deitado, congelado sob o sol quente. Porque Inverno, a lmina de gelo,
estava cravada em seu estmago. Gregor reuni
u os aventureiros. O casal estava ausente.
A ltima vez que vi Ellisa, ela estava no ar disse Ashlen.
A durao da magia j acabou h muito disse Rufus, esfregando o vergo vermelho
e roxo na face esquerda.
Gregor praguejou.
Masato e Artorius estavam cobertos de ferimentos. Ambos caminhavam com di
culdade,
apoiando-se um no outro. Tinham perdido a conta de quantos haviam matado. Rufus tinha
L  O H  A
pensou a guerreira. Mas permaneceu acordada, e ainda tentou lutar.
A armadura de couro que lhe cobria o peito foi rasgada com facilidade, junto com a blusa
por baixo. Surgiu-lhe a carne branca e macia. E Ellisa viu coisas nojentas, mas no fechou o
nico olho bom, porque j vira pior. E ento, a cabea do goblinoide que se deitava por cima
dela se desprendeu e caiu pesada, machucando seu nariz.
Antes de conseguirem se virar para o novo inimigo, mais dois goblinoides morreram.
E apenas um movimento de cabea antes de mais uma decapitao, e um corte fundo num
crnio, e uma estocada. Ellisa no conseguia enxergar nada, apenas um rastro amejante e
outro gelado, e muito sangue verde espirrando por tudo.
Vallen, aps ver a amante cada, estivera cego para tudo o que no fosse matar. Se tivesse
prestado ateno na quantidade de inimigos que ha
via entre ele e Ellisa, veria que era impossvel
chegar at ela a tempo. Como no vira, conseguiu abrir um caminho sanguinolento. E nem
sentira o corte fundo na perna e a estocada que lhe
perfurara as costas quando matou o primeiro
dos monstros que estavam volta dela. Vall
en enxergou o rosto inchado da mulher que amava
no meio da vermelhido que era o seu mundo, e mais uma vez urrou, e seguiu matando.
Quando as mos imundas deixaram de prend
er seus braos, Ellisa no hesitou para pegar
de novo o arco. No entanto, estava quebrado. E, sem perder um instante, agarrou uma
echa
e estocou as pernas cobertas de couro verde, de novo e de novo. E ela ainda estocava, e Vallen
ainda cortava, quando perceberam que tinham matado todos.
Abraaram-se.
Consegue andar? disse Vallen.
No.
E, atrs deles, mais um grupo furioso das criaturas.
O I  M
BARDOS QUE FALAM DE AMOR EM SALES, AMOR COM ROSAS,
amor perfumado e corts. Mas, em Arton, poucas
provas de amor chegaram perto da matana
de Vallen Allond, para chegar perto de sua amada Ellisa
orn.
Ele sorria e gargalhava como um louco, embria
gado de combate, quando, por um instinto
inexplicvel, olhou atravs do campo de morte e viu a arqueira, cada com o tornozelo virado em
um ngulo doloroso, esticando-se freneticamente
para agarrar o arco. sua volta, monstros.
Ellisa sabia que, se algum pagaria o preo por
aquele combate, seria ela. Os goblinoides
j haviam percebido que iriam perder. J sabi
am o destino de sangue que lhes aguardava
somente Gregor ou outro paladino iria poupar a vida de prisioneiros uma vez que acabasse
aquele inferno de lminas. J sabiam que
iriam morrer. E tinham escolhido Ellisa para
descontar sua raiva. Alm disso, fora uma de suas
echas uma de suas indefectveis
echas
emplumadas que havia tombado o xam. Uma dezena de goblinoides se amontoava ao redor
dela, divididos em levantar os cales em luxria
bestial e levantar os machados em ira alegre.
Ellisa no tinha um sorriso desa
ador no rosto. No tinha uma ltima bravata, no
provocava os goblinoides numa demonstrao nal
de bravura. Queria viver, portanto deixou
as bobagens de lado e se esforou em se arra
star para pegar o arco. E um dos monstros, que
riu de sua tentativa, morreu gorgolejando com uma
echa na garganta. Os inimigos deixaram
de zombar, e s urraram de dio renovado. Ellisa, bvio, no implorava. Mas tambm no
falava deixava que suas
echas fossem as bravatas. E mais trs caram antes que os monstros
arrancassem a arma de suas mos e prendess
em seus braos. Ela lutou como uma selvagem,
ainda conseguindo transformar um rosto defo
rmado em massa vermelha com chutes, at que
havia inimigos su
cientes ao seu redor para debelar qu
alquer resistncia. E ainda assim, ao
invs de usar a boca para falar uma bravata,
ela mordeu e arrancou o olho de um deles.
Fartos, os monstros bateram no rosto de Ellisa, at que ela cuspisse uns dentes, com um
olho fechado e a boca embolotada de roxo.
Agora seria uma boa hora para ser fraca e desfalecer
A A  M  I    H 
fosse resgatada por heris e cavaleiros. Ela mesma inventara uma srie de desa os e perigos
O I  M
A resposta do paladino no tinha nada a ver com a pergunta que o albino havia tentado,
mas argumentar com Tex Mako era uma tarefa ftil. Durante todo o longo caminho, ele
discorreu sobre as variadas correntes los
cas que seguia ou seguira, e sobre o estilo de luta
dos Sete Escorpies, que criara h pouco tempo,
especialmente para o confronto com os orcs
de Yasshara. Falou tambm sobre seu trabalho em poesia, escultura e pintura, e sobre seus
estudos da posio das estrelas no cu de Arton,
e sobre sua teoria de que havia uma segunda
alma, maior e mais permevel que a primeira, e que o que se chamava de alma era na verdade
apenas um segundo estgio de corpo.
Voc no como os paladinos de que ouvi falar conseguiu dizer o albino, em
certo momento.
Oh, no. Eu j
z todo o estilo armadura brilhante, barba e cavalo garboso, mas
precisava de uma mudana de aparncia, entende? Com a mesma aparncia por muito tempo,
o esprito tende a
car endurecido. Dispens
ei o cavalo que me servia de montaria sagrada,
porque ele no combinava com o meu novo
estilo. Alis, este tambm j est
cando velho.
Preciso mudar de novo.
Por m, chegaram at uma clareira, onde, estranhamente, uma luxuosa casa de dois
andares se erguia, solitria.
Chegamos declarou Tex Scorpion Mako.
Entraram pela porta ornamentada. O paladino
liderava o caminho, e levava o albino por
A A  M  I    H 
at a magia desinteressante. Por isso eu estudo a magia de transformao da realidade, que
uma criao de Anilatir. Ela se baseia no poder de crena que todos temos, entende? E o
paradigma da existncia aqui neste mundinho
limitado pode ser transformado se pessoas
suficientes acreditarem na mesma coisa ao me
smo tempo. Mas o mais fascinante que,
se todos acreditarem ao mesmo tempo que no h realidade alguma, o paradigma em que
vivemos vai se fragmentar e se transformar em absolutamente
! No fantstico?
Assim, cada um seria o dono e deus supremo de seu prprio universo, e todos viveramos
em parasos pessoais, querido. At mesmo
nossos inimigos tomou flego. Pelo
menos, essa a teoria.
O albino se alternava entre ouvir o homem co
m ateno e desejar torcer seu pescoo. De
alguma forma, Tex Scorpion Mako tinha um estranho poder de fascnio. De qualquer forma,
a reao ou falta de reao do interlocutor no parecia ter nenhum efeito no paladino que
falava sem parar.
Por isto, estou escrevendo uma histria
o albino j aprendera sobre a disciplina
bizarra da escrita, que era to comumente aceita naquele mundo. Uma histria que fala
exatamente sobre isso, e, se ns conseguirmos que pessoas su
cientes se envolvam nela, isto
pode ser um catalisador de convices para operar uma transformao em nvel universal,
querido. E ento, quer ser um personagem na minha histria?
No houve resposta.
Preciso de pessoas interessantes, entende? E tambm de pessoas que exempli-
quem bem o ideal de que ns falamos. Voc, sem roupas e sem nome, fabuloso, querido,
simplesmente fabuloso. E, apenas por sua presena, como uma ncora da realidade vigente
na realidade rebelde da histria, j fornece um
incentivo de crena inerente, mesmo que as
pessoas no se deem conta disso. Mesmo que seja s para voc.
No entendo muito do que voc fala disse o albino.
E nem precisa entender, querido, talvez assim seja at melhor. Tomando como base
um vcuo total de compreenso, talvez seja ma
is fcil imprimir os princpios da magia de
transformao da realidade e, bvio, da Libe
rtao Suprema da Alma Voltil, de uma forma
totalmente emprica. claro que, se a compre
enso se der por meio de experincia direta,
ento os princpios j vo estar provados e em
efeito, o que uma ironia fabulosa, j que lhe
tiramos a opo de no querer maior direito de opo. No fabuloso?
O que comeou o albino.
Libertao Suprema da Alma Voltil? Uma doutrina tambm criada por Anilatir, que
diz que a realizao pessoal e universal se d, obrigatoriamente, pela retirada (e no soma!) de
elementos da existncia. Assim,
vamos eliminando posses materiais, relacionamentos, o corpo
e por m a prpria alma. Eu sou o iniciado ma
is graduado, e estou apenas no nvel dois. Se
me des
zer dos relacionamentos, perco Anilatir,
e ainda no estou pronto para isto. Mas h
tempo. Sou jovem, no acha?
O I  M
Isso o albino era capaz de entender. Em Ahlen, aprendera, junto com muitas outras
coisas, a estranha relao daquele povo com seus deuses. Eles os cultuavam, os serviam, e
alguns poucos dedicavam suas vidas numa espci
e de cruzada sem m, e estes eram chamados
de paladinos. No entanto, ele nunca ouvira falar de Anilatir (e
zera questo de decorar os
nomes de todos os deuses, caso isto fosse til).
Voc gostaria de ser um personagem da
histria que estou escrevendo? disse o
paladino. Vamos, ande comigo, querido, cadveres de orcs fedem muito.
O albino hesitou. O homenzinho
falava incessantemente, e isso era irritante. Alm do
mais, ele precisava chegar at a tal torre da bruxa, para manter contato com seus mestres.
Por outro lado, ele ainda tinha
muito pouco para reportar, e Tex Scorpion Mako talvez lhe
mostrasse algo de valioso daquela terra de
malucos. Decidiu caminhar com o homem.
Por que estava lutando com os orcs? Bem,
no importa, o fato que esto todos
mortos agora. No eram simples bandidos, sabia? Eram contratados pelos agentes de Yasshara,
a Deusa da Opresso. Claro que eles mesmos no
sabiam disto, mas estes so os caminhos
da luta secreta que eu e Anilatir travamos. H foras que tencionam aprisionar este mundo
A A  M  I    H 
Muito prazer! exclamou por trs da mscara. Sou Tex Scorpion Mako. E o seu
nome, como seria?
De novo, o albino ignorou-o. Arrancou o machado de um dos orcs e usou-o para decapitar
o antigo dono. Enterrou a arma no peito de
outro dos monstros e afundou a mo com unhas
compridas no estmago de um terceiro.
No de falar muito? prosseguiu Tex Scorpion Mako. Tudo bem. O conceito
de nomes mesmo apenas uma ferramenta de
dominao espiritual. Desprovidos de nomes
estaramos muito mais livres para formar nosso
prprio paradigma pessoal de capacidades. Eu
mesmo abandonaria o meu
se ele no fosse to
sonoro
Tex Scorpion Mako enterrou sua espada tamuraniana no crnio de um dos orcs, fazendo
um longo pedao de lmina surgir do outro lado
. Bloqueou e esquivou-se dos golpes de outros
dois, usando apenas as mos nuas, com uma tcnica coreografada. Em seguida, quebrou a
espinha de um com um chute preciso e afundou sua ltima adaga no pescoo do segundo.
Entre os dois, o albino e o estranho homem de
O I  M
A A  M  I    H 
enorme tatuagem de um escorpio. Calas de cour
O I  M
NTES.
No topo de uma colina solitria, um homem sentado. Com as pernas tranadas em um
padro complexo, tinha os olhos fechados e as
mos imveis de cada lado do corpo, em gestos
estticos que pareciam ter algum tipo de signi
cado. Repetia para si mesmo:
Eu sei lutar muito bem. Eu sei lutar muito bem. Eu sei lutar muito bem.
Ao redor, a paisagem guardava poucas sutil
ezas. Havia um bosque to verde quanto era
ordinrio, e a relva era igualmente honesta e saudvel.
O deus que inventou este cenrio era pregui
oso, diria o homem sentado, se pudesse.
O S  T 
Todos os soldados de Tyrondir, todos os que haviam tombado mortos, retalhados
por lminas infectas, voltaram vida, j de
armas nas mos, j golpeando com a primeira
respirao. Vallen, Masato e Artorius tambm se ergueram, nascendo em batalha, tirando
vidas de imediato. O pssaro de fogo se desfez, deixando apenas uma nuvem de fumaa branca
e inodora. Mais tarde, nenhum dos cados iria se lembrar de v-lo, e duvidariam um pouco das
histrias miraculosas dos poucos que testemunharam a fnix.
Os goblinoides agora estavam em novo desespero. Os que haviam sido banhados pelas
brasas da fnix ardiam com um fogo que no as apagava, mas que se grudava em roupas e pele,
imolando com fria divina suas vtimas. Em pavor, Baa
ragg, o xam goblinoide, se prostrou
em uma orao selvagem a Ragnar, e do bosque prximo comearam a surgir feras vis, que
atacavam os jovens soldados de Tyrondir.
No meio daquilo, Nichaela apenas se protegia. Embora ningum lhe atacasse, estava quase
esmagada pelos corpos enormes em movimento cons
tante. Ellisa j previra isso, e decidiu que
era hora de agir. Mergulhou dos cus em dire
o clriga, e suspende
u-a no ar, enquanto
evitava os golpes das lminas inimigas.
Ashlen! gritou.
O jovem surgiu da copa de uma rvore, e correu na direo do campo de batalha.
Largue-me! gritava Nichaela. Eu preciso ajud-los!
Ellisa no dava sinais de ouvir. Largou a
clriga no cho, prxima a Ashlen. Enquanto a
arqueira mais uma vez ascendia, Nichaela comeou a protestar algo, mas Ashlen foi rpido em
colocar um leno sobre sua boca. O vapor da
substncia no leno fez Nichaela desfalecer.
Desculpe disse Ashlen, para ningum.
Em seguida, carregou a amiga para longe, como combinara com Ellisa.
Acima da confuso do combate renovado, Ellisa procurava. Depois de um ou dois
minutos, achou seu alvo.
Para o inferno com as regras do combate disse para si mesma. Coisa de homem.
E, com uma
echa certeira, matou Baa
ragg, o xam goblinoide.
As bnos de Ragnar deixaram as tropas monstruosas. As criaturas conjuradas pelo
xam se desvaneceram no ar. Mas, quando os goblinoides perceberam o que havia acontecido,
urraram com fria redobrada. Ellisa sorriu.
O I  M
resistiram por alguns momentos, matando os que corriam de encontro s suas lminas, mas
rapidamente foram sobrepujados, pelo peso e pelo nmero daquelas criaturas, e comearam a
O S  T 
Refeitos da surpresa, os goblinoides se reagrupavam, obedecendo com presteza as ordens
de seus lderes, gritadas em voz gutural na sua lngua quebrada. Assim, o inimigo reagiu, e
reagiu com fora. Aps a primeira onda de mata
na imprevista, os jovens soldados enfrentaram
a dura realidade de que eram piores, muito piores, que o inimigo. Estavam cheios de bravura
e razo, mas os coraes s podiam levar at um certo ponto: depois da, eram os braos que
ganhariam a batalha. Os machados, lanas, es
padas do inimigo golpearam com fria insana, e
mesmo os que estavam cados, incapazes de se levantar sobre o cho de geleia, tentavam matar
antes de serem, inevitavelmente, mortos. O sang
ue vermelho lquido rapidamente se juntou ao
sangue verde viscoso, lavando o campo de batalha com uma mistura nauseabunda.
Recuar! gritou Roderick Davranche. Saiam da rea escorregadia!
Os soldados tentavam cumprir as ordens, mas, nalmente, a grande inferioridade
numrica cobrou seu preo terrvel, e eles se viram cercados por todos os lados. Sob lideranas
astutas, os goblinoides haviam sido capazes de se reorganizar sem demora, e se afastavam da
rea do feitio, deixando os humanos presos nela.
Vamos abrir um caminho para eles! gritou Vallen Allond.
Os trs aventureiros se lanaram a um anco do inimigo, mais uma vez abrindo um
caminho pavimentado de cadveres e membros decepados.
Por aqui! gritou Vallen, desta vez para os soldados.
Os goblinoides haviam feito um crculo mortal, e em seu centro estavam as tropas de
Tyrondir. Tentando escapar da rea do feitio, atacavam com lanas compridas, que perfuravam
os soldados incapazes de contra-atacar. Mas os aventureiros tinham aberto um caminho pelo
crculo de morte, e puseram-se a segurar uma linha
aberta para que os soldados pudessem escapar.
Comearam a vir
echas de cima. Caiu um lder goblinoide, e depois outro e outro.
Apenas lderes, apenas
echadas certeiras. No se podia ver o arqueiro, mas os monstros
sabiam que era a mulher que voara antes. Ellisa
orn se pusera contra o sol, de forma a
ofuscar os inimigos e se proteger na cobertura brilhante, e, com toda a calma, retesava e soltava
a corda do arco; a cada vez, uma morte.
Nichaela, imperturbada pelos goblinoides, tinha se postado na sada do caminho
sangrento aberto pelos companheiros. Curava com a bno de Lena cada soldado que
O I  M
A grande fera encouraada, a parede de es
cudos goblinoide, avanava, inevitvel. Os
soldados humanos entoavam os versos furio
sos a plenos pulmes, numa gritaria magn
ca de
raiva e certeza. frente, o paladino Roderick Davranche, sobre um cavalo guerreiro, segurava
o estandarte de
yatis em uma mo e a espada na outra. Os aventureiros, com uma calma
fria, apenas observavam.
De repente, Vallen, Masato e Artorius se separaram da massa de soldados (que parecia
um punhado perto da quantidade do inimigo). Por trs das protees grossas, alguns dos
monstros
zeram caretas, pois conheciam a fora
daqueles trs em combate. Mas, eles sabiam,
por melhor que fosse o guerreiro, jogar-se contra uma parede de escudos era suicdio. Os trs
se postaram, desa
O S  T 
Eles haviam viajado para o sul, com tanta calma. Agora, frenticos para o norte. Ele havia
temido e evitado a cidade de Cosamhir, e agora no desejava nada mais do que ver suas torres
altas. E seguia sempre ao norte num cavalo branco ensanguentado. Mais uma
echa entrava
no corpo da estupenda montaria.
Aps a primeira ferida, o cavalo permanecera em silncio,
frio como um guerreiro, como se soubesse o que acontecia. E eles corriam, fugiam para o norte.
O dia se desfez em escurido, e Gregor no viu o crepsculo, s notou quando mal conseguia
distinguir o caminho frente. E ainda assim, cego, exausto e ferido, con
ava no cavalo. Choviam
as
echas, corriam os lobos, apenas comeando a se cansar. E a escurido. A noite o norte a
morte, e Gregor sentia mais uma
echa, e via o escuro se turvar ante os olhos mareados.
Gregor Vahn sentiu-se desfalecer, mas cons
eguiu se agarrar conscincia. S via a
O I  M
No fazia uma hora que ele tinha partido quan
do os goblinoides alca
naram distncia de
tiro. A
echa pendia frouxa, rasgando um pouco mais
a cada solavanco que o galopar frentico
O S  T 
com cuidado, um olho nas tropas inimigas. Senomar, que no pertencia a nenhum grupo,
dedilhava o alade com calma distrada.
Eles esto vindo! a voz de Ashlen, de algum lugar.
De fato, a parede de escudos se movia, lentamente, como um monstro enorme e
O I  M
Roderick Davranche mirava-o, sem pegar a arma, besti
cado.
A vida no lhe d mais coragem, Roderick
Davranche de novo o nome tropeando
na lngua estrangeira. Talvez a morte lhe d.
Nada. E ento, engolindo em seco, Rode
rick Davranche, ex-paladino de
yatis, tomou
bruscamente a espada curta. Olhou seu re
exo na lmina polida. E viu a prpria morte.
Seu sangue era fogo.
Os paladinos de
yatis morrem, mas sempre voltam. Exceto uma vez.
Existe a morte verdadeira para um guerreiro
da Fnix, e ela desencadeada por um evento
co. Um golpe de espada de um brbaro das Montanhas Uivantes; um raio durante uma
O S  T 
Roderick Davranche era um frangalho imvel.
Ningum fora capaz de notar, mas ele j
no era mais um paladino. Sentira, j na noite anterior, as asas amejantes de
yatis deixarem
de proteg-lo, e achava que era culpa da prpria covardia. Sem o fogo da Fnix, o mundo era
um lugar gelado e sem cor. A gua em seu sangue havia apagado o fogo.
E ningum notara isto, apenas Masato Kodai, que j vira a mesma expresso no prprio
rosto, h um tempo que parecia in nito. Aproximou-se de Roderick Davranche, colocou uma
mo constrangida em seu ombro e disse, em seu sotaque quadrado:
Ele o abandonou, no mesmo?
yatis o abandonou.
O I  M
J o vi em combate. Ento abdica de sua
posio como guerreiro, e entra nesta batalha
como clrigo?
Mas, antes que o minotauro pudesse responder, uma voz suave e rme, que se derramou
alta e clara por todos os cantos:
No. Ele ser um guerreiro. A clriga serei eu.
Nichaela virava o rosto para cima para que pudesse olhar nos olhos do xam goblinoide.
Baa
ragg comeou um riso gutural, mas a rmeza impassvel no rosto da meio-elfa fez a
zombaria morrer.
Nichaela, no! disse Artorius. Controlou-se para no cham-la de irmzinha.
A batalha no lugar para voc.
Claro que no sorriu a clriga. lugar para voc. onde voc
car, Artorius,
onde ser magn
co e imbatvel. Eu serei o apoio. Seja voc o heri.
Artorius lutou brevemente consigo mesmo, mas logo aceitou.
Pelo menos
, raciocinou,
ela estar livre dos horrores dos goblinoides.
Nichaela no seria capturada nem estuprada,
Nichaela no seria morta naquele combate. Era um consolo. Agarrou seu machado do cho.
Baa
ragg, xam de Ragnar disse Nichaela, empertigando o corpo pequeno
que mentia fragilidade. Saiba que a fora inve
ncvel de Lena agora abenoa este exrcito.
Ofereo uma chance de retirar seus soldados, para que cessem as mortes aqui.
Sua deusa ser prostituta de Ragnar em breve! o xam cuspiu em Nichaela.
Queria acrescentar:
Como j Glrienn
. Mas sabia que deveria, por enquanto, preservar
aquele segredo.
A meio-elfa limpou a cusparada nojenta do rosto perfeito.
Que seja ento. Lamento sua deciso tola. Verei para que as almas de seus homens
sejam enviadas aos Reinos dos Deuses com o mnimo de dor.
O S  T 
Exijo falar com seu clrigo! trovejou.
Sou Artorius, sou um servo de Tauron e
exijo falar com seu clrigo!
Houve rosnados e xingamentos vindos de trs dos escudos, e cusparadas grossas e
amarelas. No entanto, pouco depois uma
O I  M
E isto foi a certeza de que algo estava muito errado. At ento, os aventureiros sabiam que
aquele grupo de monstros era estranho eram numerosos demais, e tinham uma organizao
incomum. Com a formao da parede de escudos, souberam que aqueles goblinoides eram um
inimigo muito superior e talvez invencvel. A desordem e belicosidade dos goblinoides haviam
garantido sua derrota nas mos das raas civilizadas por tanto tempo quanto se pudesse lembrar.
Eles eram fortes, individualmente, e procriav
am como ratos, mas nunca eram capazes de
disciplina su
ciente para vencer um exrcito verdadeiro. Eram como bandidos com lideranas
fracas, enfrentando um imprio. Mas estes goblinoides no eram nada disso os tambores e
a parede de escudos testemunhavam. O trabalho e
ciente que haviam demonstrado h alguns
dias j fora uma prova (mas que ningum ousara tomar como tal). As tticas inteligentes de
terror, a formao de batalha at mesmo a prpria armadilha, desde o comeo eram
con
rmaes cinzentas e irrefutveis. Eles agora
tinham todas as vantagens. No acampamento
dos soldados, muito se rezava para que aqueles monstros fossem exceo.
Uma parede de escudos era uma coisa medonha, que qualquer guerreiro com um mnimo
de experincia ou bom senso rezava para nunca ter de enfrentar. Colocava-se escudo ao lado de
escudo, as bordas sobrepondo-se, fazendo uma de
fesa slida e quase impossvel de ser quebrada.
As paredes de escudos mediam sua fora pelo nmero de camadas o nmero de linhas de
homens que possuam atrs da primeira. A pa
rede dos goblinoides era macia, contava com
vrias linhas monstruosas garantindo a solidez da
quela defesa. Detrs dos escudos, despontavam
lanas longas e pontudas, numa profuso de hast
es mortais, prontas a perfurar o primeiro que
se lanasse a ela. Este era outro dos grandes
poderes de uma parede de escudos: ela podia ser
quebrada, mas quem seria o
primeiro
? Quem embarcaria para a morte quase certa, em nome de
uma possibilidade uma mera possibilidade
de enfraquecer aquela linha enorme de madeira
e ao? Era frente a uma parede de escudos que se testavam as lealdades; que se forjavam os heris
e mrtires annimos, e os pequenos traidores que
escolhiam prezar mais por si mesmos do que
O S  T 
O sangue era gua.
Os goblinoides haviam descido do planalto. Haviam feito um acampamento ruidoso a
O I  M
Mensageiros que, quase certamente, ser
o mortos disse Roderick. Se houver
voluntrios, irei aceit-los com prazer.
Caso contrrio, est fora de questo.
E naquele dia ainda, partiram dois voluntrios,
que nunca mais foram vistos. noite, suas
cabeas foram arremessadas na direo do acampamento.
Agora trinta e nove.
Quarenta e oito! exclamou Ashlen. Lembre-se de ns.
Roderick comeou a protestar, mas Vallen calou-o:
Um de ns pode ser o mensageiro. A menos que venham todos os malditos cem
goblinoides, um de ns pode sobreviver.
Eu no posso pedir isso de vocs disse Roderick.
No est pedindo disse Vallen. Ns
decidimos o que fazer. E ns vamos enviar
um mensageiro.
E serei eu disse Gregor. Um paladino da Fnix ser ouvido pelos o
ciais do
exrcito.
Roderick no disse nada. Mal ousava ver um pouco de esperana.
O S  T 
Chega era Vallen, e rapidamente cortou a ciznia que comeava a fermentar ali.
Ellisa murmurou desculpas.
A verdade que j havia bastante sangue ruim correndo entre soldados e aventureiros.
Era comum que houvesse animosidade entre os
dois grupos, pois viviam na mesma estrada,
em caminhos bastante diferentes. Aventureiros
O I  M
RA MANH, E AINDA DESESPERO.
orn estava suspensa no ar, muito acima das copas das rvores magras. Com uma
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acreditassem que eles tambm poder
iam matar alguns, e a nal sair vitoriosos. Do pavor
nsia pela batalha, em poucos minutos.
Mas, baixo para que os soldados no ouvissem, Vallen:
Sim, ns talvez pudssemos matar todos olhou para trs. Mas como manter
eles
vivos?
A bravata de Kodai assim morreu. Ouviam-se berros animalescos vindos do planalto,
e passaram-se duas horas imensas enquanto se contavam sobreviventes e organizavam-se
arremedos de estratgias. Em situaes como esta, o tempo s piora tudo, pois, tendo tempo
para pensar, percebe-se a realidade. E os homens perceberam que, a despeito da demonstrao
que haviam presenciado, a realidade era que estavam em absurda e mortal desvantagem. O
sangue virava gua em suas veias, e cada uivo do
s monstros acima arrepiava-lhes os pelos. E
logo deixaram de ver a realidade para ver uma
iluso ainda pior: agora os monstros pareciam
muito mais numerosos, e maiores, e tinham armas magn
cas, e eram mais cruis e mais
terrveis. Em duas horas, da ex
ultao ao terror, novamente.
No incio, haviam sido apenas cinquenta e ci
nco homens, mais seu lder Roderick. Agora
estavam em tal desordem que pareciam cem centenas de formigas tontas, e no conseguiam
lembrar nem reconhecer quem ainda estava en
tre eles e quem havia perecido no ataque.
Assim, amigos desesperavam-se po
r amigos ainda vivos, e logo tinha-se a impresso de que as
baixas eram astronmicas. Era o pandemnio.
E, quando vieram os nmeros verdadeiros, no foram muito mais animadores:
Onze morreram disse o o
cial gordo, suando incertezas. Outros cinco esto
desaparecidos.
Roderick Davranche soltou uma praga.
Desaparecidos signi
cava que haviam fugido durante a pattica retirada. Podia ser
que encontrassem segurana (desertando ou vo
ltando s leiras), mas tambm podia ser
que cassem nas mos dos goblinoides, e assim teriam destinos muito piores do que os que
tombassem em batalha.
No demorou para que se ouvisse o primeiro grito de tortura: um lamento comprido e
terrvel, vindo de uma garganta jovem, de um corpo jovem que sofria horrores s imaginados,
no planalto. Os ps imundos dos goblinoides pi
soteavam o esprito dos soldados verdes.
Tenebra jogou sobre os dois grupos seu cobe
O I  M
se curvou para a frente. No mesmo movimento, Kodai desceu sua espada curva, e a cabea do
goblinoide caiu com um corte limpo. O samurai era um tufo de violncia, e os monstros tinham
culdade em acert-lo. As lminas (faces en
ferrujados, sabres tomados de nobres, espadas
com a marca do prprio exrcito de Tyrondir) passavam rentes a ele, mas nunca rasgavam carne.
C   C  C   A
As bestiais criaturas zombavam dos soldados
em fuga, berrando improprios (felizmente em
sua prpria e desconhecida lngua), fazendo gestos
provocativos e agarrando os rgos genitais.
O I  M
Nichaela no tinha tanta con
ana:
Eles precisam de ajuda, Vallen insistia, longe dos ouvidos de Roderick. Eles no
bebem, no h mulheres! Voc j viu um exrci
to sem mulheres, Vallen? Todos esto tensos
como cordas de arco.
Vallen sempre
cava desconcertado ao ouvir Nichaela falando daquele jeito. Ele e os
outros se preocupavam tanto em proteger a clr
iga que por vezes se esqueciam de que ela
entendia e aceitava muito bem os fatos menos poticos da vida.
Eles precisam de prostitutas, Vallen!
Por favor, no fale mais sobre isso implorou o guerreiro.
Continuou Vallen assim duplamente atormentado, e passou-se mais um dia inteiro de
tenso. At que a tenso se quebrou, a corda se partiu, os homens, em um misto de alvio e
desespero, estalaram de surpresa.
Um planalto. Um bosque. Uma centena de goblinoides.
Uma armadilha.
Recuar! gritou Roderick Davranche. Recuar, maldio! Recuar!
J virava o enorme cavalo nervoso, berrando
dentro da armadura prateada. Os homens,
nalmente, haviam fraquejado. Os dias de intil disciplina rgida tinham cobrado o seu preo,
e a maioria estava surpresa e apavorada pela presen
a sbita do inimigo. Depois de privarem-
se de alvio e diverso por muito tempo, os soldados no eram capazes de manter a mente
clara agora, quando precisavam. Muitos corriam
em direes aleatrias, outros simplesmente
C   C  C   A
quando se tinha o quntuplo. Vallen quisera,
mais de uma vez, separar-se daquele exrcito
lamentvel e voltar a seguir o rastro fresco
do albino, mas Nichaela e Gregor insistiam para
que continuassem ali. A clriga apiedara-se dos
soldados-crianas, e o paladino desfrutava da
companhia de um antigo amigo, que se ordenara junto com ele no servio a
yatis.
Podia-se ver com facilidade porque Gregor
Vahn e Roderick Davranche eram prximos:
ambos eram muito parecidos. Criados em famlias
ricas, haviam, ao mesmo tempo, decidido
abdicar dos confortos para uma vida de di
culdades e glrias em nome da Fnix. Embora
Davranche no sofresse as mesmas agruras familiares de Gregor, era capaz de entender pelo
que passava o amigo. Isto dava a Gregor a oportunidade rara de se abrir em uma torrente
de reclamaes e memrias ruins, que servia pa
ra lavar a alma. Gregor e Roderick haviam
ingressado nos treinamentos para a ordem de
yatis juntos e sozinhos, pois h vrios anos
no surgiam jovens com a vocao. Tiveram anos de estudo e prtica com armas juntos, apenas
os dois, e isso servira para transformar-lhes
de colegas em irmos. Seus caminhos haviam
divergido mais tarde, mas o vnculo permanecia. Embora os aventureiros vivessem o presente
e o futuro junto a Gregor Vahn, Roderick tinha vivido com ele o passado.
Naqueles dois dias, Roderick havia explicado com mais exatido a demanda de suas tropas
verdes. Caavam um grande bando de goblinoides, que h meses saqueava e aterrorizava a regio,
e esperavam encontrar as criaturas dentro em brev
e, pois haviam pego seu rastro, levando para
sul, pouco antes de se encontrarem com o grupo. Embora, como se sabia, humanoides hostis
nunca houvessem sido raridade em Tyrondir,
sua incidncia aumentara nos ltimos anos.
Dizem que h um exrcito organizado dos monstros em Lamnor explicava
Roderick. Dizem que estes bandos so apena
s os primeiros batedores. Dizem que, em
breve, Khalifor ser tudo o que segurar uma invaso em massa. Bobagens, claro.
Segundo Roderick Davranche, as histrias sobre um exrcito goblinoide eram
improvveis e exageradas. A cidade de Khalifor, ressentida h muito com Tyrondir e o
Reinado, periodicamente inventava falcias seme
lhantes, tentando arrecadar mais dinheiro
e tropas. Roderick a rmava e todos concordavam que os goblinoides eram caticos
demais para sustentarem uma organizao daquele tipo. As diferentes raas lutavam entre
si o tempo todo, e dentro de cada raa enfrentavam-se as tribos. Mesmo dentro de pequenos
ncleos os monstros disputavam entre si
o poder. A ideia de que todos se unissem numa
frente organizada era risvel. Tudo aquilo era um exagero, um boato que crescera como bola
de neve porque as criaturas andavam um pouco mais ousadas e numerosas.
E no arriscado enviar homens to jovens nesta misso? disse Vallen.
Esta a misso ideal para eles refuto
u Davranche. exatamente o que eles
precisam para pegar gosto pela batalha: um combate grande e fcil, de onde possam tirar muitas
O I  M
O que se provara desnecessrio, j que os jovens soldados, vendo o amarelo e verde
de Lena, derramavam-se em respeitos desmedidos
para com a clriga. A presena de um
clrigo em um exrcito era muito valorizada,
pois acreditava-se que as bnos dos deuses
respingariam sobre aqueles a quem o clrigo ac
ompanhava. Uma clriga de Lena, em especial,
era vista como um timo agouro (por estran
ho que parecesse), em especial com soldados
jovens. A nal, mais do que tudo os soldados desejavam viver.
Senomar cantava e dedilhava o alade, Vallen conversava com Ashlen e Rufus, e Nichaela
curava um ou dois ferimentos menores nos soldad
os hesitantes (resultados de acidentes, pois
ainda no houvera combate). Logo, Nichaela sentou-se junto aos outros e interrompeu:
Vallen, podemos seguir com eles?
Vallen Allond, que esvaziava o crebro com
uma conversa sem importncia, voltou sua
ateno clriga:
Temos uma misso. Voc sabe.
Estamos indo para o sul.
Est certo, talvez possamos se
gui-los, se eles forem para o sul.
Esto indo. Eu perguntei.
Vallen olhou-a por um momento.
Por que quer segui-los?
Porque eles precisam disse Nichaela.
Vallen era o lder, mas a sabedoria simples
de Nichaela quase sempre era ouvida, e ela
sabia disso.
Certo decidiu o guerreiro. Vamos
segui-los o albino era uma preocupao
constante, mas apressar-se parecia, de alguma maneira, pouco e
ciente. O fugitivo sempre
fora bom em despistar-lhes, po
r mais que corressem e deixassem tudo de lado. Por que no
ajudar algum no caminho?
E, sob uma lua fraca, por deciso de Nichae
la, comearam o que seria sua curta vida de
exrcito. Tambm comeavam a rumar para o desastre, mas no havia como saberem disso, e
talvez seja melhor que ns tambm no saibamos ainda.
Eles so muito jovens, Vallen, veja como so jovens dizia Nichaela, montada em seu
cavalo, acompanhando, ao lado de seu lder, as cinco dezenas e meia de soldados. Alguns
nem sabem segurar as armas direito. Veja aquele apontou um rapaz imberbe e esmaecido.
Vai
car com bolhas nas mos, agarrando o cabo da espada daquele jeito.
Fazia pouco mais de dois dias que eles marchavam junto a Roderick e os cinquenta e cinco
soldados de Tyrondir, mas Vallen j se arrepe
ndia. Grupos grandes er
am lentos, e a distncia
que seria facilmente percorrida
com dez homens virava um desa
o de flego e pacincia
C   C  C   A
malcia de militares calejados, o que, embora signi
casse muito entusiasmo juvenil e esperanas
largas, tambm signi
cava pouca e
cincia real. Ao invs de aliviarem os temores com vinho
e mulheres, mantinham-se em um perptuo estado
de viglia tensa; o que seria muito bom se
pudesse ser sustentado. Mas, invariavelmente, os corpos e almas jovens fraquejavam.
Como todos os jovens, tinham muito medo, e achavam que todos os outros no o tinham.
Cada um deles era uma ilha de incertezas, e, te
mendo a reao dos outros, ngia estar seguro
de si. Assim nasciam bravatas tolas e mentiras frgeis, e os que tinham a maior boca acabavam
mais respeitados. Procuravam apoio nos o
ciais, mas apenas Roderick Davranche era um
exemplo luminoso. Os outros dois veteranos tinham amargura demais, e nimo desmaiado.
Serviam apenas para ensinar aos jovens as cois
as perniciosas: pequenas indolncias, pequenas
covardias, maneiras furtivas de evitar o trabalho.
Assim, sobre os ombros do capito Roderick Davranche repousava a segurana e o
carter de cinquenta e cinco homens moles. Tarefa que, a bem da verdade, ele desempenhava
com galhardia.
Estamos caando goblinoides continuava o capito, sob a lua to jovem quanto seus
homens. E vocs?
Caamos um albino respondeu Gregor.
Parece mais fcil.
Davranche era todo fora e certeza. Seu crnio ossudo era apoiado por um largo queixo
quadrado, que sugeria coragem. Tinha os cabelos muito rentes, emendados com uma barba
O I  M
Doze disse Roderick Davranche.
Perdedor! Gregor mostrou os dentes. Dezesseis.
Roderick soltou um urro.
Isso no possvel! Bem, mesmo sendo provavelmente mentira, lhe devo um barril
de cerveja.
Do alto de seu cavalo, Ashlen no entendia nada.
C   C  C   A
Gregor deu um largo sorriso.
So homens de valor! Esto sendo liderados por um servo da Fnix.
Liderou os companheiros descendo a colina com pressa, o cavalo branco galopando.
Da parte do acampamento, uns quatro soldados
se destacavam, tentando parecer garbosos,
enquanto recebiam repreenses gritadas de um
cavaleiro que terminava de ajeitar as ltimas
partes da armadura da placas. Gregor estava animado porque, aps sair do ambiente infecto
de sua famlia, cara agora em um local de es
perada camaradagem. Paladinos e outros servos
de
yatis muitas vezes lideravam tropas do regente de Tyrondir, e, sob as bnos do Deus da
Ressurreio, os homens tinham a fama de adqu
irir coragem espantosa
e vigor imorredouro.
Ainda mais que os outros aventureiros, Gregor
ansiava por um combate, e a perspectiva de
O I  M
Para a surpresa geral dos mais descon
ados, o rapaz tinha boa desenvoltura na vida de
estrada, e no atrasou os novos companheiros. Senomar tambm no tinha grandes motivos
para segui-los, mas parecia ter apreciado a companhia do grupo, e decidira ajud-los em troca
da ajuda que recebera em Ahlen.
No nos deve nada sentenciou Artorius
. Est livre para seguir seu caminho!
Ah, mas eu insisto dizia Senomar, co
m prazer e um sorriso que mal cabia no
rosto magro.
Muitos dias se passaram em mais esta vi
C   C  C   A
DEPOIS DE POUCO TEMPO ESTAVAM SAINDO DE COSAMHIR.
Gregor estava radiante. frente, estrada e luta
s. Atrs, alguns dias onde Ashlen recolhera
pistas suculentas sobre o fugitivo. Estavam, mais uma vez, esquentando em seu rastro.
Embora tivessem perdido muito tempo no cativeiro de Sig Olho Negro (e, por mais de
uma vez, considerado a misso perdida), de
alguma forma haviam sido capazes de diminuir
muito a distncia entre eles mesmos e o criminoso.
A explicao para isso era difcil, porque as
aes do albino no faziam sentido. Pensou-se mu
ito, at que Ashlen ofereceu uma resposta:
Ele tambm no sabe.
Era o mais bvio, que ningum enxergara. Os aventureiros comearam a entender um pouco
daquele carniceiro misterioso quando aceitara
m que ele, simplesmente, no sabia o que fazia.
Mas est aprendendo concluiu Ashlen.
Aprendendo era esta a chave. As aes e
O I  M
Ellisa sorriu, pois sabia que era a
U M  C 
E esse tal de Gherard, pai de Gregor? a terceira vez que venho a esta casa e, em
todas as vezes, ele esteve muito ocupado para
ver o prprio lho! Ningum trabalha tanto.
Meu conselho que ele pare de se masturbar, tr
ancado no escritrio, e
venha beijar os ps de
Gregor, que muito mais hom
em do que ele jamais ser.
Lady
Helen parecia prestes a desmaiar. Jezebel tinha a boca aberta em exclamao muda.
O que Gregor faz muito mais valioso do
O I  M
lady
Helen. a primeira alegr
ia que nos d em tantos anos.
Me! o paladino no pde conter um grito. No ano passado, recuperei o artefato
que um necromante usaria para dominar esta cidade!
U M  C 
Claro com um olhar de pouca importn
cia, Jezebel tomou um gole de vinho.
Como sempre era uma mulher bela e altiva, tendo herdado a boa aparncia da me e a
dignidade imponente do pai. Parecia-se bastante
com Gregor, principalmente nas costas largas
e no porte orgulhoso. Contudo, diferente do irm
o, Jezebel usava essa altivez para humilhar as
outras pessoas, ao invs de inspir-las.
Pequenos comentrios foram despejados aqui e ali, trs dos comensais sabendo muito
bem que era pouco polido deixar a conversa morrer. Quatro servas jovens de uniforme
ocupavam-se enchendo clices e pratos. Com no
jo, Gregor notou os olhares cobiosos de
Rainer para as garotas.
Gherard no vir se juntar a ns? disse Gregor, tentando tirar da cabea a luxria
mal contida do cunhado.
Seu pai est muito ocupado disse Helen Vahn. Ele trabalha, voc sabe?
Eu tambm trabalho respondeu o paladino, com irritao. Voc sabe?
Claro, querido sorriu a mulher mais
velha. Eu nunca disse que no.
Vallen sentia-se cada vez mais desconfortv
el naquela mesa de inimigos. Gregor era
um homem poderoso em todos os sentidos: capaz de derrubar um boi com um golpe bem-
aplicado, capaz de inspirar soldados, conquistar
donzelas e receber o favor de reis. Contudo,
naquele lugar ele no conseguia articular duas
palavras sem que sua me pusesse por terra
qualquer comentrio. Estava nervoso demais para ser altivo. Na verdade, parecia mais um
guerreiro novato, quase esvaziando as tripas antes da primeira batalha.
Matar no trabalho cuspiu Jezebel. crime.
Eu no mato! exasperou-se Gregor. Sou um guerreiro sagrado!
timo.
yatis conquistar meu re
speito quando vier at aqui nos dar dinheiro.
Por um instante, Vallen achou que o amigo ir
O I  M
Acho que meu dever resignou-se o paladino. A nal, eles so a minha famlia.
Suspeito que
yatis no
caria muito feliz se eu simplesmente lhes virasse as costas.
E o seu irmo? Vallen estivera dan
ando em volta da pergunta h um tempo.
Parece que ainda no se pode mencion-lo disse Gregor, em voz baixa. Depois
que ele morreu, sumiu para minha me e os outros. Nada de ruim na casa dos Vahn.
Vallen murmurou que entendia, coando a barba recente. De um salto, levantou-se.
Chega de suar aqui dentro, Gregor Vahn, paladino de
yatis. Vamos enfrent-los.
Com um suspiro enorme, Gregor
ergueu o corpo alto e largo.
Vamos. Talvez a casa seja atacada por drages.
No disse Vallen, em seu costumeiro tom con
ante. Seria fcil demais.
Rainer comprou mais uma o
cina de vidreiro disse
lady
Helen, com um sorriso na
direo do genro bem-vestido.
Sim, eu sei
rosnou Gregor. A senhora j me disse.
Desculpe-me ento Helen Vahn limpou os lbios com um guardanapo de linho
bordado. Mais vitela?
Estavam em um jantar farto e desagradv
el. Sentavam-se mesa Gregor, Vallen,
Helen, Jezebel e Rainer (os ltimos, respecti
vamente, a irm e o cunhado de Gregor). A
comida era deliciosa, farta e aromtica, e o ambiente era purulento e venenoso. Gregor
vestia uma camisa branca, leve e frouxa, e es
tava claro que desejava sua armadura mais
do que tudo. Recebia cada comentrio da me como um golpe de espada. L fora, o sol
terminava de se pr.
Conte a Gregor sobre suas o
cinas, Rainer voltou a dizer
lady
Helen.
Rainer era um homem fraco de rosto oval e macilento. Sua pele muito branca, cravejada
de pintas marrom escuro, lembrava uma fritur
a insossa. Ele tinha um sorriso perptuo e
U M  C 
Isso mesmo. Com uma faca. No olho. Ela me contou tudo. Lembra de tudo.
Isto horrvel.
mesmo. No que o bastardo no merecesse. Ele fazia coisas ainda mais hor-
rveis com ela.
Eu acho que no quero saber que coisas.
Voc j imaginou. E exatamente isso. Ele fazia essas coisas com ela, e ento um
dia ela o matou.
Gregor tentou falar algo, comeou um ou dois
comentrios, depois decidiu que no havia
o que pudesse ser dito.
Ningum sabe disso disse Vallen. Nem mesmo Nichaela. S eu. E agora voc.
E agora eu.
Mais silncio e vapor.
Ela tinha doze anos.
Doze
anos. Vem se virando sozinha desde ento.
Mais tempo que qualquer um de ns disse Gregor.
Muito mais. Por isso ela to boa com aque
la porcaria de arco. J viu as coisas que
ela faz com aquilo?
J Gregor falou devagar. Ela muito boa mesmo.
O I  M
Seguiu-se uma conversa hostil e incua, e
Gregor parecia estar sendo torturado. Por
m, os dois aventureiros foram convidados (quase fora) para jantar na casa. Tiveram uma
hora e pouco sozinhos, enquanto
lady
Helen Vahn arrumava-se para a janta e mandava um
garoto chamar Jezebel, sua lha, e Rainer, seu
genro. Gregor aproveitou para desfrutar de
uma das nicas coisas que lhe agradava naquela casa inamistosa: a sauna de vapor fervente.
Era um luxo apenas de nobres ou dos burgueses mais ricos. Ele e Vallen suavam no aposento
U M  C 
Que bom, me disse Gregor.
Estavam os trs sentados na biblioteca. Vallen j estivera aqui, e j ouvira as reclamaes
incessantes do amigo
lady
O I  M
Sabe que, quando garoto, eu nunca entr
ei por esta porta? disse Gregor, sbito.
Nem uma vez sequer. Usava a entrada dos empregados.
Corra atrs de Lenora. Ela foi por l Vallen tentou um comentrio leve. A mulher
j havia sumido por uma entrada lateral.
Eu j corro atrs de voc, Vallen havia um travo amargo na voz de Gregor. Corro
atrs de voc para escapar desta casa.
Cruzaram a porta aberta para adentrar uma sala imensa, inteiramente decorada em ouro
e seda, com janelas gigantescas de vidro transp
arente, por onde o sol entrava em abundncia.
Mestre Gregor Vahn! a voz de um servo anunciou o nome com um entusiasmo
estridente e exagerado. E companheiro!
Uma pequena (mas feroz) horda de empregados
cercou os dois aventureiros, recolhendo
suas armas. Estranhamente, Gregor sentia mais
vontade do que nunca de ter uma boa espada
e um escudo, mas os equipamentos desaparecera
m por uma das muitas portas laterais, para
uma ala da manso longe da vista.
Gregor ignorou as muitas atenes desmedidas do batalho de serventes uniformizados,
parando para cumprimentar e chamar pelo
nome apenas alguns poucos, invariavelmente
idosos. Vallen tentou manter a boa educao
. Seguiram no que parecia uma jornada sem
m, atravessando a sala encharcada de sol para um corredor largo que se abria para diversos
cmodos. Toda a casa era clara ao extremo, mas em nenhum ponto os muitos candelabros
ornamentados estavam acesos. Um cheiro suave de
ores, incensos e limpeza permeava todo
o ambiente, e havia muitos ambientes amplos e cantos confortveis e convidativos, cheios
de sofs e almofadas. Mesmo assim, quem olhasse para o rosto de Gregor pensaria que ele
entrava na pior das masmorras.
Seguiu, dois passos frente de Vallen, at chegar a uma biblioteca imensa com um p-
direito mais alto que dois homens, as paredes
forradas de estantes. Havia poltronas e pequenas
mesas, quase todas preenchidas por livros empilhados. A madeira era de um marrom escuro e
grave, enquanto que tons de carmesim e vinho
faziam os tecidos estofados. No centro daquele
ambiente estava uma cadeira altiva e pouco confortvel, onde se sentava uma senhora de
aparncia distinta. Embora fosse claro que j
avanava em anos, a mulher conservava uma
beleza elegante. Bebericava um licor, e, embo
ra estivesse cercada por livros, no lia nada.
Senhora disse Gregor, mal conseguindo disfarar uma careta.
Meu lho disse a mulher, com um sorriso calculado. Seja bem-vindo.
O marido de sua irm comprou mais uma oficina de vidreiro disse
lady
Helen Vahn, a me de Gregor Vahn, entre um gole e outro de uma bebida forte. Est
realmente prosperando.
U M  C 
Vou com voc era Vallen, e ele aceitou. No admitiu, contudo, mais ningum.
O I  M
que no em nome, e hoje em dia ningum mais queria retornar a Lamnor. Os sculos haviam
se passado, e o que havia no continente sul fora esquecido, e uma civilizao maravilhosa
fora construda ao redor de uma colossal est
tua de Valkaria, a Deusa da Humanidade. Hoje
em dia ningum mais precisava de Lamnor, e Khalifor no precisava barrar a passagem de
ningum. Ou, pelo menos, assim se acreditava.
E Gregor Vahn se tornava mais sombrio, enquanto o sol atingia o seu pice e comeava
a decair. O ano j ia morrendo e as torres espi
raladas de Cosamhir j surgiam, enquanto o
paladino se calava e obcecava-se em polir armas, armadura e escudo.
Quando o grupo adentrou os esplndidos port
es de Cosamhir, Gregor era um cavaleiro
imponente e magn
co, todo metal brilhante, com um pe
queno mas orgulhoso estandarte de
yatis a pender de seu cavalo branco. S destoava seu rosto, que, por trs do cavanhaque
bem-aparado, carregava uma expr
esso pesada de poucos amigos.
Ainda no entendi dizia Senomar.
Deixe-o era a nica resposta de Vallen.
E realmente era difcil entender. Nos portes de Cosamhir, Gregor tomou a frente do
grupo, portando-se com altivez serena. Os guardas, vendo seu smbolo da Fnix, curvaram-
se em respeito, permitindo a passagem do grupo sem nenhuma pergunta. Os cavalos dos
aventureiros trotavam com graa pelas ruas caladas da cidade, liderados pelo corcel branco
de Gregor Vahn, e todos olhavam-nos como he
ris. O paladino parecia exalar um brilho que
se derramava sobre os companheiros, e era claro que, naquela cidade, ele era muito respeitado.
No que muitos soubessem o seu nome Gregor, por escolha prpria, passava a maior parte
do seu tempo longe de casa, desde que se ordenara no servio da Fnix apenas o smbolo
yatis era o su
ciente para comandar tanta admirao.
O culto a
yatis, o Vitorioso sobre a Morte, era raro na maior parte do Reinado. A
ressurreio e a profecia, os domnios do Deus
Fnix, no eram elementos presentes na maior
parte das vidas simples do povo e, portanto, o imponente deus no era lembrado em muitas preces.
Contudo, em Tyrondir, por alguma razo, o nome da Fnix era muito evocado. Havia smbolos de
yatis adornando lojas, abenoando casas, em ma
is de um templo. Talvez por viver na fronteira
entre o velho e o novo, Tyrondir apreciava a doutrina de renovao da Fnix. Seus clrigos e
paladinos (rarssimos) tinham mais do que uma ponta de satisfao em servir a uma divindade to
U M  C 
impressionante o nmero de vezes que voc pode se afogar antes de aprender a
controlar seus re
exos dissera.
Mas por m ele foi capaz de evitar engolir
gua demais e, mesmo com os pulmes cheios
O I  M
Durante aqueles dias, Vallen passava longas horas com Ellisa, cavalgando frente do
grupo em corridas e conversas in ndveis. Rara
s vezes os outros tinham visto o casal to
ferozmente unido, sempre uma mo tocando um ombro ou cintura, e ambos se agradando
mutuamente, doces como gorad. Para grande irritao de Artorius, que considerava isso um
risco, Vallen e Ellisa frequentemente desaparecia
m juntos para longe do grupo, indo voltar,
muito sorridentes, depois de um longo tempo. O minotauro repreendia-os, dizendo que
aquelas eram as oportunidades perfeitas para emboscadas.
Desculpe, mas realmente no queremos
ningum montando guarda ria Vallen.
Mesmo assim, o mau humor de Artorius era raro, e ele, na maior parte das vezes,
fazia parte do clima bom que havia muito sati
sfeito pela volta inesperada de Gregor e
por Nichaela estar em segurana. Achara em Ko
dai um amigo improvvel, e os dois eram
capazes de gastar dias envolvidos em conversas de estratgia, lminas, armaduras e outras
masculinidades. claro, Artorius preferia no mencionar que j notara os longos olhares do
samurai em direo a Nichaela. Nunca iria admitir isto, mas j considerava o estrangeiro um
ciente para sua irmzinha.
Nichaela ouvia com ateno as melodias simples e rpidas de Senomar, e Kodai era muito
bom em esconder a grande irritao que isto
lhe trazia. s vezes deixava transparecer a m
vontade para com o menestrel.
As msicas so todas iguais dizia.
Tanto melhor era Nichaela. Assim, se voc gosta de uma, gosta de todas.
O outro ouvinte cativo de Senomar era As
hlen, que aprendera a apreciar boa msica
nas tavernas de Deheon, em uma adolescncia raramente mencionada que sugeria muitos
excessos. Ashlen e Senomar eram, de certa forma, muito parecidos ambos bichos de
cidades, trocando piadas e comentrios crptico
s que s faziam sentido para os dois. No era
que fossem conhecidos, ou falassem em algum tipo de jargo apenas tinham um senso de
humor muito semelhante e peculiar, que geralmente se perdia nos outros.
O nico ensimesmado era Rufus, mas mesmo el
e tinha o esprito nas alturas. Durante
U M  C 
LONGA VIAGEM FOI O MELHOR DOS BLSAMOS. O GRUPO TEVE
a chance de curar seus corpos e almas, atravessando Ahlen por mais de um ms, sobre cavalos
e dentro de carroas, escoltados por soldados
pomposos durante boa parte do caminho. A
companhia dos homens uniformizados era es
tranha (aps tantos haverem morrido pelas
mos dos aventureiros), mas por m as presenas o
ciais foram descartadas como um
inconveniente menor, e eles aproveitaram o praz
er simples de estarem juntos. At a fronteira
de Ahlen houve a escolta, e depois eles foram d
eixados para si mesmos. As estradas ahlenienses
eram um prodgio de construo e limpeza; as rodas das carroas rolavam suaves, e os cavalos
caminhavam com facilidade.
Os piores governantes fazem as melhores estradas como dissera Senomar.
Senomar continuava com eles, e continuaria pelo menos at Cosamhir, a capital de
Tyrondir e seu primeiro destino. A presena
do bardo era refrescante, embora Artorius e
Gregor
zessem questo de no deixar os outros se sentirem muito vontade com o novato.
Ele, a nal, tinha vendido a alma para um demnio. Estranho que fosse, Nichaela no parecia
se importar muito com isso. Sua postura podia
ser resumida crena ferrenha de que, no
fundo, Senomar era uma boa pessoa.
Vallen deixara crescer uma barba loira e de
sigual. Ele ainda era jovem, e isto
cava muito
evidente nos pedaos de pele rosada que os
os dourados deixavam entrever.
Ficou horrvel foi o veredicto risonho de Ellisa.
Ele acha que isso vai fazer dele
um guerreiro disse Gregor.
Nada dava mais prazer a Vallen Allond do que a
pura presena dos companheiros, e o fato
de todos estarem relaxados o su
ciente para fazer esse tipo de
pilhrias. Ele levou Gregor ao
cho em lutas amistosas de novo e de novo, a cada comentrio jocoso sobre sua barba. Todos
riam, e aquilo era mais o jogo de duas crian
as, mas, por trs, podia-se ver dois lutadores
extremamente capazes, e de igual habilidade.
O I  M
Os animais morrero s centenas, sim continuou um polvo. Aos milhares. Mas,
por mais perigosa que seja, a tempes
M , S N  
Basta! rugiu o mar. Mais uma vez, Oceano era tudo. Seus sditos se regozijaram
por estarem de novo envolvidos no deus, e Glrienn mais uma vez foi abraada.
Diga para ele, por favor choramingou
Glrienn, mas foi o nico som que se ouviu.
Silncio, fora o chiado das correntes. A luz estava mais contida.
O I  M
O belo elfo ponderou por um momento.
No vejo porque faz-lo falou distra
do. Considere sua visita bem-sucedida.
Glrienn piscou, incrdula. Pensava em ir embo
ra quando um dos raios de luz que entrava
pelo salo brilhou mais forte.
Logo, a luz dourada se intensi
cou at que Oceano e Glrienn
tiveram de cobrir os olhos, e Allihanna nadou para trs de uma formao de corais. Todo o
salo se encheu de incandescncia,
e uma voz lmpida saiu do meio da luz.
No faa isto, Oceano. Glrienn est cega
de dor e dio, e no v que a tempestade
destruir nossa terra. Voc pode impedi-la, Oceano.
Era como se um sol brilhasse dentro do palcio. Logo, a gua estava to quente que
beirava o intolervel.
Azgher cumprimentou o Deus dos Mares.
M , S N  
Oua-nos, Oceano! Oua-nos e ver qu
e falamos o que certo! Toda tempestade
passa pelo mar!
E de fato, em resposta ao rugido monstruoso que deixou em pnico quase todos os
habitantes daquele Reino, veio um maremoto. Montanhas de gua que desa
avam tocar o cu
se ergueram e caram de novo; ilhas foram destrudas como folhas secas; milhares se afogaram
e outros tantos foram simplesmente dest
roados porque Oceano estava irritado.
Glrienn girava quase desfalecida, perdida em meio fria dos animais e das guas.
Seja apenas um, Oceano! rugiu Allihanna. Sua presena ali crescia, e agora quase
todos os animais que habitavam o Reino j eram ela. Respeite Glrienn, que tambm
me de uma raa!
Em instantes, o mar in nito se acalmou. A
gua mais uma vez plcida e transparente. As
bolhas que turvavam a viso subiram ao ar acima, e o mundo foi sereno.
Venham ao meu palcio disse a gua.
Glrienn sentiu o abrao de pai severo se desmanchar. Agora, ao seu redor, apenas o
molhado frio. Allihanna permitiu que os anim
ais fossem de novo eles mesmos, e muitos
sofreram ao deixarem a magni
cncia da deusa.
Glrienn e o tubaro solitrio rumaram ao palcio. Acharam-se nos corredores vastos
e labirnticos, at um salo imenso mas to
despojado quanto era o resto. Esparramado
sobre um trono disforme de corais e esponj
as, estava um enorme elfo-do-mar, de longos
O I  M
Onde ele est? perguntou G
lrienn. Onde est Oceano?
Aqui respondeu a Deusa da Natureza. Ele est aqui, no sente? Ele
tudo isto.
Glrienn percebeu. Percebeu a razo do poder daquele Reino, e do que sentia
ao mergulhar naquelas guas. Oceano tinha um palcio, sim, e podia ter ali uma forma
humanoide ou animal. Mas, em sua forma mais pura, ele
era
o Reino, assim como talvez
pudesse ser todo o mar de Arton.
As ondas chiaram, as guas se agitaram, jogando para todos os lados o lodo do solo
marinho, e, desse rugido, formaram-se palavras:
O que desejam nos meus domnios, deusas criadoras?
Oceano respeitava os deuses que eram pais e mes. Ele prprio fora o pai e o bero de
toda a vida em Arton, e tinha em maior conta aqueles que houvessem contribudo para essa
vida. Allihanna em especial talvez fosse o mais
prximo de uma companheira que o estranho
Oceano poderia ter.
Vim pedir a sua ajuda, Senhor dos Ma
res disse Glrienn, com reverncia
genuna. No sabia para onde olhar quando falava, sentia-se tola e infantil ao dirigir-se a
todo o mundo ao seu redor.
No me chame por esta alcunha disse o mar. Eu no governo, Deusa dos
Elfos: eu sou.
M , S N  
O I  M
Quando conseguiu se pr em p de novo, Glr
ienn mirou a outra com olhos semicerrados.
M , S N  
O I  M
que a morte e qualquer assemelhado que o fugitivo conseguisse produzir era mesmo a
coisa mais horrvel do mundo.
Tire-nos daqui! exclamou Ellisa.
Se esto caando aquele homem disse o regente. Farei muito mais do que isso.
E colocou de novo o elmo,
cando mais uma vez forte.
Contam com o apoio do reino de Ahlen.
E foram disparadas ordens. Haveria vingana, e
orngald Vorlat colocaria seus inimigos
uns contra os outros. E Vallen e Gregor, que de
rrotavam sozinhos mais de duas dezenas de
guardas, foram escoltados com honra (Rufus logo atrs). E Artorius, Masato, Nichaela e o
bardo foram puxados para fora da correria de pr
isioneiros fugitivos, e levados segurana.
E todos se reencontraram com Gregor, e houve
lgrimas, e Ellisa nunca esteve to feliz em
jogar seus braos ensanguentados ao redor de Vallen. E eles foram levados para fora de Ahlen
sob escolta armada, e puderam descansar um po
uco. E Senomar resolveu no mencionar seu
nome, ou que no era parte, o
cialmente, daquele grupo.
No podem fazer isto! gritou Fiona Rigaud, logo antes da besta ser disparada.
assassinato.
O virote entrou certeiro na garganta. Por toda
artann, as famlias nobres cavam
menores: muitos Rigaud, Schwolld, Vorlat eram mortos por adagas ou bestas ou delicados
frascos de veneno. Morreram todos os conspiradores, com certeza, e morreram mais alguns,
o que era de ser esperado. Em todas as guerras h vtimas inocentes.
orngald nunca
soube da conspirao: mandou matar a esmo e,
com tantos alvos to prximos, no difcil
acertar um tiro.
Tudo vai
car bem disse
orngald Vorlat, sentado na beira da cama de sua esposa.
Voc estava errado disse Vallen para Rufu
s, mais tarde. No eram magias ruins.
Na verdade, aquela uma tima magia e depois: Obrigado.
E Rufus Domat, por pouco tempo, esteve feliz.
A N  M  (  P  R  )
Digam o que querem.
Ellisa ponderou por um momento.
Sair daqui em segurana.
Silncio.
Apenas isso? Vo!
Espere! disse Ashlen de repente. O alb
ino. O albino alto. Ele passou por aqui,
no mesmo?
Houve um estremecimento geral. Os guardas pareceram ter muito medo daquela
pergunta, daquele assunto. O homem olhou para baixo.
Sim.
Ellisa e Ashlen se entreolharam, incertos do que dizer.
Voc o regente, no ? falou Ashlen por m.
O I  M
E eles corriam.
E a criminalidade de
artann tambm corria, em liberdade.
orn e Ashlen Ironsmith, no meio do quarto.
Quem essa? disse Ashlen.
Algum importante porque os vinte guardas que haviam entrado no quarto
momentos depois de
les estavam imveis.
A mulher deitada respirava, mas,
fora isso, estava imvel.
Ellisa tinha uma adaga em sua garganta.
Por favor disse o capito dos guardas, retirando a mscara. No faam nada.
Acho que a esposa do regente
disse Ashlen em um sussurro alto.
Ellisa riu.
ela? Yelda Vorlat?
Yelka corrigiu o capito automaticamente. Logo depois fez uma careta para o
erro simplrio.
timo saber disse Ellisa meli uamente. Movam-se e ela morre.
Ashlen rezava para que ela estivesse apenas blefando.
A porta se abriu de novo. Uma
gura dominou o ambiente de um s momento, e Ellisa
soube que seria mais difci
l ameaar dali em diante.
Ladeado por seis sacerdotes de Tenebra, entrou no quarto um homem alto, de armadura
A N  M  (  P  R  )
olho, a boca se alargava em um buraco medonho, revelando os dentes por baixo da bochecha
carcomida. O homem estava branco como um cadver, e inchado como uma vtima de
afogamento. Seu longo cabelo castanho fora parcialmente comido por algo, e estava enredado,
sujo. Era a pessoa mais bonita que Vallen j vira.
Era Gregor Vahn.
Batalha difcil? continuou a voz bem-humorada, com di
culdade pela falta de boa
parte da bochecha. Alguns guardas de segunda, bbados e mal pagos! Ainda bem que
nenhum grupo de aventureiros depende da sua liderana, Vallen Allond.
Vallen sorriu, e soube que estavam salvos.
Quer uma delas? disse, oferecendo Inverno, ao ver que o amigo estava
desarmado.
yatis me queime no dia que eu prec
isar de uma arma mgica para vencer
meia dzia de guardas de Ahlen! disse Gregor
, catando um pedao de madeira do cho.
Isto vai servir.
E juntos, com lminas mgicas e um pedao de tbua podre, venceram a guarda de
artann.
tima ideia! disse Nichaela.
Eles corriam, deixando um rastro de guardas cados. Artorius e Masato eram ceifadores,
tirando a vida dos guardas do castelo mais rpido do que eles podiam chegar. Mas Nichaela,
claro, no havia falado para eles. Dirigira-se a Senomar, que dera a ideia de libertar todos os
prisioneiros dos calabouos
do castelo Rishantor.
No foi nada sorriu o jovem magro.
Eles, como todos, tinham ouvido a
echa e dirigiam-se para junto de Ellisa
orn.
Estavam no subterrneo, e portanto no muito longe do calabouo. Por sugesto do bardo,
tinham aberto todas as celas, depois de uma curta batalha contra os guardas carcereiros. Agora
a desordem era ainda maior no palcio pouc
os sabiam quem eram os intrusos perigosos
e quem eram apenas prisioneiros fugitivos. Artorius, Masato, Nichaela e Senomar abriam
caminho com di
culdade, mas com menos lutas atravs da balbrdia.
Admita que eu fui til riu Senomar com prazer, ofegando no meio da correria. O
alvo do comentrio, obviamente, fora Artorius.
Calado! trovejou o minotauro.
Vamos l, repita comigo:
eu engulo meu orgulho...
Masato Kodai era obrigado a admitir: o jovem menestrel fora til. Mesmo assim, era
muito irritante. Nichaela ria das micagens do bardo. O que apenas tornava-o mais irritante
para o samurai.
O I  M
Vamos recuar! disse Rufus.
Como ousa me dar ordens?
, Vallen rosnou por dentro.
Covarde, poltro, traidor, medroso
A N  M  (  P  R  )
ao topo, espira pontuda daquela torre sem m, e jogava o corpo em um abrao de alvio
em volta do amigo.
A corda caiu, solta.
Peguei eles
disse Ellisa, com tantas sensaes que no sentia nada.
Eu no deixei voc cair.
E no queriam nada alm de
car ali, jogados sob os socos das gotas de chuva, at o
m dos
tempos, mas se levantaram e caminharam com
O I  M
Ellisa se jogou para trs, soltando de novo
o arco, enquanto se esquivava para o vazio
A N  M  (  P  R  )
que o rapaz subia. Era como se uma centena de adagas cortassem cada msculo. Mas Ashlen
continuava, sem olhar para baixo, sem perceber o que havia ao seu redor, apenas concentrado
no impossvel movimento repetitivo dos braos que agarravam a corda, impulsionavam para
cima, agarravam de novo, e novamente impulsionavam, in nitas vezes.
Abaixo, outro guarda havia tomado para si a tarefa de cortar a corda. Ashlen no sabia
O I  M
Em desespero, Ellisa agarrou-se corda de no
vo. Em uma das mos, tinha o arco, e decidiu
no solt-lo. A mo que segurava a corda escorregou um bom pedao, dilacerando a pele da
A N  M  (  P  R  )
o gancho para cima, rezando para todos os deuses. Passou caindo por Ashlen, e sentiu o puxo
O I  M
para atac-los. Portavam espadas grandes como
elas prprias, que sibilavam cortando o ar
e giravam em arcos imensos, por pouco no acerta
ndo os rostos dos aventureiros surpresos.
As armaduras eram lentas, davam passos incertos e endurecidos, e suas juntas mal de
moviam, mas os braos que brandiam as espadas eram rpidos em seus movimentos de matar,
A N  M  (  P  R  )
vitrias mesquinhas e derrotas insigni
O I  M
timo. Vistam disse Ellisa. Depois, olhando para Artorius: Ou no.
Eu me escondo em algum lugar disse o minotauro. Precisa que algum de ns
lhes acompanhe?
No. Dois fazem menos barulho que trs.
A N  M  (  P  R  )
para o time que havia entrado por l Artorius, Masato e Nichaela. Estes trs, no sendo
humanos e, portanto, criminosos automticos em
artann,
cariam de prontido para agir
apenas em ltimo caso. Todos eles esperavam que no se chegasse a esse ponto.
Vallen maldizia seu azar em permanecer com Rufus. Sem seus feitios, o mago era um
estorvo em combate. O prprio Vallen j tentara ensinar a ele alguns movimentos com a
espada, mas fora intil. Era melhor que Masa
to fosse seu companheiro como sentinela (sua
pele amarelada e olhos rasgados poderiam ser
facilmente escondidos por uma fantasia), mas
todos haviam concordado que era melhor deixar um homem a mais para proteger Nichaela.
Vallen no discordava a segurana da clriga, como sempre, era uma prioridade , mas
seria melhor ter mais algum.
Diabos
, pensava Vallen,
por que Gregor no pode estar aqui?
As trovoadas continuavam, e as janelas tremiam. Vallen e Rufus estavam postados
prximos a uma janela, para poderem ver a
echa de Ellisa. Mais um trovo e a chuva
comeou a cair furiosa, acrescentando o tambor
ilar constante das gotas algazarra da Noite
das Mscaras.
Ellisa odiava correr riscos inteis. Em sua jornada
fato, as mentiras de Ashlen j lhes haviam salvado a vida diversas vezes, e, naquela misso em
particular, eles deviam sua sobrevivncia mais a
ele do que a qualquer outro membro do grupo.
Conseguimos isto disse Masato, estend
endo os uniformes dos quatro guardas que
haviam derrubado antes.
O I  M
Prefere que eu mostre o meu arco? disse Ellisa, abrindo parcialmente a capa e
mostrando um pedao da haste de madeira. Esta a nica maneira de escond-lo.
Pre ro que no o leve.
Sou quase intil com uma espada disse Ellisa, abaixando a mscara branca e
sorridente sobre o rosto. No se preocupe.
Fazendo um gesto para Ashlen, ela se dirigiu porta.
Espere! ainda disse Vallen.
Aproximou-se da guerreira e,
levantando sua mscara,
pousou um beijo carinhoso em seus lbios. Tome cuidado.
Ela no disse nada. Usando um molho de chaves que pertencera a um dos guardas, abriu
a porta pesada. Entrou junto a Ashlen na parte restrita do Palcio Rishantor.
Rufus, como sempre em que estava sozinho com um dos companheiros, sentia-se
desconfortvel. Ele estava encostado, deitado
como se em torpor, em uma das imensas paredes
do palcio. Os cantos da parede haviam sido usados como latrina desde o incio do dia: fediam
a urina e excrementos.
E ento, o que fazemos? disse Rufus.
O barulho vindo dos andares abai
xo era imenso, e a voz do mago vinha abafada e vibrante
A N  M  (  P  R  )
Pronto bufou Ellisa.
A pior parte do trabalho murmurou
Ashlen enquanto despia os corpos.
Os quatro arrastaram os cadveres at uma sala prxima e retiraram tudo o que poderia
ser til ou usado como disfarce. Comearam a vestir as roupas de guardas.
Tambm odeio isto Vallen colocou um elmo, apertou as tiras embaixo do queixo
e ajeitou a mscara sobre o rosto. Mas o lado ruim. Eles no precisavam morrer, mas
trabalhavam para o inimigo. Pena.
Precisavam mesmo? disse Ashlen enquanto vestia uma cota de malha.
Eram eles ou ns cortou Ellisa.
Todos eles odiavam fazer aquele tipo de coisa enfrentar aqueles que no tinham nada
a ver com uma misso, mas que se interpunham no caminho. Gregor invariavelmente se
recusava a fazer este tipo de coisa, mas por vezes era inevitvel. Doeu em Vallen perceber que
a ausncia do amigo ag
ora era um benefcio.
Alm do mais, eles serviam a Ahlen diss
e Vallen Allond, tentando se convencer.
Aquele tinha sido o principal argumento para
apaziguar suas conscincias: Ahlen era um
lugar de vilezas, e enfrentar as foras o
O I  M
um mapa verdadeiro isso era um item poderoso demais. Percorreram corredores
labirnticos, subiram escadas de
mrmore cobertas de imundcie, e por m chegaram a uma
rea onde o nmero de pessoas espremidas era menor. Mais um trovo ribombava as janelas
A N  M  (  P  R  )
claro que Vallen, Ellisa, Rufus e Ashlen no sabiam de nada disso. Apenas abriam
caminho pela multido frentica, as cabeas zu
mbindo da algazarra infernal da Noite das
Mscaras. O calor era sufocante o dia j fora quente, e mesmo agora, no incio da noite,
o ar permanecia abafado, como se o cu fosse uma tampa que estava muito baixa sobre suas
cabeas. Na verdade, todo aquele calor emanava das centenas de corpos que se colavam,
esfregavam, chocavam, na dana incomp
reensvel dos ahlenienses em festa.
Rufus se sentia tonto. O cansao de nadar por entre os membros suarentos, o con namento
da enorme mscara de coruja e o ar grosso e qu
ente eram demais para sua constituio frgil
ele sentia a conscincia querendo fugir e os
olhos se fechando contra a sua vontade.
O I  M
PALCIO RISHANTOR NO CONHECIA IGUAL EM ARTON. SUAS
inmeras torres pontiagudas rivalizavam co
m as montanhas em ambio. Eram uma colmeia
de janelas envidraadas que observava toda a cidade de
artann. O palcio dominava qualquer
outra construo na capital de Ahlen, lembrando mesmo aos mais abastados que o regente
era supremo, e sua moradia fazia as manses burguesas parecerem casebres. Em seu mago,
o Palcio Rishantor era um monumento ostentao e frivolidade da nobreza ahleniense:
C  F   R 
tmido, depois abundante. Ela urrava um grit
o estranho, pois tinha a mandbula quebrada
e no conseguia articular o som. Procurava os olhos de
orngald, procurava-o para que
ele zesse
, mas no conseguia v-lo. O estranho fez um corte fundo e reto, partindo o
ventre em dois, de cima a baixo.
Lquidos se despejaram, abundantes,
e encharcaram o leito suntuoso de
orngald e
Yelka Vorlat, o casal regente de Ahlen. O albino en
ou a mo fundo dentro do corte, e saiu de
l agarrando uma coisinha estranha, que se
gurou na frente dos olhos por um tempo.
Parecia vagamente uma pessoa.
Como uma larva
, pensou o albino.
Isto no interessa. Aqui os reis surgem muito fracos.
Por isso o rei atual no o teme pode mat-lo a qualquer momento
. Este era o pensamento do
albino. O resto do que ele pensava era estranho demais.
Descartou a criaturinha disforme que havia arrancado do ventre de Yelka Vorlat.
orngald olhava horrorizado. O estranho saiu
calmamente do palcio, andando, um pouco
desapontado. Mais uma vez, pensou em como era bizarro aquele lugar.
Vamos cancelar o festival este
ano disse um dos conselheiros.
No rosnou
orngald Vorlat. Haver a Noite das Mscaras, e ser gloriosa,
e ningum fora do palcio saber do que aconteceu. Mate quantos precisar para garantir
este sigilo.
O conselheiro assentiu em silncio.
E, nesta Noite das Mscaras, todos os que um dia me opuseram iro morrer. A tradio
de Ahlen perdurar. Que seja um festival de alegria e veneno!
Em seu salo, Fiona Rigaud bebericou um pouco de ch. Estava entediada. Chamou
um servo e enviou uma carta, prestando o cia
lmente as condolncias pelo que ocorrera com
Yelka Vorlat.
O I  M
O intruso deu um passo frente, as mos crispadas em garras sujas. O homem de
armadura fedia a medo.
orngald Vorlat estremecia. Fora ensinado
a usar uma espada, claro e fazia questo
de se exibir para plebeus e nobres em sua espl
ndida armadura e armas,
todas encantadas por
magos antigos. Mas aquilo no era algo que apreciasse fazer. Os reis brbaros lutavam ele
era o regente de Ahlen, e seu campo de batalha era outro. Vestiu o elmo,
cando totalmente
C  F   R 
feria seus olhos. Os clrigos tinham fora no
ite, quando no se escondiam sob capuzes, mas
surgiam em toda a sua glria, com armaduras requintadas.
O I  M
pontos os cortes fossem to profundos que o br
anco dos ossos aparecesse, o estranho no
parecia debilitado. Pelo contrrio, mal ofegava. Tambm no tinha a expresso de deleite
selvagem que muitas vezes acompanhava um guerreiro no meio da matana. Era apenas um
olhar incuo em suas ris vermelhas, um olhar
indecifrvel que no traa emoo. Tambm no
era de distanciamento frio, era
algo diferente
, que assustava os soldados quase tanto quanto a
matana em si. O estranho apenas olhava daquel
e jeito horrendo, e apoiava as enormes mos
nos joelhos, arqueando de leve o corpanzil comprido.
Covardes! berrava o capito.
Traidores medrosos!
Filhos de prostitutas!
Um dos soldados no suportou mais e, com um grito pattico, irrompeu do grupo
compacto, brandindo sua lana e correndo na
direo do estranho. Olhos esbugalhados de
humilhao e medo.
O albino catou a lana antes que chegasse ao seu peito, e quebrou o cabo facilmente, com
uma mo. Tomou a lmina com um pedao de cabo partido, enquanto, com a outra mo,
segurou a haste intil de madeira. En
ou a ponta da lana de um golpe s na garganta do
jovem soldado. O corpo gorgolejou sangue e bolhas, e tombou.
O capito tentava repreend-los, mas avaliava se no seria melhor ter aqueles soldados
como proteo caso ele mesmo fosse fugir. Foi ti
rado de suas dvidas por um grupo de passos
decididos, que ecoava no corredor largo atrs deles.
Eram dez homens. Cinco deles trajavam mantos escuros com bordados complexos, e
os outros cinco vestiam robes negros impecve
is por cima de armaduras pesadas. O capito
suspirou aliviado eram magos e clrigos de Tenebra, a Deusa das Trevas.
Saiam do caminho disse um dos clr
igos. O grupo de soldados se abriu
imediatamente, e os dez homens passaram.
O albino procurou em sua mente por um momento, e logo se lembrou de algo semelhante
no incio de sua incurso naquele mundo. Er
am homens que utilizavam o poder dos deuses, e
outros que usavam de alguma ener
gia estranha que ele no conhecia.
Desta vez, o albino sorriu.
Em nome de Tenebra e do reino de Ahlen, ordeno que se retire! proclamou um
dos sacerdotes.
Tenebra, embora fosse considerada maligna por boa parte das pessoas de Arton, no
o era, exatamente. Tenebra era a Senhora da Noite, e protegia as criaturas noturnas, os que
viajavam sob a escurido e aqueles que preferiam
seu frescor e sombra ao calor e luz sufocantes
de Azgher, o Deus Sol. Tenebra era uma boa de
usa para o reino de Ahlen. Aqueles clrigos
tinham o smbolo de Tenebra uma estrela negra de cinco pontas bordado sobre o tecido
j negro de seus robes, criando um efeito de vcuo, que dava a impresso de que a estrela era
ainda mais negra que o negro, mais escura que
a noite. O albino atacava noite, pois o sol
C  F   R 
Ele pode ser enganado insistiu o velho.
Ns estamos seguros.
Com isto, Fiona olhou signi
cativamente para Quincy Vorlat, um homem magro e
pastoso que se encolhia em uma poltrona imensa. Quincy Vorlat no havia sido um nobre
sempre era um comerciante, e apenas j adulto conseguiu provar ser o lho bastardo de um
Vorlat dado a amantes. Chantageou o pai at espremer o direito de usar o nome, e conspirava
com Fiona e os outros por pura vingana contra todos os Vorlat.
Nosso amigo Quincy tem serpentes que nos protegem riu Fiona.
Todos
caram em silncio com suas bebidas. Serpentes a sugesto de clrigos de Sszzaas,
o Deus da Traio, morto mas ainda muito temido. O culto a Sszzaas era proibido em todo
o Reinado, mas existiam muitos Szaazitas esco
ndidos, e Ahlen era um terreno especialmente
frtil para eles. No se sabia po
r que os clrigos de um deus
morto ainda recebiam seus poderes
divinos muitos diziam que szaazitas atualmente eram apenas um mito.
Um brinde ao estranho, meus senhores!
Fiona quebrou o silncio com sua voz
torta e estridente.
Um brinde ao albino!
E os copos tilintaram.
O I  M
fosse descoberto. Outros apenas incitavam os mais fracos a tomarem os riscos, e no corriam
risco nenhum por si mesmos. Era o caso de F
iona Rigaud, uma viva que tinha libis, favores
e chantagens para proteg-la de qualquer eventualidade.
Dentro do ninho de cobras que era Ahlen e em especial a capital
artann era uma
situao extrema a que trazia membros das trs famlias para o mesmo salo. Vorlat, Rigaud
e Schwolld eram rivais desde a fundao de Ahlen, e os nobres nunca haviam hesitado em
incriminar, ameaar ou assassinar uns ao
planejava, atravs de um casamento,
car mais prximo na sucesso do trono assim que o
herdeiro de seu primo morresse. Fester Schwolld
tramava acusar a famlia Rigaud pelo crime
e colocar sua prpria famlia no comando do re
C  F   R 
Apenas queremos que entre no palcio continuou Fiona, entre dentadas comedidas.
Entre no palcio, v at o quarto da rainha e puxe o novo rei, para que possa conhec-lo.
Ele podia fazer isto.
Depois disso, iremos lhe tirar daqui,
meu caro, para que no enfrente quaisquer
problemas. Deseja ir a algum lugar?
O albino desenterrou a palavra. Naquele mundo havia uma palavra para cada coisa, o que
era muito estranho. Ele j havia aprendido a fa
lar razoavelmente bem, mas ainda era difcil
lembrar todas as palavras.
Tyrondir.
Fabuloso Fiona apertou os olhos e os
lbios no que julgava ser um sorriso
encantador. Ir para o reino de Tyrondir.
O albino voltou a comer. Depois, ir
ia vomitar, para poder comer mais.
Ele foi mesmo um achado disse Fiona Rigaud. Meus parabns, Lorde Fester.
Fester Schwolld, um dos cavalheiros que se sentava numa poltrona no salo da famlia
Rigaud, levantou seu copo em agradecimento.
Mas o mrito foi de meu sobrinho. Ele ouviu falar do estranho procurando pelo rei.
Houve uma risada.
Ali estavam os principais membros das trs famlias nobres de Ahlen Rigaud,
Schwolld e Vorlat. Fora da manso Rigaud, era um dia glorioso de sol vibrante, mas os nobres
permaneciam encerrados dentro de suas paredes cheias de afrescos e tetos com iluminao
cial. Aquelas manses e palcios eram um verdadeiro universo; tinham seus sis e suas
estrelas, tinham cadeias de vida e morte que rivalizavam em complexidade com aquelas criadas
por Allihanna, a Deusa da Natureza. Os predadores dos sales usavam peles arti
ciais de
cores berrantes, com pedrarias e rendas para se disfarar em meio quela selva.
O I  M
Sim, as prostitutas de Mergath, ns sa
bemos sibilou Fiona. Estudou-as com
a nco, devo dizer. Mas isto no estudo. Apenas boa vontade.
Algo no corpo do albino ressoava com os corp
os daquelas fmeas. Ele no sabia precisar
o qu, mas no se sentiu ameaado quando elas lhe tocaram. Deixou que as mos pequenas
(que tremiam violentamente) viajassem por seu corpo.
As quatro mulheres levaram-lhe para um quarto, ante murmrios de aprovao dos
velhos ao redor. Fiona se abanava.
Muito depois, o albino emergiu do quarto, nu
e ofegante. Matara apenas duas mulheres, e
uma fora por acidente. Ainda no entendia direito o que havia acontecido, mas aqueles rituais
sem sentido que havia realizado com as mulheres eram um bom exemplo do que era aquele
povo. Ele passara horas em atividades que no tinham propsito religioso ou militar. Tambm
no se sentira mais forte. Era apenas prazer que coisa imbecil.
C  F   R 
na mo um copo cheio de lquido translcido. Seguindo o exemplo dos outros, entornou o
lquido dentro da boca, engoliu e sentiu as entranhas queimarem.
Gostaria de nos dizer novamente por que
veio nossa cidade? sorriu a mulher que
os outros chamavam de Fiona.
cou calado por um longo tempo, destroando o forro da poltrona com suas
unhas longas e sujas, tentando ameaar os vri
O I  M
NTES.
O albino no tivera de se abaixar para entrar
no enorme salo. A porta era alta, at mesmo
para ele, e o teto, de onde pendia um lustre cheio de
cristais gasosos, era distante como o cu. Havia
muitas pessoas sorridentes em volta do albino.
Mulheres e homens, mas na maioria homens. Os
homens eram velhos, mas as mulheres, em
sua maior parte, eram pouco mais que
lhotes. O albino
olhava para baixo, para todos aqueles rostos, com pupilas de adaga e olhos estreitos de caador.
Estendiam mos para que ele apertass
e. O albino no sabia bem o que fazer.
Pela primeira vez, ele no era um intruso: fora convidado.
A nica das mulheres que era velha se aproxim
ou dele. O albino olhou em volta e mostrou
os dentes. Duas jovens prximas esconderam as bocas, que soltavam risadinhas irritantes.
Bem-vindo a Ahlen, senhor...?
disse a mulher mais velha.
Ele no falou nada.
No acho que ele tenha nome, Fiona disse um velho no fundo da sala.
Que adorvel.
O albino foi conduzido pela m
ulher numa volta atravs do salo iluminado. Havia muitos
guardas, mas todos eles estavam distantes, e su
as armas eram patticas. O albino pensou que
poderia matar todos ali, caso fosse necessrio
. As pessoas espalhadas no salo lhe faziam
gestos sem sentido (levantando copos com lquido, meneando suavemente as cabeas). Ele
estava cada vez mais intimidado.
Foi empurrado para uma poltrona, ao redor da qual se reuniram muitos dos velhos. Uma
das garotas sentou-se em seu colo, mas o albino arremessou-a longe com um gesto. Houve
uma gargalhada geral.
S ,  B
Tenho meus princpios. Alm disso,
eu sabia que tudo daria certo.
Voc poderia ter morrido!
Mas tudo deu certo, no deu? sorriu o bardo.
Quando encontrou os aventureiros, Senomar estava sendo levado, de modo a no ser
visto por ningum, para o palcio. Os nobres de Ahlen eram cobras ardilosas, mas por vezes
estavam to fundo em suas intrigas que no viam
um palmo sua frente. Por ordem do regente,
os guardas haviam feito o bardo cativo de refm ao primeiro sinal de hostilidade. Haviam
assumido que qualquer ameaa a Senomar era ob
ra de algum nobre invejoso, que desejasse o
menestrel para si e que, portanto, no perm
itiria que ele fosse ferido. Caso no houvessem
tomado o refm, os guardas poderiam ter luta
do melhor. Poderiam ter tido alguma chance.
Mas, pensando bem disse Senomar, medi
ndo os guerreiros e suas armas. Acho
que no faria diferena.
Muito bem interrompeu Artorius. Calado!
Eles estavam em uma cmara, frente a u
O I  M
Senomar ergueu as sobrancelhas com um sorriso divertido na direo do minotauro.
Parecia dizer
viu?
Por que voc fez isso? Kodai balanava a cabea.
Eu no estava usando.
Houve mais silncio. Eles seguiram caminhando pelo esgoto. A correnteza era forte, e, em
alguns pontos, eles precisavam parar e se segurar em algo.
O que esse demnio lhe deu em troca? bufou Kodai.
Ele me ensinou a tocar o alade muito bem.
Chega! gritou Artorius. Eu no suporto mais estas sandices. Chega de falar em
demnios e almas. Diga-nos a nal por
que aqueles guardas o estavam prendendo.
Senomar deu uma risada pequena, e suspirou.
Recusei o privilgio de tocar para Lorde
orngald Vorlat, o regente de Ahlen.
Senomar, ele mesmo explicava, era um bardo errante. Um ofcio respeitado e bem-visto
em qualquer canto de Arton, a pro sso de bardo atraa, em geral, alguns dos tipos mais
ousados de todos os reinos. Embora muitas ve
zes servissem como emissrios de notcias ou
simples msicos, os bardos errantes tinham vi
das perigosas mesmo que fosse uma crena
em muitos lugares que matar um bardo atraa o azar, havia aqueles que desconsideravam a
superstio. E muitos bardos (talvez a maioria) consideravam como seu dever caar aventuras,
para depois transform-las em baladas picas, que competissem com outros bardos pelos
maiores feitos. Muitos dos maiores heris de Arton eram procurados por bardos errantes
em busca de relatos em primeira mo com os
quais incrementar as sagas que escreviam.
Governantes e outros nobres tambm, muitas vezes, iam atrs de bardos habilidosos, para
que estes espalhassem sua fama, real ou falsa,
por outras terras. Foi isto que acontecera com
Senomar, um menestrel de renome consid
ervel nos reinos de Ahlen e Deheon.
orngald, o regente de Ahlen, havia mandado
emissrios para trazer o jovem. Ele deveria
S ,  B
girando enorme para, em um momento, ir se encontrar com a pequena parte da cabea do
lder que estava visvel. O corpo atrs do refm
cou mole e caiu para trs, enquanto o crnio
aberto espalhava sangue e miolos. No entanto,
no minsculo tempo entre o arremesso e sua
morte, o lder dos guardas teve re
exos para comear a cortar a garganta do rapaz. Era um
corte pequeno, mas sangrava em profuso impressionante, e ele caiu, moribundo.
Pousou pesadamente nos braos de Nichaela, que havia se esgueirado pelo lado do
combate. Ela viu o ferimento de morte com olhos de calma. Acariciou o cabelo do rapaz e
murmurou uma prece a Lena.
No deixe que este morra sem que o conheamos.
E, com um brilho limpo e um toque, a garg
anta no mais sangrava. No havia mais
ferimento, nenhuma dor. O rapaz, incrdulo, abriu os olhos.
Acho que sou duro demais para morrer.
Kodai e Artorius vasculhavam as proximidades, em busca de mais inimigos. Uma
vez satisfeitos, limparam as lminas e voltaram-se para Nichaela, que ainda tinha o ex-
prisioneiro nos braos.
Eu disse para
car longe disse Artorius, grave.
Nosso amigo agradece por eu t
er desobedecido sorriu Nichaela.
O rapaz se levantou. No sabia se
cava apavorado ou deixava prevalecer o que parecia ser
seu humor natural. Tinha a boca aberta em um meio sorriso torto.
Sou Artorius a voz poderosa e grave.
Nichaela suave como um xilofone.
O rapaz torceu a gua imunda das roupas. Era mesmo bastante alto e magro, com os
ossos surgindo, pontudos, nos cotovelos, joelhos,
omoplatas. Ajeitou o cabelo longo e preto,
tentando domar os ns e redemoinhos. Seu ro
sto comprido e ossudo era algo cmico, com
grandes lbios grossos. No todo, ele era bastante desengonado. Foi at o saco mais atrs e
conferiu o interior. Com alvio, retirou um alade, que segurou com carinho. Quando falou,
sua voz era grossa e estranhamente musical.
Sou Senomar disse, estendendo uma das mos. Sou um bardo.
Voc fez o qu? Kodai no pde evitar um grito.
Vendi minha alma para um demnio disse Senomar, calmamente.
Nichaela, olhos arregalados, estava abismada. Continuava a mirar o bardo, como se, de
repente, ele fosse sumir ou se transformar em algo.
O I  M
Fique aqui, irmzinha disse Artorius.
Nichaela, claro, no obedeceu.
Artorius e Kodai chegaram rapidamente cena que lhes havia atrado: eram cinco
homens, todos com os uniformes pomposos da milcia de
artann. Trajavam mscaras
idnticas, brancas e sorridentes. Um deles, mais frente, segurava um jovem vestido todo de
negro. Ameaava-o com uma espada. Todos os guardas tinham espadas.
O jovem no usava mscara. Era alto e magro. Via-se um pouco de sua face ossuda por
trs dos cabelos, que eram uma massa negra e longa, ondulada e com alguns ns. No parecia
ter muito mais de vinte anos, e no carregava nenhuma arma.
O que fazem com ele? Kodai elevou sua voz lmpida.
Os cinco guardas
caram estticos por um momento. Os
dois guerreiros viram que, mais
atrs, havia um saco grande, contendo alguns
S ,  B
Nichaela os havia abenoado, pois sabia qu
e os piores tipos de enfermidades pairavam em
lugares como aquele. Graas ao conhecimento da Ordem de Tanna-Toh e devoo da Ordem
O I  M
se disfarar, isto seria fcil para o samurai e a
meio-elfa. No entanto, algum orgulho estrangeiro
e um cdigo de honra complexo impediam que Ko
dai se escondesse por trs de uma mscara,
e ele decidira acompanhar o minotauro. Todos
concordaram que Nichaela estaria mais segura
com eles, e ela no protestou. Os trs, depois de se esgueirarem por algum tempo, entraram no
complexo subterrneo dos esgotos. De l, ocultos, seguiam at o local combinado. Rezavam
para no se perder.
E Vallen e os outros abriam caminho com di
culdade pelos corpos colados. Era difcil
imaginar como a cidade abrigava tantos: cada espao das ruas parecia estar ocupado,
e a populao que comemorava era uma s coisa, louca e feliz, preenchendo tudo. Os
aventureiros sufocavam no cheiro de perfume e suor. Havia msica, aqui, ali e em toda
parte. Muitos bardos diferentes cantavam melodias diferentes, e a cacofonia no parecia
incomodar os mascarados, que danavam no
ritmo dissonante dos instrumentos que
lutavam. Da mesma forma, todos pareciam cant
ar, a plenos pulmes e at que as gargantas
S ,  B
Apesar do nome, o festival deixava Ahlen em frenesi durante quase um dia inteiro. No
meio da tarde, Vallen, Ellisa, Ashlen e Rufus po
r pouco no se perdiam um do outro, em meio
O I  M
Peguem o desgraado ela disse, depois de
se despedir. Perdi seis amigas para ele.
Ashlen, sem saber o que dizer, saiu apressado. Vallen assentiu em silncio. Ellisa olhou
para ela, logo antes de sair pela porta, e rosnou:
Ele vai pagar.
A porta se fechou.
S ,  B
E VOC EST CAANDO AQUELE HOMEM, GAROTO DISSE A
prostituta ento j gostei de voc.
Ela falou aquilo sem malcia, apenas um olho roxo e uma dose de amargor.
Isto aconteceu enquanto eles ainda estava
m em Mergath. Ainda no tinham deixado o
estabelecimento de Dylan Brondarr. Estavam
comeando a perceber como havia poucas das
amantes de aluguel, mesmo para uma manh.
S sobramos ns continuou a mulher.
Ashlen no conseguiu evitar uma careta de de
sgosto. O pensamento do fugitivo praticando
aquelas coisas medonhas com as garotas do lu
gar revoltava-lhe as tripas. Lentamente Ashlen
percebia que aquele no era um vilo de histrias: era um homem muito real e perigoso, e
que fazia coisas muito ruins com pessoas que no mereciam. Pessoas que tambm no eram
descries em um livro de contos deixavam lh
os, esposos, amigos; e sofriam, e gritavam
como porcos antes de morrer.
No havia nada de muito heroico em trilhar o rastro inundado de sangue.
Vallen e Ellisa mantinham-se rmes, no deixando transparecer o nojo. Mas, no
escondido, a mo de Vallen segurava Ellisa s um pouco mais forte.
E ele foi para
artann? disse Vallen.
A prostituta con
rmou. Mal continha as lgrimas de memria, mas estava feliz por ajud-
los. A conversa com ela lhes havia custado bons Ti
bares (de volta para a bolsa de Dylan Brondarr),
mas rendera todas as informaes importantes. Ela, atualmente, no dava muito lucro com
seu rosto machucado para o dono da casa. Apenas os mais intoxicados pelo achbuld pagavam
por ela. E ela no podia ser vista no salo pr
incipal at que o inchao no rosto sarasse.
E estou mais barata falou, soluando uma risada seca.
Mesmo assim, tinha sido sortuda. No havia sofrido nenhum ferimento permanente
antes de conseguir escapar.
O I  M
O que foi? disse, nervoso.
Mas ela apenas seguia olhando.
I  B  : M G  
Ellisa deu mais um riso sem humor.
Tpico.
Agora ela examinava com carinho cada uma de suas
echas. Fazia pequenos consertos
naquelas que julgava imperfeitas o arco e a munio, assim como as demais armas, roupas
e armaduras do grupo, eram novas, compradas h pouco em uma vila de ferreiros. Ellisa
O I  M
, POR UMA RAZO OU POR OUTRA, ESTAVAM APENAS ELLISA
orn e Rufus Domat, afastados de todos os ou
tros. Como sempre quando isso ocorria, o
corao de Rufus era um tambor de guerra. Na beira da estrada, no meio da viagem at a capital;
R   P 
E Nimb chiou com maldade, e voltou para dentro do fogo e, em um instante, estava de
novo em seu Reino de Caos, onde esqueceu da humilhao, como um amnsico.
yatis sobrevoou vitorioso o Reino de Chamas. Em Arton, por sua ddiva magn
ca,
muitos voltavam da morte naquele instante. Ele
era o rei daquele lugar, e o guerreiro mais
poderoso de todos os lugares, aquele que nem a morte podia vencer. E
yatis no temia a
tempestade, pois a morte que ela trouxesse, ele desfaria.
Mas estava errado.
Daquela vez, haveria morte que nem
yatis podia vencer. Morte alm da morte, fogo que
queimaria o fogo. A tempestade mataria a Vi
da, mataria a Ressurreio e mataria a Morte.
O I  M
mais frente, e saber que isso obra sua, Lorde Louco. Por que voc imbui minha viso
com seu caos?
Nimb, o Deus do Caos, deu uma gargalhada que se transformou em amantes.
Ora, impossvel esconder algo da Fnix Flamejante! Se v mais frente, ento v o
que vai ocorrer.
A tempestade disse
yatis, ardendo seus olhos de brasa.
A tempestade de Glrienn. E ns queremos que ela acontea, caro Imortal. E no
podemos permitir que sua viso alarme os
outros. No queremos que algum a impea
de ocorrer.
Novamente a Fnix fez seu som aterrador, que ningum sabia se era riso ou rugido.
Milhares pereceram no Reino de Chamas, apenas para, exultantes, nascerem de novo, em um
tempo melhor. O futuro era sempre melhor.
Ningum pode impedir a tempestade, Nimb. Que tolice.
No, agora no podem. Por minha causa.
Nunca puderam! a voz de
yatis fez ruir um continente. A tempestade ir
ocorrer porque eu vi. Eu vejo o fu
turo, Nimb. E o futuro inexorvel.
No Nimb gritou um sussurro. H a mudana, mudana sempre, e o caos
R   P 
onde o fogo ardia livre, e in
ou o peito, poderosa porque nunca morria, e trazia de volta
aqueles que a serviam, e porque via o
futuro, e para ela tudo era glria.
A Fnix era Thyatis, o Deus da Ressurreio e da Profecia. No havia nada mais
glorioso do que ele: o conquistador da mort
e, o guerreiro que renascia, o brilhante e
intocvel, o que sempre retornava. Mas Thyatis, a Fnix, tinha um ponto turvo em sua
viso que englobava os sculos.
O I  M
Foi Nimb? Por isso todas essas coincidncias?
Talvez tenham sido todos os deuses.
Deve ter sido Nimb. muita sorte.
Ou azar.
A raiva do jovem j ter se dissipado, como toda raiva de juventude.
Mas ainda me cheira a histria mal-contada ele dir, mordendo uma ma.
Explicaes pelos deuses so muito simples.
Voc acha? dir o velho, reacendendo o cachimbo, que havia se apagado. Pois eu
acho elas as mais complicadas de todas.
E o jovem comer a ma em silncio. O velho no deveria permitir que ele
zesse isso, j
R   P 
O GOSTO DESTA HISTRIA DIR ALGUM, QUE SER
muito jovem.
Nem eu ser a resposta, vinda de algum muito mais velho.
Haver um momento silencioso, no qual o jovem ir observar o rosto do velho com
cuidado, tentando buscar um argumento venced
or. Mas no conseguir, porque estar furioso
e, como todos os jovens, no ser capaz de esconder isto. J o velho, como todos os velhos,
conseguir esconder muito bem o que sente. Ele apenas mirar o jovem com um sorriso bom.
O jovem achar isto por demais irritante.
Ento por que est me contando?
Haver uma tragada longa de um cachimbo perfumado. Eles estaro em um bosque.
Porque voc precisa saber.
Existir mais silncio. O jovem tentar outro ngulo na discusso.
Isto no pode ter acontecido. So coincidncias demais.
Voc acha? o velho sorrir, com a boca torta pelo cachimbo.
Claro. Eu posso aceitar que eles tenham
encontrado o samurai por acaso, mas agora
eles acharam a pista do fugitivo por sorte! E
est tentando me convencer de que Ashlen
ganhou o jogo de Wyrt sem trapacear!
Mais uma tragada longa.
As pessoas se encontram na estrada. E conhec
em umas s outras, por acaso; eu conheci sua
av por meio de um alfaiate, em cuja loja entrei por acaso. E muitos ganham jogos sem trapacear.
O jovem ir se exasperar.
Mas no tudo isso com s uma pessoa!
Eram nove pessoas.
E o velho estar rindo por dentro, e o jov
em comear algumas perguntas, antes de
desistir e sentar de novo.
O I  M
Teve a impresso que, em algum lugar, os dados de Nimb tambm rolavam.
Eles tiveram dinheiro para uma refeio lauta e para roupas novas, embora no houvesse
armas e armaduras para vender naquela cidade. No meio da tarde, j viajavam em uma carroa.
S  A 
Voc trapaceou, moleque grunhiu um dos velhos.
Todos trapaceiam disse Ashlen. Seu pulso ainda estava na mo forte do guarda,
e uma gota trmula de suor escorria-lhe pela testa. Vocs tm medo de que um moleque
possa passar-lhes para trs?
Notou que conseguira in amar os orgulhos. Atacou de novo rpido:
Vo me matar para garantir que no percam de novo? Ou vo ter coragem e jogar?
Cuidado com a lngua, rapazinho disse Brondarr, mal abrindo os lbios rudes.
Por qu? Vo me matar
mais
? um dos velhos deu uma risada, mas foi silenciado por
olhares reprovadores. Que tal jogarmos, e o vencedor ganha tudo?
No. Voc morre.
Se voc ganhar, morro mesmo. Acha que pode perder?
Dylan Brondarr bateu na mesa.
Para o diabo, criana! Vamos jogar!
E vou ganhar sua vida imunda nesta mo.
Ashlen engoliu e apostou mais alto:
E, se eu ganhar, meus companheiros esto livres.
O velho olhou-o por um tempo, medindo-o com o rosto entortado.
Mas, se perder, a perda tambm ser maior do que um pouco de tortura e
assassinato.
Decidiram as apostas: caso ganhasse, Ashl
en limparia a mesa; amigos e Tibares. Se
perdesse, ele era de Brondarr.
As cartas foram distribudas. Ashlen procurou maneiras de trapacear, mas todos os
olhares estavam nele. Levantou as cartas, quase fazendo uma careta de antecipao.
Eram perfeitas.
Ashlen no descartou nenhuma. Os outros continuavam a olhar, descon
ados. Foram
feitas as trocas, e se mostraram os jogos. Por um momento in nito, as mos de Ashlen
baixaram suas cartas na mesa. Encontrou o jogo impecvel de Dylan Brondarr, e os dados
foram postos no copo e jogados na mesa.
Ashlen olhou, incrdulo, os resultados.
Vencera.
Ashlen se levantou em triunfo, enquanto
os outros jogadores berravam de
indignao. Ainda sorria quando foi revistad
o em busca de cartas ocultas, e ainda era
o rei de Arton quando prestou ateno em algo que Dylan Brondarr falou, no meio de
sua torrente de pragas.
Entre este fedelho e aque
le albino, vou falncia!
O I  M
Vallen rogou uma praga.
Na mesa de Wyrt, a segunda rodada.
Chega de encenao
, pensou Ashlen. Decidindo
comear a jogar a srio, analisou suas cartas. Nada ms. Descartou com esperteza, formou
um jogo forte e mostrou o que tinha. Colocou os dados no copo, agitou-o, orou a Nimb, e
deixou-os rolar na mesa.
Perdeu.
Um dos jogadores (Ashlen esquecera-se do nome) recolheu os Tibares, e, rindo, disse que
precisava mesmo de um guerreiro.
Velho pervertido gargalhou Br
ondarr, prosseguindo com o jogo.
Na sala de espera, um guarda conduziu Vall
en pela porta. Sozinho, Rufus estremeceu
ainda mais. Depois de um tempo, chamou um goblin.
As cartas foram distribudas pela terceira
vez. Ashlen entrou no assunto dos homens,
e aproveitando uma distrao, trocou sutilment
e algumas de suas cartas. Descartou, trocou
mais uma vez, e seu jogo era perfeito imune at mesmo ao humor dos dados. Sua trapaa
passou desapercebida, e ele sentiu muita vontade de sorrir. Mostrou o jogo.
Perdeu.
claro que outro havia trapaceado, mas Ashlen no poderia acus-lo sem denunciar a si
mesmo. Brondarr fora o vencedor, e recolheu as moedas.
S  A 
todos mantinham ateno ferrenha. Era uma sala ampla, mas os convivas s ocupavam
uma mesa apertada. Tudo estava escuro, exceto
pela prpria mesa, qu
e era iluminada por um
lampio. Mesmo na penumbra, Ashlen podia ver alguns guardas atentos espalhados.
Havia quatro homens na mesa. Todos eles tinham idade su
ciente para serem pais ou
avs de Ashlen. Contudo, naquele ambiente traziam o mesmo olhar de um guerreiro veterano
no campo de batalha. H situaes em que um velho mais perigoso que o mais forte e gil
dos jovens.
Bem-vindo grunhiu um dos homens, estendendo uma mo em cumprimento.
Sou Dylan Brondarr.
O dono do prdio e da cidade era um senhor calvo, de feies e corpo grossos e
malfeitos. Os ossos eram agigantados, brutos
e cobertos por uma camada grossa de gordura. O
nariz arredondado era cortado a form
o, como uma esttua ainda no
nalizada. Brondarr trajava
roupas
nas, mas estavam amarrotadas e tinham manc
has grandes de comida. As mangas estavam
arregaadas, revelando os braos peludos. Ele su
ava muito, e constantemente secava a testa e a
papada com um leno encharcado. Fez um gesto para que Ashlen se sentasse, e ele obedeceu.
Ashlen foi apresentado aos outros jogadores, chamados Igor, Devon e Klaust. Os homens
eram parecidos, e se misturavam numa massa
indistinta; todos velhos, feios e ricos. Uma
barba, um par de verrugas, um cabelo ainda
no grisalho diferenciavam-nos, mas logo Ashlen
esqueceu-se de quem era quem. At porque, ele viu logo, o nico adversrio real era Brondarr.
frente dele, havia uma grande pilha de Tibares.
Ao se sentar, Ashlen sentiu um forte cheiro de suor, vindo dos jogadores, que foi se juntar
ao cheiro de fumaa e bebida. Um empregado trouxe um baralho novo, e o caracterstico
cheiro de cartas virgens se agregou tambm.
Quer uma bebida? grunhiu Brondarr.
Agradecendo, Ashlen recusou. As cartas foram embaralhadas e distribudas, os dados de
madeira foram postos em um copo, e o jogo comeou.
Ashlen viu sua mo, e ela no era ruim. Analisou suas possibilidades de jogadas e
descartou suas melhores cartas, recolhendo ou
tras, que nem de longe eram to boas. As
apostas comearam.
Eu aposto o mago disse Ashlen.
Houve uma gargalhada. Um dos jogador
es emendou um acesso de tosse mida.
Nada disso sorriu Dylan Brondarr. Primeiro a garota.
Ashlen xingou em silncio. Em seguida, fez sua jogada pattica. Os outros jogadores
zeram o mesmo, os dados foram rolados e houve um ganhador.
A garota minha! rugiu Brondarr, re
colhendo tambm os Tibares dos outros
jogadores.
Mediante uma ordem, um dos guardas que estavam na sala se retirou. Surgiu na sala de
espera e, tomando Ellisa pelo br
ao, sumiu com ela por uma porta.
O I  M
Mais um golpe no orgulho de todas as mulheres de Arton
, pensou Ellisa. Cada vez mais
aquela jornada lhe dava vontade de quebrar algo, ou algum.
Lorde Brondarr no se interessa por apos
tas deste tipo Mellina apertou os lbios
pintados.
Ah, sim, se interessa sorriu Ashlen.
Tambm posso apostar um mago, aluno
exemplar da Academia Arcana, e um jovem e belo guerreiro. Apenas fale com
lorde
Brondarr,
e, caso ele no se interesse, no irei mais incomod-lo.
Ashlen j havia comeado a apostar. Apena
s conhecer a existncia da mesa de Wyrt de
Dylan Brondarr j era prova de que ele era
bem-informado, e um pouco perigoso. O Wyrt
era um jogo de cartas e dados bastante conhecido em Ahlen. Contudo, apenas membros da
nobreza tinham a permisso de jog-lo as penas eram severas para quem infringisse essa
S  A 
e servos de Allihanna, a Deusa da Natureza
ou mesmo de outros deuses primais, como
Megalokk, o Deus dos Monstros utilizavam plantas alucingenas para obterem revelaes
de suas divindades. Contudo, estas no escravizav
am: era possvel para os druidas e clrigos
utilizarem-nas e, caso decidissem, cessar seu us
o. Alm disso, elas faziam seu usurio enxergar
dentro de si mesmo, encarando verdades que eram
difceis demais para a maioria das pessoas.
J o achbuld s trazia mentiras. Os sonhos de achbuld eram invariavelmente agradveis, muito
melhores que a realidade. No traziam revelaes e, portanto, no eram temidos por aqueles
fracos demais para as vises das outras plan
tas. E, em pouco tempo, o usurio de achbuld
comeava a gostar cada vez mais do mundo dos
sonhos, vendo l mais realidade que no tedioso
mundo real. Muitos caam na armadilha do achbul
d, tratando um nico uso como uma espcie
de descanso da vida. Mas eram raros os que conseguiam limitar-se a apenas um dia de descanso.
Logo, o achbuld virava a vida, os sonhos eram cada vez mais longos e frequentes, e a realidade
desmoronava. Talvez fosse uma existncia feliz viver no mundo de sonhos, cego para o que
existe mas o achbuld era um luxo caro. Assim, a maioria dos escravos logo
cava sem os muitos
Tibares necessrios para compr-lo. E os braos que um dia haviam se aberto para acolh-los
eram rpidos em atirar-lhes na rua. Os comerciantes de achbuld no toleravam aqueles que no
tinham ouro. E, talvez pior que a morte, muitas vidas eram perdidas lentamente, enquanto os
escravos sem achbuld arranhavam a porta do
s comerciantes, vidos por mais sonhos.
No era de se espantar que em Ahlen, onde a vida podia ser to implacvel, tantos
desejassem sonhar.
Os aventureiros atravessavam o salo, ouvindo Mellina discorrer sobre as vrias atraes
oferecidas. Duas jovens, que estavam ali para providenciar divertimento, tentaram sorrir
seduo para os homens do grupo. Maquiagem
espessa disfarava sua aparncia maltratada:
eram escravas do achbuld, vendendo seus ltimo
s encantos por mais so
nhos. Por m, depois
de exaltar as qualidades do vinho servido na casa
e da elfa danarina do terceiro andar, Mellina
nalizou a pequena excurso, com uma mesura e um sorriso.
E ento? O que desejam?
Nada disso disse Ashlen, com sua melhor
expresso sria. Quero jogar na mesa
de Wyrt do senhor Brondarr.
A bela e comedida Mellina disfarou o espanto. Aquele garoto sabia mais do que devia.
A mesa de Wyrt de
lorde
Brondarr apenas para aqueles muito abastados disse ela,
voz de mel com cacos de vidro.
Apenas Ashlen e Ellisa notaram, mas alguns goblins olharam signi
cativamente para
Mellina e desapareceram atrs de portas. Logo, surgiram no salo homens com elegantes
armaduras de couro, portando elegantes espadas longas.
Ah, mas eu possuo riquezas disse As
hlen, desconsiderando o olhar superior de
Mellina para suas roupas duras de sal. Diga-me se isto no uma riqueza fez um gesto
na direo de Ellisa.
O I  M
prdio era um pequeno corredor apertado, que tinha uma porta esquerda e outra frente.
Mediante instrues de Mellina, eles entregaram suas armas para o segundo guarda (na
verdade, suas nicas armas eram as espadas
de Vallen) e seguiram a sorridente mulher no
curto caminho frente. Antes de abrir uma porta, Mellina, sem nunca perder o sorriso, foi
rme em avisar-lhes:
Devem gastar no mnimo cinquenta Tibares cada enquanto estiverem aqui. E
agradecemos se no causarem problemas aquilo, por trs de maneiras impecveis, era
uma ameaa.
A porta foi aberta para revelar um local de escravido.
Ali no se compravam ou vendiam escravos
. Pior: fabricavam-se. O prdio podia ser
chamado de taverna, mas era um local para o consumo de achbuld, uma poderosa erva
alucingena, proibida em todo o Reinado bastante comum em Ahlen.
Bem-vindos ao purgatrio murmurou Ashlen.
O local, escuro e avermelhado, era todo sal
es enormes, por onde u
ma grande quantidade
de moblia luxuosa se espalhava em harmonia. A maior parte eram divs estofados, onde
alguns homens de olhar vago estendiam-se, b
albuciando incoerncias para as criaturas de
seus sonhos. Estes eram os usu
rios do achbuld, que viviam em dois mundos: o real, onde
estavam as outras pessoas, e o do achbuld, po
voado pelos mais variados seres imaginrios.
Havia tambm algumas mesas, e portas duplas
S  A 
E todos comeram, embora tenham deixado um pedao muito maior para Nichaela. Ela,
de todos, estava menos esfaimada, mas
mesmo sob protesto foi obrigada a aceitar.
E eu j conheo nosso prximo destin
o disse Ashlen com a boca cheia. Para
nossa sorte, Mergath nunca pra, mesmo numa manh sonolenta.
Foram ao maior prdio da cidade, que pertencia a Dylan Brondarr e, com efeito, estava em
pleno funcionamento. A escravido, em Mergath
como em qualquer lugar, nunca descansava.
A cidade era baixa, e o prdio que os aventureiros procuravam destacava-se entre as casas
pequenas de madeira. A areia amarela e na da praia espalhava-se com o vento, e quase toda
O I  M
E continuaram, embora Ashlen ainda olhasse
para trs. Esperava que o mar trouxesse o
corpo de Gregor, para que, dali a alguns dias
, ele despertasse e diss
esse algumas pilhrias.
Mas o mar s trouxe espuma suja, e a praia s trouxe areia em suas botas, e no havia
pilhria nenhuma.
Mergath era uma cidade grande o su
ciente para que houvesse dinheiro, e pequena o
ciente para que s um homem possusse dinh
eiro. Este homem se chamava Dylan Brondarr.
Embora possusse muitos barcos e quase todo o peixe que o mar trazia
zesse tilintar os Tibares
em sua bolsa, o tal Brondarr enriquecera da te
rra, e no da gua. A mercadoria que mais lhe
trazia lucro vinha de Midron, uma cidade mais sinistra e com mais homens de riquezas, e todos
mais perigosos que Dylan Brondarr. Embora Brondarr fosse um tubaro entre os pescadores
e comerciantes humildes de Mergath, quando se encontrava com os poderosos de Midron era
apenas um peixe inofensivo, que podia ser devorado a qualquer minuto.
Ashlen descobriu isso (e mais informaes escorregadias e suculentas) com uma conversa
rpida com algumas senhoras de poucos afazer
es, prximo ao mercado que fedia a peixe.
Aqui e ali, homens armados de roupas desiguais mas com faixas azuis que serviam como
uniformes improvisados rondavam, fazendo perguntas ocasionais e dispersando grupos
reunidos nas ruas. Eram homens de Dylan Brondarr, e faziam as vezes de milcia naquela
cidade onde o regente Vorlat no mandava. Os habitantes de Mergath no estranhavam
aquilo, e, na verdade, no era incomum que, em cidades pequenas de Ahlen, houvesse uma lei
prpria desde que houvesse di
nheiro para pagar por ela.
Os aventureiros tinham informaes, mas is
to no encheria seus es
tmagos. J estavam
fracos de fome, e mesmo suas poses orgulhos
as no iriam se manter por muito tempo. De
fato, eram pouco mais do que mendigos, esco
rados em um canto oculto por algumas casas
de madeira mida. Quando Ashlen voltou do mercado, trouxe as informaes, e, depois que
parou de falar, retirou dois pes de baixo da camisa.
Ora, vamos! disse, ante as expresses do
grupo, especialmente Masato e Artorius.
Nem mesmo Gregor poderia me repreender desta vez.
Gregor, como todos os guerreiros sagrados, havia sido devotado ao bem, e tambm
honestidade. Possuir campees como ele er
a um privilgio dos deuses mais justos e
benevolentes. A honestidade de Gregor muitas
vezes entrara em con ito com as aes de
Ashlen, embora a amizade entre os dois nunc
a houvesse sido abalada. O nome do amigo
morto no soou estranho: mesmo que tentassem
se convencer do contrrio, todos esperavam
encontrar Gregor a cada esquina, rindo e secando os longos cabelos.
Ele tem razo Vallen calou os protestos do minotauro e do samurai. Vamos comer, e,
mesmo que vocs no queiram, vou en
ar-lhes este po garganta abaixo, que os deuses me ajudem!
S  A 
Entrar em uma cidade estranha, descobrir os meandros, os ires e vires de seus habitantes,
era algo usual para aquele grupo. Assim, automaticamente Vallen comeou a distribuir ordens
medida que eles chegavam a Mergath, incumbin
do alguns de tentar conseguir dinheiro
enquanto outros escavavam informaes.
Contudo, desta vez foi interrompido por Rufus Domat.
E aquela era uma pergunta impossvel.
O peso do que Rufus havia dito caiu neles de uma s vez, e todos foram obrigados a pensar no
que tentavam desconsiderar desde que haviam sido capturados. Aquela misso j havia cobrado
um tributo caro demais, e, na verdade, eles no sabiam como prosseguir. Pararam no cho de
areia amarela, a cidade vista, e tentaram responder, mas no conseguiam. Haviam perdido o
rastro do fugitivo, e, mesmo que voltassem para
Kriegerr, o esquivo criminoso j teria partido
h muito tempo. Alm disso, estar sem dinheiro signi
cava que, de um ponto de vista frio, no
tinham mais motivo para ca-lo. A recompensa oferecida por Irynna, a
lha de comerciante em
Petrynia, j se fora. Embora todos percebessem isto, era Ashlen, o mais prtico do grupo, quem
mais tinha em mente que aquela misso, dali em diante, era apenas prejuzo.
A pergunta pairava:
O que vamos fazer?
Achar o criminoso e mat-lo foi a resp
osta de Masato Kodai. Ao menos eu.
Haviam se esquecido: Masato tinha um dever diferente do deles. Para o samurai, sua vida
no valeria nada caso ele desistisse da misso.
Para os outros companheiros, ele pareceu de
repente muito alto e denso naquele sol de praia. Mesmo em farrapos encharcados, Kodai era
um nobre.
Eu vou continuar para a surpresa de todos, Nichaela falou com uma solidez ptrea
em sua voz pequena. Inconscientemente, deu um passo para o lado,
cando mais prxima do
tamuraniano.
Dever trovejou Artorius, olhando o horizont
O I  M
que meras mscaras no podiam ocultar por comple
to uma identidade, e mesmo as magias mais
simples eram capazes de revelar a pessoa por trs de uma fantasia. O que ocultava as identidades
na Noite das Mscaras era o acordo tcito entr
e todos os ahlenienses. Mesmo reconhecendo
algum que
zesse algo indizvel, na Noite das Mscaras um ahleniense se calava. Porque naquela
noite havia liberdade total (e o horror que vem com a liberdade total), e porque, provavelmente,
a testemunha tambm havia feito algo indizvel. Na Noite das Mscaras no havia cimes, no
havia amores nem o sentimento de posse. S o in
stinto, e uma gota de loucura, no frenesi de
comemorao de nada. Embora tivesse comeado comemorando a fundao de Ahlen, a Noite
das Mscaras hoje em dia no celebrava nada alm de si mesma.
A Noite das Mscaras era uma festa de Nimb, o Deus do Caos, mas tambm de Lena,
a Deusa da Vida, pois nunca ningum no Reinado
estava mais vivo (no sentido mais nervoso
e intenso) do que naquela noite. Alguns gostavam de dizer que a festa agradava tambm a
Marah, a Deusa da Paz, mas, embora o amor
livre pregado por ela existisse naquela noite
como em nenhuma outra, as mscaras tambm escondiam quem usava adagas e bestas para
S  A 
O I  M
O TINHAM NENHUMA MOEDA DE COBRE. ESTAVAM COM FOME.
E nada no reino de Ahlen era de graa.
A B  I S O  N 
E ele se esforava para fazer os galanteios
jocosos que serviam para atormentar a
prisioneira.
No reclame, vaca, pois foi assim que ele me conquistou
E para Izzy um minuto s quando queria aliviar-se entre suas coxas; para a clriga muito
tempo a maquinar brincaderinhas cruis.
At que um dia ele sugeriu que a clriga
casse como sua amante. Ele gostava de meninas
inocentes (e essa tinha a inocncia de menina e
o corpo saboroso de mulher). Tinha falado
para assustar, mas, para assustar, poderia
tambm resolver estupr-la. Assim como havia
estuprado Izzy, anos antes. Assim como comeou com ela.
E foi ento que Izzy decidiu banir do Cao Cego a novidade, e deixou que todos eles
fugissem. Passou-lhe pela cabea simplesmente mat-la, mas a tal meio-elfa era de Lena, e as
lembranas das clrigas do convento falaram
mais alto. Amaldioou as tutoras da infncia e
mandou todos embora, e at mesmo devolv
eu as espadas que dois deles queriam.
Ainda no sabia o que iria falar para Si
g, mas o capito ela sabia enfrentar.
E, quando o bote com os prisioneiros desa
O I  M
usar muito, porque no navio tinha que usar roupa de homem, que era mais prtica. Izolda
costurava as roupas dele mesmo sem ele pedir, e sempre que algum no navio falava mal do
A B  I S O  N 
Ento, uma noite que ela estava passeando pelo navio, o capito tinha acordado para
beber aguardente (e todo mundo bebia muita aguardente no navio; ela mesma tinha provado
mas era horrvel), e ele viu Izolda. Foi uma gritaria, todo mundo acordou, e o capito chamou
Bert Barril e gritou muito com ele, e ele se desculpou mas o capito estava muito zangado. Da
o capito disse para ela contar por qu estava no navio. Ele chamava o navio de Cao, mas o
nome todo era Cao Cego IV.
Izolda contou tudo. Ele
O I  M
casa do noivo, ningum prestava muita ateno
nela. O pai e o futuro marido passavam horas
discutindo negcios, e as cria
das estavam sempre muito ocupadas para conversar. Como era
difcil ver os olhos da futura sogra e no fazer
careta, ela passava os dias conhecendo os
cantos da manso.
E um dia descobriu um alapo que levava a um poro, que ela no havia visto antes e que
nunca ningum mencionara.
Izolda desceu pelo alapo e achou tudo muito divertido, porque no tinha ningum por
l e as paredes eram de pedra, e iluminadas por tochas, e aquilo tinha um ar de masmorra das
histrias de heris que ela ouvia. Mas ento escutou um grito e
cou muito assustada.
Izolda era curiosa demais e, em vez de sair corr
endo, decidiu ir ver o que era. Ela chegou at
uma porta que estava fechada, mas tinha uma janelinha com grades. Como ela era muito baixa,
teve que pegar um banquinho em outra sala
e subir para poder enxergar pela janelinha.
L dentro, estavam o pai dela e o noivo, e
mais um homem. Estava nu, pendurado por
correntes nos pulsos. Izolda viu que ele estava sangrando em um monte de lugares. O noivo
dela comeou a fazer umas perguntas para o hom
em preso, mas ele jurava que no sabia nada.
Ento o pai de Izolda pegou uma tocha da parede e encostou o fogo no meio das pernas do
homem, e ele gritou de novo. Da Izolda resolveu fugir.
Ela estava chorando muito, porque no convento havia aprendido que aquilo era uma coisa
horrvel. Ela no sabia quem ia poder ajudar, ento
decidiu ir at o porto. Queria voltar para
o convento de Lena.
No porto ela encontrou um senhor que era bem velho e bem feio, mas muito gentil. Izolda
estava assustada, porque um monte de gente j havia olhado para ela estranho e falado umas
coisas que ela nem queria pensar (porque sabia muito bem o que eram). E aquelas pessoas de
Collen ainda eram mais estranhas porque tinham
os olhos diferentes, e o senhor, embora fosse
de Collen tambm, tinha uns olhos bonitos (um
era azul e o outro, cor de ferrugem), e ela
havia aprendido que pessoas de olhos azuis nunca traam ningum (porque os deuses estavam
A B  I S O  N 
exorcizados ao tentarem entrar. Os dois pressgios se combinaram para con rmar a deciso
da famlia, e a jovem Izolda mal conheceu os pais antes de viajar para junto das clrigas.
Sua famlia era rica, e Izolda nunca passou qualquer necessidade no convento. As clrigas
eram boas, e ela foi feliz. Passou o quinto aniversrio longe da famlia, e tambm todos os
outros, mas nunca sentiu falta. Quando o pai e a me vinham visitar, era respeitosa e amvel,
O I  M
Acho que vou deix-la para os meus homens! gargalhou Sig.
E ningum viu, mas o corao de Izzy disparou.
Aquela noite foi diferente, porque a porta se abriu e eles acordaram, assustados, apesar
dos passos de gato de quem quer que entrasse no poro. Era Izzy. Desamarrou-lhes os ps. A
maioria mal conseguia
A B  I S O  N 
Nichaela estava tentando usar isso a seu favor. A seduo no era um jogo que ela
dominasse, mas, por sorte, no precisaria us-la muito, e o capito no era o seu alvo.
Eu no sei mais o que fazer ela falou, nu
m sussurro lamentoso. No sou boa nisso.
Masato conhecia, claro, inmeras histrias
de sua terra onde as mulheres usavam de seus
dotes para escapar da morte. Em Tamu-ra, isso no era visto como desonra, como poderia s-
lo no continente. Havia lendas nas quais mulh
eres exibiam sua nudez para os demnios azuis,
e matavam os monstros de excitao. Alm diss
o, as mulheres muitas vezes sabiam mais do
O I  M
Por que no nos solta? disse, aps um lon
go tempo de silncio e olhares carregados
de malcia.
Voc uma criminosa falou Olho Ne
gro, empurrando uma boca cheia de peixe
com uma golada farta de vinho.
Ante a dvida da clriga:
Roubou meu corao e gargalhou, inclinando a cadeira para trs e segurando os
lados do estmago.
Sig Olho Negro atormentou-a com comentrios do tipo, e ela roubando comida. At que,
a bandeja quase vazia, ele limpou os lbios, arro
A B  I S O  N 
Obedientemente, os aventureiros bebiam como cachorros. Masato no conseguira manter
a dignidade por muito tempo e, j h alguns dias, fora obrigado a se curvar e lamber a gua
como todos. Rufus Domat, a cada dia, era amordaado com rmeza, para que no fosse capaz
de usar nenhum tipo de feitio. Com nada alm de algumas roupas, nenhum dos aventureiros
tinha condies de tentar uma fuga. No que
no insistissem mesmo assim. Agora, contudo,
j estavam no limite de suas foras.
O capito provocou Vallen um pouco, mas este
j estava exaurido para jurar vingana.
Vocs so to enfadonhos suspirou Olho Negro.
Nichaela, como todos os outros, se curvava para beber da tigela quando o capito a
interrompeu:
No, pelos deuses, no! com seus marujo
s mantendo os outros sob a ponta das
espadas, aproximou-se a ajudou a clriga a se
levantar. Para uma princesa como voc,
minha Nichaela, apenas o melhor.
E, depois de desatar-lhe os ps, uma mesura elaborada:
O I  M
Experimente para mim com essa frase, a maior parte do grupo tentou saltar, mesmo
preso s cordas. Alguns caram no cho.
Faa isso e eu arranjo um jeito
de matar voc rugiu Vallen.
A B  I S O  N 
Sig, com uma mo, acariciou suavemente os cabelos de Nichaela. Jogou o outro brao em
volta da meio-elfa, e aproximou sua respirao do rosto dela.
Muito carinhoso.
Artorius soltou um urro que fez quatro marujos correrem ao poro, para checar. Os
olhos do minotauro ardiam, cheios de pequenas veias vermelhas. Forou os braos at as
cordas morderem fundo, cortando seu couro, e
os msculos queimarem at que ele sentiu
que iriam romper.
Sig Olho Negro apenas ergueu uma sobrancelha, e deu um risinho divertido. Notou
quem era o ponto fraco daquele grupo.
Qual o problema? O Reinado no encoraja o tratamento misericordioso dos
prisioneiros? deu uma pequena lambida no rosto de Nichaela, virado em nojo do bafo de
aguardente. Ela tinha os olhos arregalados de medo, mas no do pirata: temia o que Artorius
acabaria fazendo consigo mesmo.
O minotauro desejava fazer as piores ameaas a Sig Olho Negro. Desejava jurar comer
seu corao, esfol-lo vivo e estrangul-lo com
as tripas. Desejava suplicar a Tauron por fora
e dio, mas s conseguia gritar. Os aventureiros haviam visto poucas vezes Artorius assim, seu
comportamento igual sua aparncia: fera. No
conseguia fazer sentido dos urros que emitia,
apenas berrava at acabar a respirao. Mal foi ouvida a voz de Sig quando ele disse:
Calem-no.
Enquanto o capito se levantava e saa lentamente do poro, cinco homens bateram em
Artorius at que ele rolasse nas tbuas do piso. E ainda assim, chutaram seu estmago at que
vomitasse. No nal, havia alguns de seus dentes espalhados. As cordas que o prendiam foram
substitudas por correntes fortes, e ele foi deixa
do estendido, com a grande cara voltada ao
cho, para acordar apenas no dia seguinte, quando veio mais po e gua. Mas no para ele.
Mau comportamento disse Sig Olho Negro, entre goles volumosos de aguardente.
J h quatro dias prisioneiros, quando mais uma vez o capito veio lhes ver.
Um presente disse com um
oreio.
Jogou um monte embolado de tecido sobre Nichaela. Em seguida, dois marujos ajudaram-
na a se levantar. Desamarraram seus ps e, desaje
itada, ela conseguiu desfazer o bolo de panos,
revelando que era um vestido.
Para a mais bela das damas Sig fez uma
zombaria de pose galante. Melhor do
que este saco que veste, no acha?
Os robes clericais de Nichaela no eram pesados, mas caam retos sobre o corpo,
escondendo a
gura da meio-elfa. O vestido que Sig lhe jogara era recatado (o vestido de uma
jovem de boa estirpe), mas feito para exaltar as feminilidades.
O I  M
Nosso amigo Balthazaar capaz de ver auras mgicas, sabia? havia tanto triunfo
na voz dele que o estmago de Vallen se revirou. bastante equipamento mgico, mesmo
para um bando de mercenrios.
No somos comeou Vallen.
Por favor! Olho Negro bufou No me venham dizer que so heris ou, a pior
de todas,
aventureiros
. Quem mata por dinheiro
mercenrio, ou assassino.
Vallen ia responder, mas percebeu que estava preso, no meio da noite, em um barco cheio
de inimigos, com dois companheiros mortos e um
espancado at a inconsci
ncia. Trocar insultos
com o capito pirata no iria ajud-lo, e para os
demnios com seu orgulho. Estava entregue.
A B  I S O  N 
zera questo de golpear Vallen com o punho
de seu sabre, produzindo alguns hematomas
doloridos, mas nenhum dano permanente. O maior ferimento de Vallen Allond era em seu
orgulho. E ele suspeitava que, po
r mais que Ellisa dissesse que de
sprezava as glrias guerreiras,
daquela vez tinha um real desejo de desforra.
Mas o mais impressionante fora a rapidez e silncio com que tudo fora feito. Quatro
membros do grupo haviam sido pegos de surpresa, ainda em suas camas. Rufus, que estava
nauseado desde que o barco zarpara, foi rendido com uma adaga no peito ao acordar. Gregor,
Ashlen e Nichaela, mesmo acordados, foram emboscados com bestas. E Gregor morrera.
Eles sabem muito sobre ns
, pensou Vallen, preso no convs, observando os marujos limparem
a baguna da luta incluindo os corpos dos companheiros de tripulao.
Sabem at demais
Olho Negro sabia que Gregor Vahn era um paladino de
yatis e, assim, virtualmente
imortal. Citara at mesmo um pedao da conversa deles (
tome aqui sua perna de pau
annima taverna onde tinham conhecido Balthazaar.
Balthazaar Vallen rosnou para si mesmo.
Contudo, o capito ouviu, e, com uma risada:
Balthazaar! De fato! abrindo uma porta que levava ao poro: Junte-se a ns,
Balthazaar.
O velho foi arrastado do poro por dois maru
jos e uma dose azeda de respeito. Caminhava
em passos de criana, olhando para o cho. Evitou os olhares de juramento amargo e, com um
repuxo brusco, recebeu um abrao agressivo de Olho Negro. Tinha os ombros encolhidos e
os braos juntos na frente do corpo, e
mastigava com insistncia o lbio inferior.
Balthazaar foi nosso salvador aqui! Sig exibiu os grandes dentes brancos em um de
seus sorrisos enormes. Nosso enviado dos deus
es, nosso avatar, nosso paladino defensor.
O pirata virou Balthazaar de frente para si, pegou-o pelos dois braos e olhou-o no rosto,
O I  M
NOME MAIS APROPRIADO PARA SER EVOCADO ALI, PENSOU
Vallen Allond, era mesmo o de Sszzaas, o Deus da
Traio. Ou, se houvesse, o de algum Deus
dos Idiotas.
Ele no podia acreditar em como fora tolo. O capito Sig Olho Negro, jovem comandante
da nau Cao Cego IV, os havia pego na mais simples das traies. Enquanto dormiam,
em seus respectivos aposentos improvisados no
barco, haviam sido rendidos e subjugados.
Houvera sentinelas, claro, e turnos de guarda, mas isso no adiantara de nada. Artorius,
o gigantesco minotauro,
zera questo de
car acordado at que outro tomasse seu posto, e
rondara em vai e vem as portas fechadas dos colegas que ressonavam. O prprio Vallen, junto
com Ellisa, dormira de armadura, com as espada
s ao p da cama e uma faca sob o travesseiro.
Contudo, eles no contavam em como fosse difcil lutar no navio oscilante.
C   M 
enorme, quando o velho saltou como uma fera
jovem sobre o estranho invasor. E, por um
minuto, seus braos foram fortes de novo,
pois ele conseguiu
lutar por tempo su
ciente para
que sua velha esposa corresse e chegasse a um
dos cavalos. Eles nunca haviam lutado, em todas
as suas vidas grisalhas, mas agora tinham a rapidez e a fora de dois animais em desespero. A
velha imaginou se o belo cavalo pardo
seria capaz de correr mais que o albino.
No era.
O I  M
C   M 
O casal se entreolhou. O homem tentou um
olhar de segurana para sua esposa, mas
estava to apavorado quanto ela.
Algum que escreve disse o velho, en m. O trabalho de meu lho escrever.
O albino aproximou sua cara suja de comida do
rosto forte e enrugado do outro e, por um
instante de delrio e corao disparado, o velh
o pensou que iria morrer ali mesmo. Mas o albino
apenas olhou em seus olhos dspares, com seus pr
prios olhos vermelhos e perturbadores e,
quando abriu a boca de novo, inundou o nar
iz do outro com mau hlito e perdigotos.
O que escrever?
Algum que tem poder sobre outra pessoa muito perigoso se estiver disposto a usar
tal poder. Mais perigoso ainda se for desconhe
O I  M
aos quais ele estava acostumado. Tentava en
tender como aqueles seres medocres podiam
memorizar todos os seus cdigos.
A velha hesitou, fazendo uma careta como
se, a cada instante, esperasse ter o mesmo
destino de seus ces, e se levantou para ir pegar a comida.
Se tentar... o albino sacudiu a cabea, procurando a palavra. Se tentar
fugir

lembrara-se devoro ele apontando para o senhor ao seu lado.
O corpo da velha comeou a corcovear, com rudos surdos e compassados, e a gua salgada
que era caracterstica da fraqueza verteu de
seus olhos. Outro hbito daqueles seres.
O albino tambm se ergueu, agarrou a velha nos braos e lambeu-lhe o rosto. Deteve-
se em sentir o gosto das lgrimas e comprovou que, de fato, era salgado. Era importante
con rmar seus achados.
Ela sumiu em outro cmodo simples. A casa era slida e modesta, com a franqueza
con
vel dos pobres honestos. O albino vasculhara todas as peas, procurando mais algum
habitante (arrastara as carcaas dos cachorros
por alguma razo, e agora um rastro de sangue
ftido se espalhava por tudo), mas no hav
ia mais ningum. O que era bom, porque, em
grandes quantidades, os habitantes daquele mu
ndo tinham o hbito de fazer barulho e criar
desordem, e a ele tinha de mat-los.
Por que no tem lhotes? dirigiu-se, de re
pente, para o velho. Falou escolhendo as
palavras, satisfeito em veri
car que elas vinham cada vez mais naturalmente.
O homem de barba cinzenta estremeceu
com a pergunta. Por um momento, apenas
piscou os olhos desiguais (um azul e o outro
cinza chumbo, combinando com o cabelo ainda
farto e com a barba que lhe cobria o rosto).
Depois balbuciou algo, e por m respondeu:
J cresceram. Foram embora.
O albino assentiu. Isso ele entendia: mesmo
em sua terra eram criados substitutos, que
nasciam muito mais fracos do que seus genitores. Mas aqui as proles nasciam inteis, e eram
protegidas para que no morressem. De onde
ele vinha, algum incapaz de sobreviver por si
mesmo e evoluir por si mesmo era descarta
do. Por que algum zelaria por um rival, um
ser que vinha para tomar seu lugar? A nal, o novo sempre tende a matar o velho.
O que so seus lhotes? disse o albino.
Sua voz, embora gutural e carregada com
o peso de uma lngua sem hbito, era muito menos hostil do que j fora a outros seres menos
cooperativos.
Um soldado respondeu o velho, aps ter certeza de ter entendido a pergunta.
O outro escriba havia mais, mas o velho
sentia como se estivesse traindo os garotos
ao falar deles para aquele homem. Sua trupe ba
rulhenta de rapazes saudveis, era como se
blasfemasse ao mencion-los ali.
A senhora voltou com a comida. O albino devorou po, linguia, mel, carne seca, leite e
batatas cruas. Demorou a perceber quando j esta
va satisfeito e, assim que parou de comer,
sentiu-se um pouco nauseado. Grunhiu para que a velha se sentasse.
C   M 
NTES.
Em outro lugar, havia um casal de velhos
. Possuam uma fazenda. Estavam sentados
O I  M
Os dois tripulantes derrubaram o corpo massivo de Gregor Vahn, que caiu ao mar com
grande barulho. Os aventureiros
O C C 
em particular examinava as cordas, mastros e velames do Cao Cego em busca de
trunfos para serem usados em uma luta. Contudo, quando chegaram ao convs, viram
seus companheiros amarrados, e boa parte da tripulao em volta, armas prontas.
Artorius estava bastante ferido, desacordado, e Izzy tinha a lmina de seu sabre encostada
no pescoo de Ellisa. Vallen, de joelhos e com as mos atadas atrs das costas, grunhia,
sangue escorrendo da boca e do nariz. frente
de todos, com um sorriso largo, estava o
capito Sig Olho Negro.
J lhes contei como derrotei o antigo capito? disse, em voz muito alta e
divertida. Adaga, enquanto ele dormia. In
felizmente o co era mais esperto do que
eu, e me fez esta cicatriz lamentvel! Olho Negro continuava rindo. Mas ele se
saiu pior. No final da luta, j no era mais
homem e houve uma gargalhada de todos
Ashlen e Nichaela foram colocados de joel
hos junto a seus amigos, com os pulsos
amarrados e sob o escrutnio atento da tripulao armada.
Fui posto a ferros, vejam s! continuou o capito. Mas a tripulao era mais leal
a mim, e depois me soltaram, e o desgraado foi dormir com os peixes.
Vallen tentava observar tudo com cuidado, procurando alguma chance de sada. Notara
que Gregor no estava l, e trocara olhares signi
cativos com Ashlen. Contudo, momentos
mais tarde o corpo do paladino de
yatis foi arrastado como um saco de batatas por um
marinheiro gordo.
O I  M
tempo su
ciente para saber que, entre soldados, mesmo aqueles que j haviam sido inimigos,
havia uma espcie de camaradagem que s hi
strias de vida semelhantes podem trazer. Eles
eram como soldados, assim como eram soldados todos os que viviam em Arton. Enfrentando
as mesmas batalhas, vendo o mesmo mundo e admirando, temendo ou apenas observando
os mesmos deuses, heris e monstros. At os
aldees mais humildes ou os burgueses de vida
mais pacata eram soldados veteranos naquele sentido.
E, de todos os aventureiros daquele grupo, quem mais se aproximava de uma dessas
pessoas de vida pacata era Ashlen Ironsmith. Ele no era rfo, no fora escolhido por
nenhum deus, no vira sua cidade sendo atacada, no tinha pais mercenrios ou grandes
aspiraes a herosmo. Era lho de uma famlia
rica de Valkaria, a maior cidade do Reinado
e capital de Deheon, o que a fazia, para todos os efeitos, a capital do mundo conhecido.
Tinha vrios irmos, que moravam na mesma gr
ande casa ou nas imediaes, em um bairro
abastado. O negcio de ferreiro, que seu pai herd
ara do pai dele e antes disso do av, trazia
Tibares fartos casa, e os irmos seguiam no ofcio. At mesmo o nome da famlia fora
dado pela atividade, j h mais de um sculo. Ashlen era o nico que no desejava seguir
a tradio: decidira se juntar ao grupo de Vallen Allond e ver o mundo antes de assumir
aquela responsabilidade. De incio, a nica co
isa que Ashlen trazia ao bando era dinheiro e
uma curiosidade juvenil, intensa e duradoura. Com o tempo, foi se tornando um membro
valorizado, e vira ainda a adio de Artorius de
pois dele prprio e, mais recentemente, de
Masato. Nos planos de Ashlen nunca estivera a morte. Risco, sim, talvez algumas derrotas,
uma fuga desesperada para ser relembrada depois, na taverna, mas em geral vitria e
tesouros. No se interessava por tesouros (os tinha vontade em casa), ento voltava seus
olhos para vitria e maravilhas. J vira mons
tros, magos, masmorras, lugares encantados
e inimigos temveis; j at mesmo cruzara com alguns heris famosos. A vida ia bem
para Ashlen Ironsmith, at que a morte lhe cr
uzou o caminho e lhe roubou Andilla, e ele
percebeu, en m, onde estava.
O silncio entre os trs era reconfortante. A convivncia trazia tenso e con ito, mas
tambm um tipo de amizade que s quem vive aventuras conhece. Sbito, o dilogo sem
palavras foi interrompido por um barulho alto.
O som de passos e correria encheu o navio, e
os trs saltaram alarmados.
Um chute decidido abriu a porta sem nem
mesmo test-la, e havia seis membros da
tripulao invadindo o quarto, apontando bestas. Gregor, vestido apenas com a cala leve com
O C C 
tristeza no era bela. No havia lgrimas que
no fossem feias. Chorava-se quando se era
impotente, quando no se podia fazer nada alm
de chorar, quando o destino era demasiado.
Eu tambm no entendo a voz grossa de Gregor Vahn veio da cama prxima.
Ele se sentou na palha, nu da cintura para cima, o rosto inchado de sonolncia e os cabelos
compridos mal-arrumados. No entendo como algum pode morrer para sempre. Se vocs
soubessem. to
simples
Gregor e Nichaela tinham vises opostas da mo
rte, embora as duas levassem a caminhos
semelhantes. Para Nichaela, era algo horrendo,
repulsivo, a coisa mais medonha que os deuses
haviam criado. Para Gregor, era trivial, s
em consequncia, um assunto menor. Mas ambos
O I  M
Nichaela sentou-se na beira do leito forrado com palha. Ashlen, se notou sua presena,
no fez nenhuma meno disso. Apenas continuou com o rosto afundado no travesseiro,
sufocando as lgrimas gordas e se afogando em desespero e muco.
Ashlen a voz de Nichaela foi uma carcia, enquanto passava a mo pelos longos
cabelos revoltos e castanhos do rapaz.
Ashlen Ironsmith demorou algum tempo at conseguir controlar os soluos. Lentamente,
virou o rosto vermelho de olhos inchados para a clriga. Ambos eram bastante jovens e, embora
ele fosse apenas pouco mais novo que el
a, naquele momento parecia uma criana.
Ela morreu ele disse com um
o de voz.
Nichaela abriu os braos e aninhou a cabea do companheiro no colo. No havia o que
dizer, e ela sabia: Andilla Dente-de-Ferro estava morta.
O C C 
pde na cama muito menor do que ele. Vallen e Ellisa aconchegaram-se nos braos um do
outro, e o dia acabou.
Cao Cego era um nome agourento para um navio colleniano. Para um habitante de
Collen, ser privado da viso era algo pior que a
morte, e a sugesto desse destino, pintada
O I  M
dia, ele falava, ela podia lavar o convs co
m qualquer um daqueles
marujos. Quando o
antigo imediato decidiu firmar o p em terr
a, Izzy foi a melhor candidata para assumir
o posto.
E o velho tolo morreu de febre, poucos
anos depois, vejam s outra gargalhada.
Apesar de repulsivo, Sig Olho Negro no deixava de ser fascinante. Nichaela olhava
seu rosto e via, escrito com clareza, um amor forte tanto por Izzy quanto pelo falecido
imediato. Confirmando a suposio da meio-elf
a, o capito afogou a lembrana com um
gole farto de aguardente.
Uma histria linda interrompeu Ellisa
orn. Mas queremos apenas que nos
leve daqui.
Eles estavam na cabine pessoal do capito, dentro do Cao Cego, que estava
ancorado h trs semanas no porto apertado de Var Raan. Artorius, Masato e Rufus
haviam preferido ficar de fora, no convs, ob
servando a atividade do porto. O minotauro
e o samurai haviam comeado uma improvvel conversa, descobrindo pontos em comum
O C C 
Mas Balthazaar levou-os at o tal homem, um jovem alto de ombros largos, com longos
cabelos negros em trana e uma cicatriz grossa que dividia-lhe o rosto da testa at o queixo.
Dizia chamar-se Sig, e tinha a alcunha de Olho Negro por causa do globo ocular direito, que
O I  M
Os recm-chegados apertaram o crculo. Em suas mos havia espadas curtas, sabres,
ganchos, um arpo de pesca. Um deles mostrou os dentes podres num sorriso de maldade.
Tem mais dinheiro de onde veio aquele? disse numa voz catarrenta. E mais
mulheres de onde veio esta?
O que aconteceu aqui? disse Gregor Vahn, vendo seus amigos surgirem de um
O C C 
forasteiros.
Qual o problema deste povo com tavernas?
, pensou Ashlen Ironsmith, enquanto
voltava companhia de Vallen e Ellisa.
Cavalheiros! uma voz se sobressaiu de
uma mesa encolhida. Tibares so Tibares,
e moedas no tm olhos!
O I  M
o desespero, e partiam com surpresa e ra
pidez misericordiosa. Contudo, Ellisa
orn no
O C C 
iluminar direito a cidade: tudo por l tinha um tom fosco de madeira podre e escamas de
peixe, que resistia ao brilho de Azgher. O nico
efeito da luz do meio da tarde era aumentar a
fora do fedor e fazer brotar um suor cinza do povo hostil de Var Raan. Quase todos tinham
roupas maltrapilhas, e at as crianas pareciam velhos.
Nada disso importava a Vallen Allond. Ele
s notava que um nmero incomum de
aldees portava armas.
Dividiram o grupo. Enquanto a maioria foi percorrer o pequeno mercado atrs de
suprimentos, Vallen, Ellisa e Ashlen entraram num dos tais prdios de pedra feia que
abrigavam tipos insalubres. Artorius e Gregor ha
viam insistido em se juntar a eles, mas Vallen
apenas disse:
Vocs dois no vo gostar do que ns va
mos ter que fazer por l e estava decidido.
L dentro, diversos homens bebiam em silncio ou grunhidos. Alguns jogos de azar eram
disputados sob olhos atentos e alguns Tibar
es trocavam de mos, sem que sua origem ou
nalidade fosse questionada. A luz era fraca, o cheiro era de respirao suja e no se via o lado
de fora pelas janelas escurecidas.
Era tudo que eu esperava disse Ashl
en em voz baixa. Procurem por um homem
com perna de pau e tapa-olho!
Vallen e Ellisa no riram. Embora aquela fosse realmente uma taverna sada de
histrias de piratas para assustar criancinhas,
isso no era engraado. Piratas de histrias
riam e bebiam rum, e faziam andar na prancha. Piratas de verdade matavam os homens e
estupravam as mulheres.
Aproximaram-se do balco e pediram trs doses de aguardente. O taverneiro, um homem
de muitos pelos e poucos banhos, olhou-os por um momento e despejou as bebidas em
pequenos copos sujos, sem falar nada. Ellisa se
ntiu os olhos em seu corpo, e dois homens
em particular que prestavam muita ateno. Os dois comentaram algo em voz baixa rasgada
e depois explodiram em riso. Ela no dirigiu o olhar para eles, apenas tocou com calma na
espada que carregava na cintura. Houve mais come
ntrios, desta vez em voz mais alta, e Ellisa,
Vallen e Ashlen puderam ouvi-los claramente.
Diferente de Artorius, Vallen e at mesmo Greg
or, Ellisa no gostava de lutar. Para ela,
as armas eram um meio para um m. No sentia o estouro de felicidade no comeo de uma
batalha, como os homens falavam. Para os que viviam a luta, havia um momento, logo aps
o temor maior, quando o combate se mostrava inexorvel e o corpo, ignorando os apelos de
cuidado da mente, era tomado por uma onda de
frenesi, e os guerreiros entravam em um
estado abenoado de abandono. Era quando as
armas passavam a ser continuaes dos braos,
quando as pernas se moviam com rapidez desconhecida e quando nada ocupava o crebro.
Um combate poderia durar poucos minutos, e tinha-se a impresso de que haviam se passado
horas. Tudo o que se via eram borres e lembranas fugazes de cenas desencontradas na
luta. Era realmente uma bno, pois os que morriam em batalha no tinham tempo para
O I  M
O PODERIAM ESTAR MAIS LONGE, EM CORPO E ESPRITO, DE
onde queriam. Seu destino era Kriegerr, vila
pacata de mar e pesca; estavam em Var Raan,
cidade duvidosa, com povo sinistro e reputa
o de adaga nas costas. No bastasse, Kriegerr
cava no extremo norte de Collen, e Var Raan na ponta sul.
Mas h barcos disse Ashlen.
H piratas cuspiu Vallen. Inverno e Inferno, as lminas irms, imploravam para
pular de suas bainhas.
Eles haviam esperado estar na parte fci
l da jornada. Uma viagem por Collen, o
Reino dos Olhos Exticos, onde nada de muito grave poderia acontecer. Contudo, j
haviam sido ameaados, escorraados, e haviam perdido uma amiga querida para uma
aberrao medonha. Sem Andilla Dente-de-F
erro, eles foram incapazes de retomar o
caminho para o norte em tempo hbil. Ha
viam seguido uma trilha ditada por Ellisa
Thorn para chegar at um lugar onde pude
ssem adquirir suprimentos e transporte. Por
infelicidade, o lugar era Var Raan, uma cidade suja que, pelo que sabiam, tinha a fama de
abrigar piratas. Mas era melhor do que a mata
escura e maligna na qual haviam estado h
pouco mais de uma semana.
Haviam decidido
car em Var Raan o mnimo possvel. Sem descanso, sem perda de
tempo: apenas contratar um barco e comprar a comida necessria.
De fato, a cidade no convidava nem um pouco. O cheiro de maresia e peixes mortos
empesteava cada canto, e as habitaes eram sujas e decadentes. No havia prdios altos,
apenas casebres precrios e a ocasional construo de pedra feia, que reunia tipos insalubres.
O povo de Var Raan olhava os aventureiros com o rosto torto, e muitos preferiam virar a cara
a responder uma pergunta simples. Por um lado, este era exatamente o tipo de lugar que se
esperaria que escondesse
criminosos. Por outro, talvez toda essa descon
ana fosse fruto de
anos de escrnio e da marca de vergonha de Collen. O sol que ardia com fora no parecia
C, S A
Nimb riu.
Apenas uma brincadeira. Agora v, Deusa dos Elfos. Cumprirei o que combinamos.
Glrienn hesitou, estremecendo, enquanto Ni
mb voltava a se sentar em sua cadeira de
unhas, olhando para dentro da bacia com gua.
Isto outro instrumento divinatrio? di
sse Glrienn, antes de ir. Est olhando
a loucura de outro de seus seguidores, Deus do Caos?
No respondeu Nimb. Estou olhando uma bacia com gua.
O I  M
Irei partir, ento disse Glrienn, olhos arregalados. Nosso assunto est
acabado.
No pode partir, voc mora aqui falou Nimb, de repente srio. Voc
Puwick, o filho de um comerciante de Sambrdia, no lembra? Um dia resolveu investigar
os gemidos que vinham do sto e encontrou s
ua tia, que seus pais haviam dito que estava
morta. No lembra?
Nimb olhava Glrienn com um sorriso muito aberto, e uma expresso de pura maldade
em todo o seu rosto exceto os olhos. Seus olhos no traziam maldade, apenas breu, vazio,
desespero. Nada. Glrienn olhou dentro daquelas rbitas negras e comeou a entender que
no havia vida, nem sonhos, n
em esperana, nem vingana, n
em propsito; no havia o que
entender. S caos, esquecimento a cada segundo, abismo, queda sem m.
Lembra-se do que ela fazia? continuou Nimb. Ela comia as prprias fezes. E
o cheiro, lembra-se? Dos restos de comida que os empregados colocavam l todos os dias.
A janta de ontem e de anteontem, apodrecidas, lembra? Lembra-se dos vermes? Lembra da
expresso de sua tia, Puwick?
Glrienn lembrava.
Lembra-se do dirio?
Quando ela ainda era s, e a tinta da pena ainda
no havia secado. A ltima anotao era de trs anos atrs, no ? J incoerente. Mas, nas
anotaes anteriores, o registro de como seu pai havia arrancado a lngua dela, Puwick.
Porque o que ela gritava, l em cima, no st
o, assustava as crianas! Assustava voc!
Lembra-se?
E Glrienn era Puwick, o lho do comerciante de Sambrdia que tinha cortado a lngua
da prpria irm.
Diziam que ela era louca, no ? E voc, no
cou um pouco, tambm, depois de ver
sua tia, de sentir aquele cheiro?
Era verdade. Glrienn/Puwick havia enlouquecido, e sabia disso. Havia fugido,
empregado-se numa caravana e fugido de casa, do horror.
E ento, o que aconteceu, Puwick?
A caravana foi atacada disse Puwick/Glrienn. E eu morri.
E veio parar aqui.
E vim parar aqui.
Muito bem disse Nimb, satisfeito. Ag
ora, volte a seus afazeres. Acredito que
voc tenha de alimentar os cavalos com outros cavalos.
Puwick, que j fora Glrienn, virou-se e partiu, para cumprir a ordem de Nimb, seu
lorde. Quando estava prestes a sair pela porta,
observado pelo drago do teto, seu corpo teve
um espasmo de dor. Em Arton, outro elfo morria,
vtima dos ferimentos
sofridos no ataque a
Lenrienn. A dor trouxe a deusa de volta.
O que foi isto? rugiu Glrienn, que j fora Puwick.
C, S A
Todo Arton pode ser destrudo continuou Glrienn. Mas ela deve vir. Depois
O I  M
feitas de carne crua. Por m, em uma pequena sala, o Deus do Caos olhava para dentro de
uma bacia com gua.
Minhas saudaes, lorde Nimb. Venho aqui com uma proposta.
Nimb levantou a cabea para olhar Glrienn. Estava sentado em uma cadeira feita de
unhas. Um drago pendia do teto, caando peixes.
Os olhos de Nimb eram negros e vazios, e,
de repente, Glrienn entendeu que, embora houvesse tantas coisas, tantas pessoas e animais
naquele Reino, esse vazio er
a sua verdadeira natureza.
A Deusa dos Elfos! disse Nimb, sorrindo com dentes podres. Saltou da cadeira,
cando de p com sua estatura baixa. Imagin
ei que viria para c. Muitos dos seus lhos
chegaram nos ltimos dias.
Glrienn engoliu em seco. Sabia que, caso
se ofendesse e discutisse com Nimb, ele
acabaria arrastando-a para dentro
de seus pensamentos frenticos.
C, S A
M HOMEM PASSOU CORRENDO, NU, E DESAPARECEU EM MEIO
neve. Trovejava, o vento rugia para todos os lados, e todos os sapos e liblulas estavam
O I  M
Mas voc segue a Vida! Como uma morte pode seguir os preceitos de sua deusa?
Era o que Nichaela muitas vezes ouvira. Era uma das retricas mais comuns entre os que
questionavam Lena, e todas as suas clrigas sabiam de cor a resposta. Uma morte, uma morte
apenas, era um infortnio. J o uso de violncia por parte de uma clriga da Vida era uma
vitria dos Deuses da Guerra e da Morte. Quanto
maiores as provaes que as clrigas sofriam,
maiores eram as vitrias de Lena. Uma morte causava dor, e saudade e arrependimento, mas
a quebra daquele dogma tinha consequncias
muito maiores, csmicas entre os deuses. Era
uma tentao constante, para algum ensinada a amar, pegar em armas para defender aqueles
a quem amava. Contudo, Nichaela sabia que fazen
do isso estaria colaborando, no m das
contas, para a misria deles prprios.
Apenas
um
ato de violncia ainda disse Kodai. No ir condenar sua deusa.
Este outro engano comum, Masato Kodai. Se ns no tomarmos a responsabilidade
Nichaela limpou o rosto com as costas da mo. J no chorava quem tomar?
Kodai, de novo, viu uma existncia sem morte. Tinha uma calma de desistir.
Devagar, comeou a surgir luz, escorrendo escassa por entre as folhas acima. E, na clareira
perto da carcaa medonha, j era farta. Azgher, o Deus Sol, mostrou seu olho redondo e eles
souberam que a manh j amadurecia, indo dar lugar tarde quente.
No entendi disse Vallen Allond. Mas a luz voltou, e isso timo. Vamos
embora daqui.
E eles se mexeram com lentido, indo um atrs do outro em derrota morosa. Vallen
U M , D 
Rufus tentava colocar sua cabea em ord
em (conferindo egost
a os feitios ainda
lembrados). Ele sabia ser um monstro porque u
ma parte sua se felicitava por ter sobrevivido
a uma batalha em que uma dos guerreiros morrera. Por outro lado,
eu ainda tenho que esperar.
O dia que vir de um jeito ou de outro.
Ashlen s chorava.
A apatia era demais, e Masato agarrou com violncia Nichaela pelos dois braos, e a forou
de p. Ela continuou olhando para baixo e para o lado, longe da face amarela, e deixando as
lgrimas escorrerem. O samurai tomou o rosto dela com uma mo, apertando as bochechas
contra os dentes, e a fez encar-lo.
Por qu? as palavras rasgando sua garganta. Por que no a salvou?
J chega Vallen ergueu apenas a cabea do ombro da amada, e houve algo de realeza
em sua voz. Masato largou a meio-elfa. Ela no lhe deve explicaes.
Eu devo falou Nichaela. Ele no sabia das minhas obrigaes quando se juntou
Masato no falou. Apenas continuou olhando para Nichaela, muito de perto, e com os
olhos inquiria.
As clrigas de Lena no podem lutar disse ela, muito calma. Nunca.
Mas por isso ela morreu.
Nunca.
A clriga falava aquilo com tamanha simpli
cidade, com tamanha naturalidade, que as
palavras viravam um fato incontestvel afundand
o pesado no estmago de Kodai. No lutar.
Nem mesmo para salvar uma vida.
Nem mesmo a sua prpria?
Claro que no disse Nichaela. Muito menos a minha.
Nunca ser responsvel por uma morte. Kodai
pensava naquilo e parecia algo to distante
que era o paraso. Nem mesmo a prpria morte,
nem mesmo a de inimigos, nem a de amigos.
Tudo nas mos dos deuses. Que felicidade.
Artorius viu que os gritos de acusaes haviam cessado. Alvio, porque, se aquilo
continuasse, ele precisaria proteger a meio-elfa, e precisaria de fora que no tinha.
Tauron, no me deixe fraquejar agora
murmurou.
No havia mulheres entre os minotauros. O povo de Artorius tinha lhos com humanas
ou meio-elfas. Os meninos que nasciam eram minotauros, e as meninas eram da raa da me.
Artorius soube naquela hora
que nunca teria lhos.
Talvez ainda com as escravas
. Mas de uma escrava no sairia um lho forte como o que ele
desejava. E esse, nunca mais.
Mas ela morreu insistia Kodai.
E est com os deuses disse Nichaela. Como Gregor falou.
O I  M
mordendo em ameaa para um lado e para outro. De repente, sentiu um baque e um peso em
cima de seu corpanzil de esfera. Era Ashlen, que saltara de uma rvore sobre a criatura, com
uma adaga nas mos. Em um movimento de acrobata, Ashlen segurou-se com as duas pernas
numa das hastes de onde brotavam os muitos olhos. Deixou o corpo pender para frente, e a
U M , D 
Ao invs de atacar o minotauro, a criatura olhou mais alm, para fora da clareira, e
viu Nichaela. Atropelando os que estavam em seu caminho, foi com rapidez na direo da
meio-elfa.
Nichaela tentou correr, mas as razes e galhos
eram ainda mais traioeiros agora, e a luz
era fraca e distante, e ela caiu. O Observador
abria a boca mortfera e sanguinolenta para sua
cabea e ela se encolhia, quando um machado cr
uzou o ar e enterrou-se fundo at o cabo no
alto do globo monstruoso.
Andilla havia arremessado a arma, e corria, grit
ando como um bicho, trazendo nas mos s
uma faca de caa. Ouviu-se de algum um
, mas a mulher investia com os dentes mostra,
e o Observador soube que ela era seu maior problema naquele momento. A faca de Andilla se
cravou no couro do ser; a lmina se partiu. O Observador se virou com rapidez e mastigou o
brao que ainda segurava o cabo intil. Andil
la Dente-de-Ferro conseguiu puxar o membro
ferido, mas ele era uma massa vermelha. Tiras de carne pendiam do pulso, e em alguns pontos
via-se o branco do osso. Ela urrava.
Os outros, que estavam na clareira,
zeram meno de
correr em seu auxlio. Uma pequena nuvem de fascas surgiu frente do monstro, e ento um
relmpago derrubou uma rvore que jogo
u Vallen no cho, e bloqueou o caminho.
O monstro se virou de novo para Andilla. Atrs, Nichaela apenas olhava em terror.
Houve um momento de calma estranha entre os outros,
resignao
, e Masato Kodai viu aquilo
e no entendeu.
Nichaela! gritou o samurai em seu sotaque carregado. Arremessou sua estranha
espada na direo da clriga, e a lmina veio se cravar no cho frente dela, balanando,
pronta.
Use a espada! gritou de novo Kodai. Mas Nichaela apenas olhou para a arma. E
para ele. E para o monstro. E para Andilla.
O Observador retorceu suas hastes, e uma delas se inclinou em direo a Andilla, que
segurava o que fora sua mo. Houve
um pequeno brilho no olho que a
tava, e ento ela
comeou um grito, e ele cessou sbito porque ela desaparecera. Em seu lugar, apenas uma
poeira na, que no encheria um dedal.
Artorius j havia conseguido erguer o tronco, e os outros passavam. Ellisa, dentes rilhados
e lgrimas, chovia
echas sobre a criatura. Masato no entendia.
O Observador teve de se distrair de seu intento de matar tambm Nichaela, e se voltou
para o grupo, e isto foi seu erro, porque quatro
echas, uma aps a outra, entraram no seu
grande olho central, estourando-o como uma bolha de muco amarelado. Rufus descobriu que
podia fazer magia de novo, e vrios projteis de
energia esverdeada castigaram o monstro,
desviando-se dos mais diversos obstculos, serpenteando e retorcendo-se como se fossem
vivos para atingir o alvo.
As lminas castigaram o monstro, Vallen, Gr
egor e Artorius desenhando um mosaico de
cortes na carapaa do ser. O Observador viu que no iria triunfar, e comeou uma retirada,
O I  M
O grande olho central estava em Rufus, e ele falou mais palavras na lngua arcana, mas
nada aconteceu. Seu feitio falhara, apenas se desvanecera da memria para deixar um buraco
de dvida, e ele no sentira a energia mgica uindo.
Um Observador! gritou, nalmente se lembrando do monstro.
Fora apenas o pnico que o
zera esquecer de uma criatura to singular. Um Observador,
um monstro perigoso e inteligente, e o pior de tudo,
maligno
. No era apenas um predador, era
terrivelmente sagaz, e cada um de seus muitos olhos tinha um poder diferente.
Por um momento, Rufus Domat raciocinou
sobre o inimigo, e em seguida sentiu seu
corpo enrijecer. Uma das hastes olhava para ele e, de repente, doa respirar, e seus braos no
respondiam A viso foi lhe
cando turva.
Poder, dinheiro ou morte,
pensou Rufus enquanto seu corpo virava pedra. Mas, de algum
modo, ele teve foras para no morrer ali. Apenas caiu pesado (sentia-se meio pedra) de
joelhos. Bateu os dentes, e um se quebrou,
e ele cuspiu dois pedaos pequenos de rocha.
A criatura estava cravejada das
echas de Ellisa, mas parecia no lhe dar ateno. Gregor
Vahn, berrando por
yatis, correu at a clareira, a espada erguida, e, com um pequeno salto,
desceu-a com fora em uma das hastes do monstro. O m da protuberncia caiu em um corte
limpo, e o sangue nauseabundo espirrou longe. Ainda assim, o Observador no gritou. A
bocarra mordeu na direo de Gregor, mas encont
U M , D 
como grandes estacas a
adas se moveu com rapidez, e o corpo da criatura saiu do caminho
da espada de Gregor Vahn. Ao mesmo tempo, o machado de Artorius encontrava o seu couro
grosso, mas no houve sangue: era como golpear uma rocha.
Alguns gritavam em desa
o guerreiro, mas havia um pouco de pavor misturado aos gritos
de batalha. E, enquanto as vozes de Vallen, Gregor, Artorius, Andilla, Kodai se sucediam em
uma ria de urros, o inimigo era silencioso, e apenas olhava.
Era uma coisa bizarra, um gigantesco globo
de carne que flutuava altura de suas
cabeas, e no centro do globo havia um imen
so olho, e a bocarra aberta com dentes finos
e agudos e longos. Dentes demais. Do globo saam inmeras hastes, e na ponta de cada
uma um olho, e eles olhavam para todas as direes, e o monstro parecia muitos, sendo
apenas um. Uma das hastes olhou para Artorius. O corpo do minotauro corcoveou
como se tivesse recebido um golpe. Ele cambaleou para trs, babando uma espuma
avermelhada, e caiu de costas.
Vallen sacou Inverno e Inferno, olhou para Kodai e ambos avanaram contra a
criatura, cautelosos. Guerreiros de muitas
batalhas, os dois lutavam como se fossem
companheiros h muito. Enquanto iam para os flancos do ser, este avanou rumo a Ellisa.
Flutuava mais rpido do que um homem co
rrendo, e sua boca estava voltada com os
dentes protuberantes contra a jovem. Disparando duas flechas, ela correu para longe do
monstro, enquanto Andilla tomava o seu lu
gar e atacava. O machado da mulher acertou
O I  M
exceto quando no tinha ideia do que fazer. Ta
mbm notara que Rufus Domat fora a primeira
alternativa que o lder do grupo havia citado.
Como naturais do reino de Portsmouth, Vallen
e Ellisa tinham uma descon
ana tpica por magos e magia. Embora, diferente da maior parte
dos nativos do reino, houvessem aprendido a respeitar os magos, esses di
cilmente seriam sua
primeira opo para resolver qualquer
problema. As coisas estavam srias.
Eu posso tentar subir em uma rvore di
sse Ashlen, querendo parecer animado.
Talvez consiga ver mais adiante.
Por que eu no pensei nisso?
, Vallen deu um soco na prpria cabea.
Faa isso e Ashlen, livrando-se da capa de couro, escalou o tronco, rpido e em
zigue-zague como uma aranha.
A escalada era traioeira. Os primeiros galhos
comeavam j muito alto, e o tronco era
coberto de muco em alguns pontos sangrava seiva. A rvore escorregava os ps, esfolava as
mos e mordia os dedos com pedaos a
ados de casca que se aninhavam debaixo das unhas. Mas
Ashlen se sentia feliz em contribuir com algo, at que gritou e se ouviram dois estampidos.
U M , D 
Ento estavam sob efeito de alguma magia. El
es j haviam lutado contra magia; embora
fosse poderosa e muitos a temessem, no era invencvel. Na verdade, Vallen no conhecera
nenhum mago que resistisse a meio metro de a
o no estmago. Era enervante, mas, depois que
se soubesse que em Valkaria era ensinada como as
O I  M
principalmente em um terreno traioeiro, sent
iam uma coceira em um lugar inacessvel, um
certo movimento que no podiam mais fazer ou o esfolar lento e constante de um cotovelo.
U M , D 
E, mediante uma frase curta e um gesto rpido, Rufus fez com que uma das adagas de
Ashlen se acendesse como um lampio. Era uma luz branca e limpa, muito melhor do que o
bruxulear de uma chama, e muito mais reconfortante. A adaga exalava um pedao de dia, e
essa era a nica luz que havia na
oresta.
O grupo caminhava junto, em uma formao compacta. A mata era um breu ao seu redor,
mas o rugir calmo e constante do rio servia para
lhes guiar pelo caminho certo. No era possvel
car muito prximo margem, po
is, na escurido, a terra molhada e fofa era traioeira, e um
O I  M
Vamos seguir. J perdemos tempo o bastante disse Masato.
Esta
oresta no vai ser muito melhor de dia do que de noite falou Andilla.
Sem descanso disse Artorius.
Para os diabos, vamos seguir Ashlen, ainda culpado.
Respiraram um momento, beberam um gole de gua e comeram em p um pedao de
rao. Checaram as armas e estavam prontos para ir em frente.
Como est, irmzinha? disse Artorius para Nichaela, curvando muito o corpanzil.
Pode seguir? Est bem? Precisa descansar?
Nichaela sorriu com a catarata de perguntas. Era mesmo curioso ver a criatura de fora e
luta sendo to gentil. Ningum conhece a doura
dos olhos de um minotauro at ver um deles
falando a algum que ame de verdade.
De tudo com que Lena me abenoou hoje, ainda conservo a maior parte. Estou forte,
e Lena me d mais fora. Vamos continuar pois Nichaela no era fraca, embora parecesse
frgil. Os clrigos, como Nichaela e Artorius,
recebiam bnos dirias de seus deuses e, da
mesma forma que os magos, utilizavam-nas como
pequenos milagres, magias clericais. Quanto
mais virtuoso, experiente e
el o clrigo, mais o deus lhe ab
enoava. Os mais poderosos eram
capazes de ressuscitar os mortos e fazer o mund
o se voltar contra seus inimigos, conjurando
U M , D 
Rufus Domat no sabia como os outros magos se adaptavam quilo, mas para ele
era sempre perturbador. A magia era um xtase o que dava sentido vida mas
o momento logo aps, quando se percebia que um pedao da mente havia sumido, era
terrvel. Em segredo, Rufus estudava com afinco extra, para que cada magia permanecesse
na memria, resistindo a uma ou mesmo duas
conjuraes. Alguns magos, principalmente
os jovens estudantes da Academia Arcana, chamavam isto de
memorizar duas vezes
, por
mais estranha que a expresso pudesse parecer. Contudo, a impresso que se tinha era
mesmo aquela, que o feitio estava em dobro,
ou em triplo, na memria, e que o tributo
de Wynna era capaz de apagar apenas uma das memorizaes. Rufus sempre procurava
manter uma lembrana dos feitios que usava e, obviamente, isto limitava em muito o
que ele podia fazer com sua magia. Do total qu
reuniria a velha turma, e contaria suas histrias.
Rufus obrigou-se a remoer amargores para
desligar-se dos pulmes que queimavam na
garganta. Passo aps passo com pernas dodas,
acompanhou os outros no caminhar puxado,
O I  M
ou a meio-elfa. Aquele grupo ouvira Andilla Dente-de-Ferro e obedecera sem questionar a
Vallen Allond, e os dois decidira
m, e isso foi o m da discusso.
A paisagem que atravessavam era tpica, comum em boa parte do Reinado (a regio mais
civilizada e conhecida de Arton), e na verdade no trazia muitas surpresas. Qualquer bando
de aventureiros to experiente quanto eles j havia cruzado inmeras regies como aquela:
uma plancie, uma
oresta, um rio. A plancie, atapetada por grama macia, era salpicada de
arbustos baixos e pequenos retalhos de bosque. A
oresta era bastante fechada, pelo que
podiam ver frente, e deveria ser bem escura,
principalmente naquela noite sem lua. O rio
no era dos maiores, grande o su
ciente apenas para ser registrado em um mapa, e seguia
enviesado dividindo a plancie at sumir dentro da
oresta.
Estranho este rio no estar no
mapa que tnhamos disse Andilla.
Aquele mapa no era l muito con
vel era Ashlen.
O que no era razo para que voc o deixasse na taverna como sempre, a voz de
Artorius, o minotauro, saiu como um martelo de forja.
Entre o grupo, eles procuravam no culpar uns aos outros, no alimentar pequenas
rivalidades ou descon
anas.
Entre na batalha com sangue ruim, e logo ele ser derramado
, como
dizia Vallen Allond. Mas naquele momento todos
estavam cansados e ainda um pouco tensos
do incidente em Horeen, e era difcil no procurar um bode expiatrio. Pulavam com a mo
nas armas a cada sombra que se movesse, e a reao natural era deixar de procurar fantasmas
(ou aldees irados) e pular sobre o alvo mais
prximo. Que era, claro, um companheiro.
Ashlen se encolheu de vergonha e quase um po
uco de medo. Sabia que Artorius era incapaz
de lhe fazer mal, mas mesmo assim msculos e
chifres no eram bem-vindos em algum que lhe
repreendia. Tinha medo tambm de lhes ter co
locado em um problema pior do que esperavam.
Chega disse Ellisa
orn. Sendo a mais prxima de Vallen, ela tomava suas vezes
na liderana quando percebia que o amado j tinha muito em suas mos. Vamos seguir
aquele rio, seja ele qual for, e passaremos a segu
ir o Coraan quando os dois se cruzarem. Ento
vamos para Kriegerr, caar o nosso alvo e volt
ar a Petrynia, e pagaremos a um bardo qualquer
para que conte nossas histrias.
De preferncia bem exageradas disse Gregor Vahn, e houve uma sombra de riso.
Quem no ria, nem mesmo tentava, era Rufus. O mago sentia mais do que todos a falta
de uma noite de descanso, pois precisava deixa
r a mente relaxar por algumas horas, e estudar
mais. Wynna, a Deusa da Magia, era generosa e criativa, e muitos eram seus dons, mas ela exigia
tributo. A vida de um mago era de estudo sem
m, a cada noite ou manh memorizando de novo
os feitios de um grimrio, apenas para que se apagassem da mente assim que fossem conjurados.
Era assustador quando se parava para pensar: o que h meros minutos fora to claro, natural e
rpido como qualquer movimento do corpo, depois
da magia realizada era estranho, aliengena,
desconhecido. Wynna apagava qualquer trao da memria, e os magos no se lembravam nem
mesmo da primeira palavra da conjura
o, nem mesmo de como ela soava.
U M , D 
FICIALMENTE DISSE ASHLEN. PERDIDOS.
A noite era escura e nublada. No era possvel ver as estrelas, e eles tinham apenas
uma ideia vaga de para onde estavam indo. Sabiam que era, mais ou menos, a direo
contrria quela que deveriam tomar. O que talvez parecesse idiotice, mas ir para o norte
naquelas condies era pedir problemas. Acab
ariam ainda mais confusos. Alm disso, na
pressa haviam fugido de Horeen na direo sul, e no desejavam passar perto da cidade
de novo. Melhor voltarem regio que j conheciam, e, quando houvesse luz, tentar
novamente o rumo certo.
Vamos seguir aquele rio dissera Andilla.
Acho que, pelo seu tamanho, ele deve
cruzar o Coraan em algum ponto. Ento estaremos em terreno conhecido de novo como
sempre, o grupo acatara sua deciso.
Andilla Dente-de-Ferro podia se orientar mesmo em uma regio desconhecida, apenas
analisando a geogra a, as plantas e os animais. Viera de um lugar por demais diferente da
ilha amena de Collen as gli
das e inclementes Montanhas Uivantes mas a paisagem
falava com ela, e ela traduzia sua linguagem como indicaes em um mapa. Ellisa
orn
tambm tinha habilidades semelhantes, era cap
az de rastrear uma presa, encontrar comida
nos ermos e sobreviver muito bem longe da civilizao. Contudo, o que para Ellisa era
treinamento, para Andilla era um dom.
Masato Kodai
zera questo de externar seu descontentamento. Cada passo que davam
para o sul (ou para uma direo que, pelo que sa
biam, era semelhante o bastante a sul) era um
passo mais longe da cidade porturia de Kriege
rr, onde eles achavam que estava o fugitivo. O
homem que perseguiam, o monstro que matara
uma famlia em Petrynia e devorara um
daimyio
em Tamu-ra, era escorregadio, e o samurai odiava dar-lhe qualquer minuto de vantagem. Mas
Kodai era apenas um, e quase um desconhecido para aquela gente; mais extico com sua pele
amarelada, seus olhos cortados a navalha e suas maneiras impermeveis do que o minotauro
O I  M
de longe. Mais pessoas chegavam a cada momento. Uma boa parte trazia armas verdadeiras,
espadas que pendiam em paredes, lembranas de antepassados guerreiros e relquias que
no tinham mais uso. Vallen Allond engoliu em seco. Antes, ele tinha medo de causar um
massacre. Agora, se as coisas dessem errado, seriam eles as vtimas.
A multido se abriu e vieram soldados, portando armas novas e de verdade. O que parecia
ser o capito falou em um brado:
A senhora Raaltha disse que no so bem-v
indos. Saiam de nossa cidade antes que
seu sangue esteja sobre o cho.
A V    T 
Os olhos estavam pesados e hostis para a mesa
do canto. Por instinto, Artorius e Andilla
apertavam o cabo de seus machados. Ashlen comeou a pensar em rotas de fuga. Vallen
levantou-se, com as mos espalmadas no ar em um gesto de paz.
No h por que nos temerem disse, conciliador. No desejamos o mal de
ningum, apenas queremos um mapa e uma noite de descanso.
Vo embora! a velha cuspiu no cho. Eu vejo a morte e a cegueira em vocs. So
corvos negros, prontos a arrancar nossos olhos!
Os clientes da taverna, um a um, comearam a se levantar. Podiam ser homens pequenos
e simples, mas eram muitos, e tinham a seried
ade dos que esto dispostos a ir s ltimas
consequncias.
Vallen ainda tentou argumentar, mas foi interrompido por mais uma profecia acusatria.
Assassinos! Assassinos do mundo! Partam! Desistam!
O I  M
Depois de alguns minutos, um homem, mais b
em vestido e limpo do que a mdia, se levantou
e postou-se humildemente de p, ao lado da mesa da velha.
Senhora Raaltha falou, sem olhar diretame
nte para ela. Nos honra com sua visita.
Ela resmungou alguma coisa que ningum conseguiu entender e, depois de algum
tempo, o homem voltou a se sentar em sua m
esa. Alguns voltaram a comer, mas a maioria
simplesmente olhava a senhora.
Fazendeiro Rudolph ela falou de repente, com uma voz de serrote. Sua colheita
ser boa, e a febre de seu lho passar em trs dias.
Obrigado, senhora Raaltha disse um homem ao fundo.
Vallen fez um sinal para o grupo, sorrindo com o canto da boca, e todos se sentaram,
observando o que acontecia.
Fromaahn voltou a falar a velha, olhando para o seu ch, e outro homem se
levantou, cheio de expectativa. Sua mulher ir
lhe deixar dentro de dois meses. Nada do
que voc far poder segur-la.
O homem pareceu desconcertado, mas ainda
assim agradeceu. No houve qualquer piada
ou comentrio.
A V    T 
homens da milcia haviam sido mortos. Saram de
Adolan com os bolsos pesados de ouro e
a alma pesada de dever.
Isto fora h alguns meses, mas agora eles j
estavam na estrada, desde ento no rastro do
intruso, e esperavam encontr-lo na cidade de Kriegerr.
A cerveja aqui boa Gregor esvaziou
mais um caneco da escura bebida do Olho
do Grifo mas ns devemos descansar. Vamos pagar por uma noite nos quartos, e amanh
acordaremos bem cedo.
Todos assentiram. A noite ainda era jovem, mas os corpos reclamavam do cansao. Ashlen,
que cuidava do dinheiro do grupo, comeou a separar os Tibares para pagar pela refeio e pela
noite. Vallen ainda discutia algu
O I  M
Na verdade, acho que o mal ainda est aqui, Irynna disse Nichaela, sria, tocando com
suavidade o peito da garota. O criminoso j foi embora, mas voc continua na cama. preciso
lutar contra o mal, mas acho que quem deve lutar voc, com a ajuda de sua amiga Athela.
Irynna fez uma careta.
Minha senhora, minha dama, minha abenoada senhora, no me pea isso! Irynna
agarrou com fraqueza forte a mo de Nichaela, e teve energia para curvar-se para perto de seu
rosto. As duas clrigas de Lena se entreolhar
am. Morreu minha me, senhora, morreu meu
pai, e meus irmos. No necessria punio po
r isso, minha senhora, minha santa senhora,
no necessrio um castigo? Diga-me, no ?
Castigo diferente Nichaela retirou sua
mo do aperto da garota de vingana.
Vallen permanecia de p, em silncio. Estava l como lder, para avaliar se, caso Nichaela
decidisse que eles deveriam atender o pedido de
Irynna, aquilo era vivel como misso para o
grupo. Ele no era bom com este tipo de dilemas,
e sentia-se sobrando em meio s trs mulheres.
Irynna hesitou um pouco. Estava decepcionada: imaginara que, uma vez tendo encontrado
o grupo de aventureiros de que Athela falara, a caada comearia imediatamente. Pensara no
ouro que podia oferecer, pensara em quanto tempo aquilo podia demorar, mas no pensara
que um de seus heris pudesse tentar dissuadi-la.
Eu sei que posso estar com o sentimento
errado em meu corao contudo, Irynna
era uma garota inteligente. Mas disso Athela pode cuidar. Pode me ajudar a purgar essa
amargura. Mas vocs podem impedir que isto acontea de novo, com outra famlia, com
outra lha como eu.
Nichaela mordeu os lbios. Aquilo era inegvel.
Concordo em lutar contra o mal dentro de mim disse Irynna se houver quem
lute com o mal l fora.
Houve silncio. A clriga meio-elfa olhou para Vallen, seu lder.
O que ela fala verdade disse ele. Se acha que devemos, Nichaela, ento eu digo
que iremos.
Mais silncio.
Devemos.
E Irynna chorou de felicidade.
A jovem lha de comerciante havia sido eloquente alm de suas foras naquela tarde, e
seguiu falando muito e raciocinando com co
erncia enquanto perguntava a Vallen Allond
de quanto ouro eles necessitariam. Ela tinha ba
stante, e isto era um incentivo, mas poucas
pessoas tornavam-se aventureiros por pura cobia para isso, o trabalho de mercenrio
era mais fcil, lucrativo e estvel. O desejo de Vallen em punir o intruso, o desconhecido, o
assassino de tantos homens, foi o que o fez tomar a deciso.
A V    T 
Elas foram ordenadas juntas, no ? disse Vallen, apontando com o queixo para
Nichaela e Athela. Estranho duas clrigas da Vida se encontrarem assim.
Os funerais renem a famlia disse Gregor Vahn.
O templo era simples e muito branco. Amplo e modesto. Fresco e acolhedor. No era
grande, nada opulento, um lugar entre parnteses. Mas tinha-se a impresso de que quem
vivia por l j tinha aprendido a no ligar para luxos. Havia um salo grande, onde eram
O I  M
Uma coisa certa disse Gregor de Ta
mu-ra at Petrynia, ele aprendeu a usar
roupas.
Ou puseram-nas nele falou Rufus, pela primeira vez desde que haviam pisado na
taverna. Ele pode ter sido capturado por um circo, ou um colecionador, ou algo assim. E
depois fugido, no?
Era uma possibilidade, exceto que o desconhecido havia dado cabo da guarda inteira de
um palcio, que contava com magos e clrigos. Com certeza, era preciso uma fora signi
cativa
para enjaular a criatura, e quem quer que houvesse despendido ouro su
ciente para faz-lo
no desistiria to fcil. No havia recompensa
, nem notcias da coisa em parte alguma, exceto
em Petrynia e, agora, Tamu-ra.
Para nossa sorte, um homem como el
e no passa desapercebido facilmente
continuou Vallen, pro ssional. Conseguimos um rastro dele, ainda que tnue. Sabemos
que ele est indo na direo de Kriegerr, uma ci
dade porturia ao norte. Precisamos de um
mapa para chegar at l, j que o que temos s capaz de nos trazer at aqui.
E de uma noite de descanso disse Rufus.
Nos ltimos dias, temos caminhado desde
antes do amanhecer at depois que j est es
curo. Precisamos de uma cama. E de um banho.
De novo, sua tentativa de humor foi perdida.
Ashlen teria se sado bem com esse comentrio
ele pensou. Mas Rufus Domat s conseguiu balanares de cabea.
Apenas mais uma dvida disse Ashlen para Masato. Entendo que um imperador
mobilize suas foras para caar o assassino de um lorde feudal, mas por que mandar seu
executor? No seria mais inteligente enviar algum tipo de investigador, ou uma fora de
guerreiros? Voc no deveria estar cortan
do as cabeas de homens desonrados?
Masato Kodai fez um momento de silncio. Depois disse:
nosso costume. Voc no entende.
Mas Ashlen no se convenceu. Nem um pouco.
E, alguns meses antes, eles em meio morte, e os abutres voando em crculos.
A pequena cidade de Adolan, em Petrynia, havia sido atacada por um humano estranho.
A terra estava gorda com cadveres.
Eles em meio morte, no templo da Vida.
Que bom que vieram disse Athela, a jovem clriga de Lena. Abraou Nichaela.
Ambas divididas entre a tristeza derrama
da com sangue e a alegria de se reverem.
Todos os aventureiros entraram com reverncia no Templo de Lena. Era um lugar que
convidava ao respeito e comedimento. A maior parte deles carregava muitas armas, e sentiam-
nas incmodas, pesadas e desconfortveis. Algumas novias do templo se ofereceram para
A V    T 
Os que viviam longe de sua terra natal se sentiam culpados por no ajudar a defend-la e ao
mesmo tempo ressentidos pelas mortes provocadas pelo con ito.
Ashlen comeou a murmurar desculpas, mas Nichaela interrompeu-o:
Por favor, eu j disse. No sou elfa, vocs
sabem. Nunca vi o reino de Lenrienn, pelo
que eu saiba. Fui criada, desde que me lembro, no templo de Lena.
Ns sabemos disse Andilla mas isto no quer dizer que seja algo agradvel para
se falar deu um tapa atrs da cabea de Ashlen.
Voltando pergunta de Ellisa Vallen
botou m discusso. O que nossa presa
fez em Tamu-ra?
Masato empertigou-se antes de comear a falar. No era um assunto fcil, e ele sabia que
teria de deixar algumas partes de fora.
Rebanhos estavam sendo atacados, ele co
meou, animais estavam sendo mortos e
devorados por algum tipo de fera. No era assunto o
cial, e certamente no era algo com o
que o Imperador devesse se preocupar. Como era o costume, os camponeses se organizaram
para caar o animal. Os problemas comearam quando nenhum deles retornou. Ainda houve
resistncia dos senhores de terras para mandar soldados, mas, quando uma casa foi invadida
e um casal de velhos aldees foi chacinado,
cou claro que aquela era uma ameaa verdadeira.
Os soldados que se embrenhavam nas matas no voltavam, e vrias semanas transcorreram
sem pistas da fera agora j considerada algu
m tipo de monstro. Mas ela prpria decidiu se
mostrar quando atacou o palcio de um
daimyio
um senhor feudal e dizimou a maior
parte da guarda.
E era o seu monstro? disse Vallen.
E era o seu homem disse Masato. Com a pele branca de nuvem, cabelos plidos
e olhos vermelhos. Alto como uma torre.
Sabem por que ele atacou o palcio? Ell
isa deu um gole em sua bebida. Estava
atrs de algo, alguma relquia, algum artefato?
No tirou nada de l Masato
cou um tempo calado, olhando para a mesa. Quando
foi encontrado, estava nu, e j havia devorado o
daimyio
e a maior parte de sua famlia.
Nichaela fez uma careta e desviou os olhos. Artorius bebeu o resto de sua gua. Ashlen
no encontrou nada para falar.
Como as pessoas da vila disseram era Vallen. Mais animal do que gente. Mas
O I  M
Houve risadas de um lado, mas bastou um olhar de Andilla Dente-de-Ferro para que
cessassem. No havendo resposta, nem coragem para uma, ela voltou a falar.
casado?
Sim, senhora
tando os sapatos, o homem achou por bem cham-la de senhora.
O que sua mulher acha de que se po
nha a olhar desconhecidas na taverna?
Mais uma vez, nada. Os sapatos ainda eram o alvo do olhar do homem, enquanto que,
pela taverna, as cervejas e pratos de comida
cavam cada vez mais interessantes. Apenas na
mesa do canto os olhos voltavam-se para Andilla.
V para casa, homenzinho foi o veredi
cto. O homem apressou-se em deixar alguns
Tibares sobre a mesa e sair.
Eu falei que ela resolveria disse Vallen Allond.
Mesmo assim, foi um risco retrucou Ellisa
orn, enquanto a companheira se sentava.
Como eu j disse, voc est
cando cautelosa com a idade, Ellisa Andilla riu
A V    T 
Gregor o nosso escudo riu Ashlen. Pa
ra um rapaz to pequeno, ele certamente
bebia muito, pensou Kodai, e falava mais ainda. Em Tamu-ra, Ashlen no teria idade para se
aventurar sozinho.
Enquanto Gregor e Ashlen conversavam com o tamuraniano, Nichaela observava a
conversa, fazendo parte mas nunca falando. Va
llen, Ellisa e Artorius discutiam planos de
batalha sobre um mapa rascunhado. Andilla tambm fazia parte da discusso, mas estava
ocupada com as cervejas. Rufus Domat lia em
silncio. Seus olhos insistiam em fugir da
pgina para Ellisa
orn.
Andilla carregava trs canecas cheias at as bordas, e sentia o escrutnio dos clientes
na sua aparncia estrangeira, no seu grande machado, nas suas roupas breves, no seu
corpo exclamativo. Era mais estranho ai
nda saber que os olhos pesando sobre ela
eram amarelos, ou verdes e fosforescentes, ou totalmente azuis, ou com tantas outras
caractersticas bizarras. Ela largou as bebidas
sobre a mesa com um estrondo, e se voltou,
retornando os olhares.
O I  M
STAVAM NA TAVERNA DO OLHO DO GRIFO, EM HOREEN, SENTA
dos em uma mesa no canto.
Sempre morremos, mas sempre voltamos
disse Gregor Vahn para Masato. Assim
so os paladinos de
yatis. a bno que o Deus da Ressurreio nos concede. til riu.
Masato Kodai observava aquelas pessoas com interesse e cuidado. Mesmo aps um mero
dia de convivncia, pareciam t-lo aceitado; conversavam com ele como se fosse um companheiro.
Estranho, guerreiros, magos e sacerdotes se comportarem assim. Em Tamu-ra, o populacho
falava daquele modo entre si, mas as castas
superiores obedeciam protocolos formais o tempo
A P
Carregam seu companheiro ferido desta forma? bradou Masato Kodai, novamente
preparando a espada. Ou este
um prisioneiro, brbaros?
Oh, eu no estava ferido disse o hom
em que se levantava. Estava morto. Meu
nome Gregor Vahn. Sou um paladino de
yatis. Este o melhor jeito de carregar um
cadver, no acha?
Decidiram caminhar juntos at a cidade de Horeen. Masato e Vallen no estavam
muito satisfeitos com a presena um do outro, mas aventureiros aprendem rpido a tolerar
pessoas estranhas.
Ento, somos nove disse Ashlen. De alguma forma, parece um bom nmero.
O I  M
A P
Ao comando de Vallen, todos se aprumaram e comearam a cruzar a ponte. Pararam
quando, na direo contrria, vinha um guerreiro.
Vallen tomou a frente do grupo, seguiu caminhando com lentido, tentando analisar o
homem. Suas mos estavam prontas para pular
em nas duas espadas que carregava na cintura.
O guerreiro tambm avanava lento, tentando analisar o grupo no escuro.
Com mais proximidade, Vallen parou onde estava, sem ter certeza do que fazer.
sua frente, estava um guerreiro, sim, mas di
ferente de todas as pessoas que ele j vira.
Sua armadura cobria o tronco e os ombros, muito trabalhada, trazendo a figura de um
tigre na rea entre o peito e a barriga. O resto das roupas era igualmente refinado, de
cores fortes, verde e vermelho. O guerreiro trazia o cabelo negro preso em um coque no
alto da cabea, e sua pele era amarelada. Os olhos eram pequenos e rasgados, pareciam
trazer uma espcie de ferocidade estrangeira,
e ele tambm carregava duas espadas. Uma
bastante curta e outra longa, ambas de lminas esguias e curvas. O guerreiro segurou a
bainha da espada longa com uma das mos, e a outra foi ao cabo da mesma espada. No
fez meno de tocar na lmina curta.
Vendo o gesto, Vallen cruzou os braos na frente do corpo, cada mo agarrando o cabo de
uma espada. Suas lminas tambm tinham comprimentos diferentes, mas as duas eram retas
e grossas, e, diferente do outro hom
em, ele no tinha pudor em usar ambas.
Quem voc? disse Vallen.
Apenas um brbaro faz tal pergunta sem se apresentar primeiro foi a resposta.
O grupo permanecia em tenso atrs de Vallen. Ellisa j tinha o arco em suas mos,
enquanto que Andilla empunhava um machado.
O I  M
Avistaram a ponte sobre o Coraan. Era estreita
, modesta como tudo em Collen. J estava
A P
A meio-elfa sorriu para cima, para o rosto bestial do amigo. Era muito difcil decifrar
as expresses na face de um minotauro, mas a convivncia ensinara Nichaela que aquilo era
preocupao genuna. Apressou-se em dizer qu
e estava bem, e que seguissem viagem logo.
Mas obrigada, Artorius mais uma vez, iluminou o seu redor com um sorriso.
Muito bem! gritou o que parecia ser o lder, agarrando de novo a mo da jovem ao
seu lado. Chega de amolecer nossos traseiros! Vamos em frente.
Sem demora, todos se puseram em marcha rpida; Andilla correndo frente em busca
de problemas. O garoto, tirando seus cabelos compridos e revoltos dos olhos, pegou uma das
extremidades do fardo, enquanto esperava que seu companheiro apanhasse a outra.
No justo, no acha, Rufus? disse o rapaz, rindo. Ningum nunca
perguntou para mim
Ashlen, est tudo bem? Quer algo? Uma massagem nos ps ou um ch
voltou a rir, mas o outro no o acompanhava. Parecia ocupado demais em
recuperar o flego.
Ela uma clriga, merece respeito, de
voo, cuidado disse Rufus Domat, sem
conseguir esconder uma ponta de amargura.
Mesmo quando se um clrigo minotauro,
aparentemente se bom demais para carregar peso. Mesmo quando se um servo do Deus
da Fora, vejam s!
Ashlen afastou de novo os cabelos que insistiam em atrapalhar a viso e lanou um olhar
de estranhamento para o companheiro.
E no me venha com
massagem nos ps ou ch com mel
Rufus fez uma tentativa
de humor. Seria melhor lhe oferecer uma rapa
riga de taverna ou um odre de vinho no
foi bem-sucedido. Talvez estivesse
cando velho demais. Talvez estivesse
cando velho demais
para tudo aquilo.
Ashlen no disse nada. Rufus tambm preferiu
car calado e manter os olhos na estrada
frente. Contudo, seus olhos estavam muito mais voltados para os companheiros, que viajavam
na frente e ganhavam mais distncia medida que seu cansao deixava-o para trs.
O casal, Vallen Allond e Ellisa
orn, destacava-se, mesmo com a presena do minotauro,
da meio-elfa e de todos os outros. Vallen, com seus cabelos rebeldes louros de palha, exalava
uma con
ana que fazia dele o lder natural daquelas
pessoas. Ellisa era seu par ideal, bonita e
feroz. Eles sempre pareciam saber o que fazer, pensou Rufus. Sempre fortes, capazes, precisos.
Ambos bem mais jovens, e no entanto ele os se
guia. O pior: Rufus sabia que isso era certo.
O I  M
Mas, em nome da praticidade, suas botas eram grosseiras e resistentes, boas para caminhar
muito, e a bainha de seus robes estava amarrada s pernas, evitando a maior parte da lama.
Ele era um pouco calvo, sua testa se alongando e devorando os cabelos negros. Devido
altura atarracada e ao estmago um pouco fart
o, ofegava enquanto, juntamente com o rapaz,
carregava um fardo envolto em panos brancos.
Havia uma mulher, que caminhava frente do grupo, s vezes parando, correndo em
direes oblquas e forando a vista procura de perigos que ningum mais podia ver. Seus
cabelos louros, amarrados em duas tranas grossas, juntavam-se pele branca, avermelhada
de calor, para denunciar que ela vinha de terras geladas. Usava roupas su cientes apenas
para cobrir o que a modstia obrigava; era claro que, mesmo no entardecer fresco, sufocava
naquele clima.
Logo atrs dela, um homem e uma mulher, ambos jovens, caminhavam sem preocupao.
Carregavam mais armas que qualquer um naquele grupo; de suas roupas, cinturas, mochilas,
pendiam espadas, arcos, aljavas cheias de
echas. Davam-se as mos, como um casal de
camponeses, sem a vergonha, a disc
rio e o re namento das cortes.
Eram estranhos quela terra, mas no estavam perdidos. Com uma troca rpida de
palavras, o casal parou.
Andilla! disse o homem jovem. Onde estamos? Quo longe?
Andilla Dente-de-Ferro, que ia frente, perscrutou mais uma vez em volta, apertando os
olhos contra a escurido que caa, e retornou alguns passos na direo de seus companheiros.
Todo o grupo agora estava parado.
Aquele o Coraan disse ela, apontando para o rio frente. Depois que passarmos
por l, mais um dia.
Algum perigo? Algo que devamos temer? disse dessa vez a jovem, segurando a mo
de seu companheiro. Ela era bela como um lobo.
Andilla riu.
Voc est
cando cautelosa com a idade, Ellisa todo o grupo compartilhou da
risada, menos a garota meio-elfa. Estamos em Collen, qual a pior coisa que poderia
acontecer? Os aldees olharem atravessado para ns?
Mais uma gargalhada rugiu em meio ao grupo. Os dois que carregavam o fardo
aproveitaram para pousarem-no e descansarem os braos. O que quer que levassem por baixo
dos panos brancos (agora j bastante sujos) er
a algo comprido, como um tapete enrolado;
pesado e incmodo. O garoto sentou-se no cho, abriu o cantil e bebeu um gole. O homem
mais velho espanou a poeira dos mantos. Como
se houvessem combinado, todo o grupo
voltou-se de uma vez para a meio-elfa.
A P
AVIA UMA BELA PLANCIE CONTORNADA POR UMA FLORESTA,
e um rio cortado por uma ponte. O sol j se prep
arava para se esconder, e o cu era laranja. A
relva era verde, escurecendo enquanto escurecia o cu, e, por enquanto, aquele era um bom
lugar, e bonito. Mas talvez em breve no existisse mais. Muitas coisas naquele mundo, em
breve, deixariam de existir.
Collen era uma ilha; uma ilha bela e tranquila;
uma bela ilha, tranquila e estranha ilha.
Todos os que nasciam em Collen tinham olhos
exticos, de cores dspares. Muitas vezes
amarelos, vermelhos, lilases, inteiramente negros
ou com pupilas verticais de gato. Era o que
os diferenciava, isso e nada mais. No havia gu
erras em Collen, no havia quase heris, e nem
batalhas ou histrias trgicas a serem contadas. Collen era uma ilha no mundo de Arton,
isolada, pelo mar e pela paz, do turbilho de acontecimentos do continente.
O I  M
Errado, disse Irynna. Ela havia apenas fechado os olhos e
cado imvel, e controlado sua
respirao por oito horas. No dormira um mi
nuto sequer. Sabia que a clriga no dormiria
enquanto no julgasse que ela prpr
ia adormecera, por isso havia ngido.
Athela estremeceu, porque sabia que era
verdade. Mas tentou convencer-se do
contrrio.
Minha vida acabou, Athela. Eu no preciso mais disso, s preciso que ele morra, e
ento posso ir tambm. Eu j acabei aqui.
mentira tambm a clriga quase gritou. Voc pode continuar o negcio do seu
pai. Pode casar. Est na idade.
Meu pai est morto disse Irynna. E eu tambm.
Como toda clriga de Lena, Athela havia dado luz antes de poder entrar para a ordem.
Apenas gerando a vida, pregava a deusa, as clrigas entenderiam o porqu de nunca tir-la.
Athela imaginou se no
caria como Irynna, caso sua lha morresse.
Voc tem dinheiro disse, sem convencer nem a si mesma. Pode fazer o que
quiser.
Este dinheiro j tem um m. Co
ntratar algum para ca-lo e mat-lo.
Athela suspirou. Era s o que fazia ultimamente;
suspirar e afundar na tristeza da amiga.
Rezou a Lena para que a misria de Irynna no a engolisse.
Se isso mesmo o que quer mais um
suspiro eu tenho uma amiga que pode
ajudar voc.
Pela primeira vez em quatro dias, uma fagulha no olhar de Irynna.
Mesmo? quase um sorriso. Quem ela?
uma herona.
O I 
enterravam na sua carne em intervalos regulares. O combate deixou a casa, e ela perdeu o
estranho de vista, mas antes prestou muita ateno nele. A nal, ele havia matado toda a sua
famlia. Era a pessoa mais importante da sua vida.
O intruso era muito alto, talvez o humano mais alto que ela j vira. Sua pele era branca
como cal, seus cabelos curtos quase da mesma cor. Os olhos eram vermelhos. Talvez fosse
natural de Collen, pensou Irynna.
Mas no. Era s um albino.
O intruso vestia roupas muito menores que ele mesmo. Tinha uma casaca vermelha que j
devia ter pertencido a um nobre, calas de mont
aria beges, e um avental de aougueiro, branco
e imundo. Por cima de tudo, uma capa esfarrapada e negra. No calava sapatos certamente
no conseguira encontrar nenhum par que servisse, pensou Irynna. Tinha ps enormes.
Muitas horas depois, o capito da milcia achou-
a, ainda fechada dentro do armrio. Ele
tentou explicar o que havia acontecido, mas Irynna interrompeu-o.
Minha famlia morreu. Eu sei. Eu vi.
Ela percebera o quanto o capito estava ar
rasado por ter de lhe dar a notcia. Achou
melhor simpli
car tudo. O capito tambm disse que o intruso havia fugido, sumido no meio
oresta, mas Irynna tambm j sabia. Ela achava que saberia, caso o intruso morresse.
O capito da milcia, relutante, mandou re
colher todos os corpos e organizou uma
caada. Dez de seus homens haviam morrido naquela tarde. Todos estavam em silncio.
Aquele era Petrynia, o Reino das Histrias, mas aquela era uma histria que ningum
queria contar.
Coma disse Athela, a clriga de Lena, olhando impotente para Irynna. As duas se
conheciam desde crianas.
No quero disse Irynna. No tenho fome, voc sabe.
Athela levantou-se e pousou a tigela e a colh
er sobre uma mesa simples. As duas estavam
em um templo de Lena, a Deusa da Vida. Athela morava l, e Irynna tambm, h quatro dias,
desde que o estranho visitara sua casa. Athela havia aprendido a ser calma e gentil quando
assumira o clericato, mas agora sentia vontade de dar um tabefe na amiga. De alguma forma,
tir-la de sua apatia.
No quero mais comer, Athela, n
em dormir. At que ele esteja morto.
A clriga andou um pouco pelo quarto, sem
ir a lugar algum. Irynna estava deitada,
como estivera nos ltimos quatro dias, com a mesma roupa e a mesma expresso
indiferena e certeza.
mentira disse Athela, esboando um sorriso aucarado. Voc dormiu ontem
e anteontem. Eu vi.
O I  M
OIS GUARDAS INVESTIRAM CONTRA O DESCONHECIDO, E O
primeiro morreu em seguida, com uma faca de cozinha entre os olhos. O segundo guarda
hesitou, pisou em falso e foi derrubado por um salto do estranho, que subiu em seu peito com
os joelhos. O guarda sentiu um agarro rme tr
ancando o brao, os ossos do pulso quebrando
e uma dor aguda; mordida na garganta. O intruso
se levantou, a boca e o peito encharcados
de vermelho, e olhou sua volta.
Estava cercado. Seis outros guardas sua
volta, o senhor que gritara e dois rapazes
jovens, mas o intruso no contou quantos eram. Talvez no se importasse, ou talvez no
mortais, e ns sabemos como eles morrem rpido. Se Nimb
zer algum movimento mais
ousado, toda a justia de Khalmyr pode desaparecer, e mesmo ele ter di
culdade em ensin-
la de novo a um mundo catico. por isso qu
e somos todos to frgei
s, e por isso que
devemos manter o equilbrio.
Glrienn sabia a frase que viria a seguir, mas no evitou um esgar de nojo ao ouvi-la.
E por isso que voc no pode,
, destruir Ragnar. Caso um de ns caia, ningum
sabe foi interrompida novamente pela Deusa dos Elfos, desta vez com um urro.
Tanna-Toh esperou com pacincia at que a ou
tra silenciasse. Continuou mirando-a com
seus olhos de av at que Glrienn falasse.
Eu tenho medo.
Tanto medo...
E se eu...
Morrer? disse Tanna-Toh, impassvel. Na verdade, uma minscula fagulha de
curiosidade brilhou em seus olhos, com a impie
dade dos cientistas dedicados. Ningum
sabe. Nunca descobrimos o que houve com Sszzaas. Se algum dos Deuses Maiores
morrer, ento ns descobriremos, nalmente, qu
al o nosso destino aps a morte. E haver
conhecimento novo.
A conversa com Tanna-Toh no serviu em nada para dissuadir Glrienn. Tanna-Toh
devia aquilo a ela, todos os outros deviam, por no haverem intervindo quando a Aliana
Negra destrura Lenrienn. A revelao da existncia e localizao da Ordem Morta de
Vidncia e Numerologia havia apenas comeado a pagar essa dvida. Mas Glrienn sabia que
agora teria uma arma, se conseg
uisse botar seu plano em prtica. A tempestade que viria de
longe varreria todos os seus inimigos.
Moveu a primeira pea. Anos antes, em algum lugar de Arton, uma menina meio-elfa foi
adotada pelas clrigas de um templo de Lena, que decidiram cham-la Nichaela.
C   
O I  M
Tanna-Toh olhou Glrienn com uma piedade impotente. H poucos dias, o reino dos
elfos, Lenrienn, havia sido devastado pela Alian
a Negra, um imenso e terrvel exrcito de
globlinides que ningum at ento pensava po
ssvel. Liderada pelo general monstro
wor
Iron st e
el ao deus Ragnar, a Aliana havia chacinado milhares de elfos em pouco tempo,
e por causa disso Glrienn consumia a si me
sma em dio. A Deusa dos Elfos era o tipo de
vtima que continuava a machucar a si prpr
ia mesmo depois que seu algoz havia partido.
Ragnar vai cair Glrienn falou com uma certeza e crueldade que assustava at
mesmo a outra deusa. Iron st vai morrer. Toda a sua raa vai morrer. Todas as raas
goblinoides. Cada um deles...
Sua raiva transformava-se em dor fsica, em um engasgo e sensao de afogamento.
Glrienn apertou os dentes at trincarem, e enterrou as unhas fundo nas palmas das mos,
at que sangue escorresse farto de seus punhos fechados.
Criana comeou Tanna-Toh, mas logo foi interrompida.
Se todos os elfos morrerem, vou me tornar Deusa da Vingana. Serei mais cruel
que Keenn.
Tanna-Toh conhecia aquelas ameaas vazias.
Havia pouco que Tanna-Toh no conhecesse.
Voc sabe que isso no possvel. Voc a Deusa dos Elfos, sempre foi e sempre
ser. Antes de os elfos existirem, voc era a deusa do conceito de elfos e dos valores l cos,
e antes que criasse estes, ainda assim era a
deusa que iria cri-los
. No podemos mudar.
Voc sabe disso.
Glrienn no respondeu. Continuava a aperta
r os punhos e os dentes. Deixou escapar
um gemido dbil.
Assim como Khalmyr era o Deus da Justia mesmo antes de inventar a justia, e eu
era a Deusa do Conhecimento mesmo antes de cr
i-lo. Somos imutveis. Por isso os mortais
sempre sero superiores.
A outra deusa relaxou as mos e a boca, e abriu os olhos. Respirou com di
culdade; ainda
tinha a sensao de estar se afogando.
No verdade. No pode ser. Os mortais nos cultuam.
Os mortais fazem o que querem, Glrienn disse Tanna-Toh. E so o que querem.
Podem ser ferreiros, sapateiros, magos ou guardas. Enquanto ns estamos para sempre presos
em nossas celas de poder imensurvel. Nunca poderemos mudar.
A Deusa dos Elfos parecia prestes a desmoronar outra vez. Seu corpo todo tremia.
Pode ser fcil para voc falar. Voc a Deusa do Conhecimento, cultuada por todas
as raas. Mas o que eu farei se todos os meus lhos morrerem? agora, Glrienn parecia
mais uma criana confusa, fazendo perguntas
mulher mais velha enquanto odiava-a por
saber as respostas.
Acredite ou no, somos todos to frgeis quanto voc. Se todas as bibliotecas
queimarem, todo o conhecimento do mundo no durar mais do que algumas geraes dos
C   
destruio, sem sentido e sem propsito, podem causar. A tristeza de uma raa que, h alguns
dias, havia comeado a morrer. Todas as mes que adivinhavam os lhos mortos pelas partes
desencontradas de seus corpos, todos os lhos que viram os pais cuspirem sangue, todos os
maridos que enterraram as esposas estupradas
e esquartejadas choravam com aquela elfa, e a
eles se juntaram os Videntes Mortos.
A elfa subiu longas escadas, espalhando sua do
r insuportvel, e chegou sala do Mestre
da Ordem Morta de Vidncia e Numerologia. Um grande livro, quase to alto quanto dois
homens e grosso como o tronco de uma rvore adulta, dominava o ambiente, apoiado em
uma estrutura de ferro macio. Havia outros
livros e pergaminhos aos milhares, e penas
e tinta e bacos, e nmeros, mais nmeros do que um homem poderia contar em toda a
sua vida. Cheiro de mofo, forte. Em um canto, um velho, embrulhado em seus mantos
cinzentos, encolhido no cho, seu corpo salt
ando com soluos dolorosos. Conseguiu olhar
na direo da elfa e falar apenas uma palavra.
Chega...
A mulher suspirou. Limpou os olhos com as costas da mo, com a deselegncia de quem
j no se importa mais. Suas roupas estavam
bastante sujas, sua tristeza no era digna nem
heroica. Era s tristeza, e nenhuma palavra poderia ameniz-la.
Diga-me ento o que acontecer. O que eu posso fazer.
O velho conseguiu se recompor, secando as lgrimas, saliva e muco que haviam se espalhado
por seu rosto no meio do choro desesperado. Catou um pequeno par de culos do cho, olhou
gura sua frente e decidiu que era melhor
car no borro da miopia. Empertigou-se, de
um suspiro engoliu os soluos. Estava prest
es a fazer o que centenas de seus antecessores, seus
pais e os pais de seus pais, haviam se sacri
cado para garantir que nunca acontecesse. Por m,
respondeu a pergunta.
Haver uma tempestade...
A elfa voltou ao seu lar. Quase todas as suas rvores estavam mortas, e ela, aos poucos,
descobria que j no tinha mais foras para cuidar daquelas que ainda viviam. Era crepsculo j
h vrios dias por ali, e todos temiam o que pod
eria acontecer quando nalmente anoitecesse.
Uma velha senhora humana estava sentada no cho, em meio a um monte de folhas mortas.
Levantou-se quando viu a elfa chegar, e caminhou at ela com lentido. Em um lugar to
desolado, era difcil no ser moroso.
E ento, Glrienn? disse a velha senhora. Descobriu o que queria?
Glrienn, a Deusa dos Elfos, olhou para sua vi
sitante. Sentiu quando, subitamente, outro
de seus lhos morria. Fez uma careta de dor.
Sim disse entre dentes. Descobri uma arma. Eu vou vencer.
O I  M
de vidro, um infinito escuro e imvel. Es
te era o preo do conhecimento, e da devoo
suprema sua deusa.
As visitas de Tanna-Toh, a nica dentre deuses e mortais que conhecia a Ordem, eram o
pice da vida de qualquer membro, embora vrias geraes se passassem sem que a deusa surgisse.
Mesmo assim, o trabalho continuava com diligncia
; os nmeros, os clculos, o futuro e o destino
do mundo, e o prprio destino de quem nascia na Ordem traado desde o comeo. E a morte
ainda na infncia para aqueles que os nmeros in
dicavam que seria um rebelde. Os Videntes
Mortos rezavam para que nunca errassem um clculo. Mas Tanna-Toh nunca respondia.
Por tudo isso houve pnico quando chegou um visitante ao mosteiro envolto em brumas
da Ordem Morta de Vidncia e Numerologia.
A elfa caminhou distrada por entre os vrios humanos, quase todos en
ados em mantos
cinzentos, que corriam em todas as direes. Logo foi interpelada por uma dezena de homens
com espadas, alabardas e arcos.
Voc tem duas escolhas disse o que parecia ser o lder, armado com uma espada que
tinha quase a sua altura. Viver aqui pelo resto de sua longa vida, ou morrer agora mesmo.
A existncia deste lugar no deve deixar estas paredes.
As ameaas eram reais. Parte dos membros da Ordem treinava com fanatismo no uso
de armas, para dar cabo de qualquer intruso
que, por um infortnio qualquer, encontrasse
o mosteiro, que era escondido dos olhos mort
ORDEM MORTA DA VIDNCIA E NUMEROLOGIA NUNCA
recebia visitantes.
Seus membros eram os maiores devotos de Tanna-Toh em todo o mundo de Arton,
mais
is at que os clrigos da Deusa do Conhecimento. Pois os Videntes Mortos no eram
clrigos, no recebiam o favor da deusa, nem nunc
Para Patricia, por tudo.
Copyright 2006-2013 por Leonel Caldela
Editor-Chefe:
Guilherme Dei Svaldi
Editor:
J.M. Trevisan
Capa:
Julio Leote e Rodrigo Reis
Reviso:
Gustavo Brauner e lvaro Freitas
Logotipia:
Fabio Akio Fugikawa
Diagramao:
Guilherme Dei Svaldi
Cartogra
a:
Dnamo Studio
Conto
O clice
por J.M. Trevisan e Leonel Caldela.
Ilustraes por Patricia Knevitz (pginas
441, 444, 445, 448 e 449), Julio Leote (442 e 443), Erica Horita (446) e Paulo talo (447).
T uma criao de Marcelo Cassaro, Rogerio Saladino e J.M. Trevisan.
Todos os direitos reservados.
Obrigado ao Prof. Dr. Assis Brasil (por todos os ensinamentos), a lvaro Jamil
Freitas e o pessoal da Lista Tormenta (por todos os pitacos e piolhos catados) e a
Marcelo Cassaro e Rogerio Saladino (por toda a con
ana).
Todos os direitos desta edio reservados Jamb Editora. proibida a
reproduo total ou parcial, por quaisquer meios existentes ou que venham
a ser criados, sem autorizao prvia, por escrito, da editora.
Rua Sarmento Leite, 627 Porto Alegre, RS
CEP 90050-170 Tel (51) 3012-2800
[email protected]
www.jamboeditora.com.br
Publicado em junho de 2013
ISBN: 978858913493-4
Caldela, Leonel
O inimigo do mundo / Leonel Caldela; edio de J.M. Trevisan;
capa de Julio Leote. 3. ed. Porto Alegre: Jamb, 2013.
464p.
1. Literatura brasileira Fico. I. Trevisan, J.M. II. Leote, Julio. III.
Ttulo.
CDU 869.0(81)-311
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao
Bibliotecria Responsvel: Denise Selbach Machado CRB-10/720
3 EDIO
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